“Os madeirenses querem Paulo Cafôfo e um novo modelo de governação para a Madeira”, garante o secretário-geral do PS-M

“Um candidato não chega, é preciso mais. E é por isso estamos a trabalhar para um programa a apresentar à Região, em conjunto com a sociedade civil”. Foto Rui Marote

Se alguém pensa que o projeto do PS-Madeira para as “Regionais” de setembro, assenta apenas na figura de Paulo Cafôfo, como se sabe candidato socialista à presidência do Governo Regional, está enganado. Há mais vida (socialista) para além de Cafôfo. Há uma equipa, um projeto, um modelo direcionado para mudar a Madeira. Mudar a governação social democrata de mais de 40 anos é o objetivo. Quem aponta este quadro, em traços gerais, é o secretário-geral do partido, João Pedro Vieira, médico de profissão, vereador na Câmara do Funchal. Com 29 anos de idade, feitos em dezembro.

Os cartazes já “correm” por algumas ruas, em zonas estratégicas, Cafôfo na imagem e uma mensagem que aponta ao futuro. Cafôfo não é só a imagem, é a aposta, o trunfo do PS-M para conquistar o que nunca conseguiu, o poder regional. Anos atrás de anos, líderes atrás de líderes. Todos “queimados”. Dava sempre Jardim. Na perspetiva do PS-M, cujos responsáveis dizem sentir o pulsar do eleitorado, nunca a vitória esteve tão perto com este candidato.

Sentíamos esse apelo ao projeto alternativo

João Pedro Vieira fala das eleições e do modelo, o tal que coloca um líder do partido e um outro candidato a presidente do Governo, o lugar que neste momento é de Miguel Albuquerque. O modelo não testado no terreno. Mas é o modelo que quer colocar a Madeira em marcha, como o PSD cantou durante anos. E ainda canta. O secretário-geral socialista é claro quando afirma que este modelo foi sufragado pelas eleições internas, muito disputadas diga-se, os militantes escolheram. A partir daí, o projeto avançou.

Lança o raciocínio para 2017, foi nas Autárquicas, em outubro. Foi Funchal, Porto Moniz, Machico, Ponta do Sol. “Percecionamos que havia como uma convergência de vontades no sentido de empurrar Paulo Cafôfo para a frente, sentíamos esse apelo e foi criada uma janela de oportunidade para que o PS apresentasse um projeto interno, alternativo, que era precisamente ter um presidente do partido, o Emanuel Câmara, que tinha uma estratégia perfeitamente definida, que era apresentar Paulo Cafôfo como candidato a presidente do Governo. Essa estratégia foi sufragada nas eleições de janeiro. E em fevereiro, no congresso, ficaram definidas as linhas mestras dessa mesma orientação”.

Um candidato não chega, é preciso mais

Estava, assim, dado o mote para que, no terreno, o teórico fosse passado à prática. Uma prática que, como refere João Pedro Vieira, passou pela eleição das estruturas locais, pelos contactos com a sociedade civil, através dos chamados “estados gerais”. Depois, uma conjugação de esforços envolvendo autarcas, a convenção que juntou centena de meia de participantes foi disso exemplo, além do envolvimento dos grupos parlamentares, da JS, do movimento de mulheres socialista”. Tudo para chegar, agora, passado um ano, com a máquina operacional para enfrentar este ano de eleições.

O secretário-geral reconhece que o foco está nas eleições regionais. Não tem dúvidas que os madeirenses “querem Paulo Cafôfo”, reforça que “agora percebe muito bem isso”.

Trabalhar programa com a sociedade civil

Fala nas sondagens, mas fala mais do vê e ouve no dia a dia, no que sente mais propriamente. Mas alerta: “Um candidato não chega, é preciso mais. E é por isso estamos a trabalhar para um programa a apresentar à Região, em conjunto com a sociedade civil, discutindo áreas temáticas, como tem vindo a acontecer nos estados gerais. Temos candidato, teremos programa e teremos uma equipa, esperemos que seja aquela que a partir do dia 23 de setembro formará o futuro Governo Regional. As pessoas que estarão envolvidas nestas três eleições, são aquelas que vão representar este nosso projeto. E é preciso dizer que o projeto do PS-Madeira não será discutido apenas na Assembleia Regional, mas também no Parlamento Europeu e na Assembleia da República. Queremos um modelo diferente para a Região”.

É preciso não excluir a identidade socialista

“É preciso não excluir aquela que é a própria identidade do Partido Socialista, com expressão na própria vivência partidária na Região, mas também no trabalho dos autarcas.” Foto Rui Marote

João Pedro Vieira vai mais longe no enquadramento político que a Região vai viver em ano de eleições. Considera que “este é um projeto do PS, dos militantes e simpatizantes do Partido Socialista, mas que hoje já extravasou as portas do PS, que acolhe pessoas sem militância partidária”, mas deixa um “aviso à navegação”, uma posição que visa o sentido da união interna, quando afirma que “é preciso não excluir aquela que é a própria identidade do Partido Socialista, com expressão na própria vivência partidária na Região, mas também no trabalho dos autarcas. Precisamos de contar com todos para dar corpo ao projeto”.

