O comércio do passado… recordando…

Há dias, recordei aquele comércio tradicional de há mais de meio  século, e que aqui vou hoje relembrar ou dar a conhecer às novas
gerações, que deixou saudades em muitos de nós.

Começo pelo Bazar do Povo que em miúda me deliciava, ali no centro da  cidade com as muitas entradas e onde podíamos encontrar quase tudo, desde tecidos, atoalhados, papelaria, perfumaria, brinquedos, e sei lá que mais… Não havia nada que mais me chamasse a atenção do que aquele sistema de fios por cima das nossas cabeças, onde os empregados metiam o ticket da compra e o dinheiro, e que depois regressavam com o troco! Um espanto para a pequenada; mas,também, além da simpatia dos empregados de balcão, na secção de papelaria trabalhava uma senhora de meia idade, sorridente, que atendia os clientes estrangeiros nas suas línguas e que me levavam a desejar crescer e como ela falar fluentemente essas línguas.

Um dia, o Bazar do Povo surgiu com uma grande novidade: uma porta giratória! Eu e outras colegas quisemos logo experimentar, porém, as “caloiras” que nunca tinham andado nela fugiam ou gritavam assustadas, pois não sabiam sair a tempo.

As ruas de maior comércio na cidade eram a Rua do Aljube, com a Maison Blanche (Camacho’s), A Casa Inglesa, Farmácia Barros, Ourivesaria Symphronio e, na esquina frente à Sé, o café A Indiana, mais frequentado por cavalheiros de meia idade. A rua dos Ferreiros tinha lojas de ferragens, material eléctrico, escritórios de advogados, Papelaria Condessa, ourivesarias, e a Casa Figueira, a melhor e mais actualizada livraria; da parte superior dessa rua, depois da Igreja do Colégio, estavam as lojas de provas de vinhos e uma chapelaria, creio a única da época. Ainda no largo do Colégio ficava a grande Confeitaria Camacho. O dono, um senhor bastante idoso estava sempre na secção da pastelaria, com as vitrines sempre recheadas de bons pastéis, mas sobressaiam os bolos de coco, sempre cobiçados pela rapaziada que comiam 3 ou 4 e pagavam  dois, aproveitando-se da memória cansada do sr. Camacho. Havia, ainda, uma pequena secção com produtos para bolos e garrafões de água do Porto Santo, geleias e mais compotas. Outra rua bastante visitada era a rua da Carreira com a ora centenária Photografia Vicentes, O Chiado, a pastelaria Lua, Pensão Marques, Pharmácia Honorato e, mais tarde, esteve a funcionar a Escola de Artes. Havia, também, a Casa Pathé, que creio ter sido uma das
primeiras lojas de material fotográfico desde os anos 20.

Na esquina da rua das Pretas ficava a Salsicharia Bach, fundada por comerciantes alemães, mas nessa rua havia igualmente uma das mais especializadas confeitarias do Funchal, a Confeitaria Felisberta.

A rua João Tavira possuía uma muito antiga loja, O Talassa, onde se comprava tudo o que se precisava para a Festa: lapinhas de vários tamanhos, pastores, anilinas, escadinhas, o galo que não podia faltar, Meninos Jesus, bombas de rebentar ao atirar ao chão, foguetes, etc., sempre bem atendidos por uns velhotes de bata cinzenta, o que escurecia a loja ainda mais; havia a Casa Alemã, uma loja grande de ferragens, uma alfaiataria cujo dono era pai de uma finalista do Liceu, a Lizete – que eu conhecia por ser aluna de meu pai – e lembro-me da Sapataria Calado no alto da Rua dos Tanoeiros, da loja O Leão das Louças na Rua do Esmeraldo, o grande edifício dos Lojas na esquina da Rua Dr. Fernão de Ornellas, o Cine -Parque e o Cine-Jardim, cinemas ao ar livre em dois locais opostos da cidade, e o Solar da D. Mécia.

A casa de bordados Lino& Araújo, a pastelaria Penha d’Àguia e os seus petit -fours e queijadas famosas; as ruas do Bispo e do Castanheiro com os cartórios de advogados, a Casa Santo António com ferragens e tudo o mais para construção civil, junto à ponte do Cidrão.

Lembro ainda a casa Minas Gerais, junto à rotunda do Infante, onde se encontrava tudo quanto era da parte mercearia e doces, principalmente do estrangeiro. Quanto a farmácias, ainda existem a Boutique Inglesa e a Farmácia Portuguesa.

E não quero finalizar sem lembrar aqui o chinês das gravatas, o primeiro de que me lembro na cidade, que andava com uma comprida régua de madeira ao pescoço e donde pendiam as gravatas coloridas para vender e ele dizia:  “glavatas balatas”.

O “nosso” Golden Gate era uma das imagens de marca da cidade: NÃO DEIXEM DESAPARECER .