E até que ponto essa posição de unidade choca com os recentes episódios que resultaram na saída do militante André Escórcio? É caso isolado? Como lida o partido com a situação? A estas questões, João Pedro Vieira responde com a clarificação das eleições internas, mas também esclarece, ele próprio, que “o projeto não renega aquilo que é o histórico do Partido Socialista. Não há, no PS-M, qualquer cisão. Há muito respeito por todos os socialistas e pelas divergências de opinião. Infelizmente, aquilo que aconteceu foi o pedido de anulação, por parte do militante André Escórcio, que foi por nós encaminhado para a estrutura nacional, que procedeu à desfiliação. Não foi uma situação da responsabilidade da estrutura regional, mas estamos disponíveis para, em conjunto com a estrutura nacional, encontrar uma forma de readmissão, se for esse o entendimento do Prof. André Escórcio”, até porque reconhecemos o seu histórico no PS”.

Este episódio surge na sequência da divulgação de um vídeo embaraçoso envolvendo o vice presidente do PS-M. A estrutura do partido não ficou incomodada com o sucedido? “O PS-M pronunciou-se na altura, lamentando o incidente. Julgo que o caso está entregue à Justiça, do ponto de vista da eventual utilização abusiva. Certamente que se trata de uma matéria que, oportunamente, poderá ter as devidas avaliações em função do que vier a ser encontrado”.

As pessoas compreenderam o projeto do PS

Depois de 40 anos de poder social democrata, o que é que o leva a pensar que este modelo agora apresentado pelo PS-M, ainda não testado na Região, dará resultado vitorioso? Esta é uma questão que o dirigente socialista explica com aquilo que podemos chamar de “vaga de fundo”: “Os madeirenses pedem uma mudança, de intervenientes e de políticas. E já manifestaram isso, primeiro em 2013 quando houve uma mudança na Câmara do Funchal, e depois confirmaram isso em 2017. Acreditamos que o PS encabeça essa oportunidade efetiva de mudança na Região e as pessoas compreenderam o projeto”.

De um lado, está Cafôfo, que vem da sociedade civil, foi assim que se apresentou ao eleitorado nas eleições para a Câmara do Funchal. Do outro, Emanuel Câmara que dá suporte à estrutura partidária. Como compatibilizar duas situações distintas sem chocar com as tendências internas no PS? “Não estamos perante realidades distintas, fazem parte da mesma realidade. O PS expressa aquilo que os madeirenses querem. Os madeirenses querem mudar pessoas e mudar políticas, querem respostas para as suas preocupações, como a Saúde por exemplo, as listas de espera. O governo do PSD não conseguiu resolver os problemas e outros até agravou. E nós queremos dar prioridades a assuntos como a Educação, dar um sinal à população que vamos apostar na qualificação das nossas crianças e jovens, numa Região com a mais alta taxa de abandono escolar do País. Queremos intervir na redução da taxa de desemprego, que tem a média mais alta do País apesar do Governo propagandear o crescimento há 65 meses. A verdade, acima de tudo, é que a Madeira precisa de alterar estas situações, precisa de um modelo que não esteja assente no betão. O PS, enquanto partido, está disponível para dar resposta à vontade da sociedade civil”.

Temos candidato, programa e equipa. É assim que vamos a votos

Um dos cenários mais do que prováveis, nas eleições de 22 de setembro, é não haver maiorias absolutas, a avaliar pelas sondagens, mas também pelos indicadores que a sensibilidade do dia a dia garantem, o que nos remete para uma realidade em que, seja qual for o vencedor, o passo seguinte é a negociação. Com dois sentidos possíveis, uma coligação ou um acordo de iniciativa parlamentar. João Paulo Vieira considera “muito cedo” para falar de eventuais acordos pós eleitorais:

– Temos um candidato, programa e equipa. É assim que vamos a votos. Julgo que já temos 17 partidos que vão a eleições e não podemos saber o figurino parlamentar que sairá das próximas eleições. Independentemente do resultado, estaremos disponíveis para liderar um Governo Regional, encontrando as soluções necessárias.

É preciso que os partidos clarifiquem posições

Mas uma coisa é certa, na ótica do nosso entrevistado: “É preciso que os partidos clarifiquem as suas posições. E aqui há duas situações, uma é a continuidade e outra é a mudança. Lembro declarações do atual secretário-geral do PSD, Dr. José Prada, que utilizou, no congresso do partido, a expressão “Mudança na Continuidade”. E acho que todos sabem quem é que apresentou expressão idêntica, o Dr. Marcelo Caetano, que falou em “Evolução na Continuidade”. Isso foi o que o PSD fez durante os últimos três anos, foi uma suposta renovação que afinal já não é. Aquilo que os partidos devem definir é se querem participar nessa continuidade ou se querem a mudança de governação na Região”.

Formação em Medicina passou pela UMa e pela Universidade de Lisboa

João Pedro Vieira formou-se em Medicina, com um percurso que passou pela Universidade da Madeira e pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Fez o internato do ano comum no Hospital de Santa Maria e o internato de formação específica em Saúde Pública. Em Évora, entre janeiro e outubro de 2017, até ao momento em que recebeu o convite para integrar a equipa de Paulo Cafôfo. “Isso fez-me regressar à Madeira, sentia o desafio que a realidade política poderia trazer em termos de mudança política na Região e queria dar o meu contributo neste momento histórico. Além disso, acho que chegou o momento das novas gerações darem o seu contributo para que o futuro da Região possa ser diferente daquele que foi até aqui”.