O beijinho da avó

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnSomos, na realidade, “um povo de mão cheia” De repente, um “aluado” qualquer, que por acaso em matéria amorosa até defende o “tudo ao molho…”, há quem chame “poliamor”, deve ser como polidesportivo, vem dizer que é violência obrigar as crianças a darem um beijinho ao avô ou à avó e pronto, já temos conversa para uma semana e mais. Assim mesmo, lado a lado com a noite de Ronaldo em Las Vegas. Ou com aquele novo programa, que promete ainda mais audiências, de uns senhores e senhoras que vão casar e nem se conhecem, fazendo-o como quem vai comprar um “chupa-chupa”. Mas gente a ver que não é brincadeira. Casados à primeira vista. Assim, à primeira vista, mais um sucesso de audiências.

O tal do beijinho, que dizem ser professor, ficou famoso num abrir e fechar de olhos, até é mais num abrir e fechar de boca para dizer coisa nenhuma. Mas é assim, há um povo que quer mesmo é que as pessoas digam nada para depois poder dizer tudo e mais alguma coisa durante muito tempo.

É assim desde sempre, mas ainda mais desde que as televisões começaram a concorrer para o “quanto pior, melhor”. Tudo o que mexe dá opinião, e depois consideram estranho que, no meio dessa distração, a Justiça mande para casa um tipo com uma mão cheia de pena suspensa por ter feito qualquer coisa com as duas mãos, e mande para a cadeia um homem que tentou roubar e que saíu com uma mão à frente e outra atrás. Com isso é que ficamos suspensos na nossa própria existência, uma existência em que, na maior parte do tempo, andamos distraídos. E é claro, quando assim é, quem tem pelo menos um olho aberto leva vantagem.

A sociedade em que vivemos é, desde há longo tempo, uma sociedade de consumo imediato. Não é de estranhar, por isso, que os políticos também sejam assim. E quem não era, aprendeu rápido. Política superficial, promessas superficiais, discurso superficial. Para governados assim, governantes assim. Esquecem todos, porque a falta de discernimento impede, também a incapacidade de gerir o que quer que seja e a ambição pessoal desmedida, que os resultados eleitorais começam, também, eles, a assentar na superficialidade, fomentando o efeito “trumpismo” ou o efeito “bolsonarismo”, para citar dois mais mediáticos. Antes, era só para protesto, agora é para vencer mesmo.

Em matéria política, onde a governação está partidarizada e os partidos estão governamentalizados, os primeiros anos dos mandatos não contam muito no patamar da avaliação. Não contam para governantes, não contam para governados. O que conta mesmo é o último, o que antecede as eleições, onde os orçamentos revelam governos de “mãos largas”, cujos montantes distribuídos, às vezes, deixam todos de “boca aberta” quando o discurso anterior era de grandes dificuldades e aperto. Repentinamente, aparece dinheiro de fartura, para obras, para instituições, para reivindicações, muitas delas justas e de há muito tempo, mas que agora é que é, é mesmo aproveitar o que já veio e o que ainda falta vir até 2019.

Por aquilo que temos observado, pela amostra diga-se, já podemos deduzir o que nos reserva o final deste ano e o próximo, um ano de grandes decisões, na Europa, na República e na Região. Com um peso acrescido pelo facto de estarmos perante uma interrogação nacional de saber até que ponto esta fórmula de governo, a que muitos chamam de “geringonça”, mas que tem suporte constitucional, poderá resistir para mais quatro anos.

O mesmo peso ocorre na Madeira, onde a questão é mesmo saber se Cafôfo, candidato à presidência do Governo na lista do PS, consegue afastar Miguel Albuquerque, que mal saiu de uma vitória depois do reinado longo de Jardim e já tem um candidato de peso que não lhe dá descanso. Albuquerque deve estar arrependido de não ter feito os primeiros anos como este, embora se calhar não havia dinheiro que chegasse. São questões demasiado importantes para que possamos reduzir a relevância das eleições de 2019, antes pelo contrário, todos irão dar tudo, é realmente o “tudo ou nada”, no caso da Região é um modelo nunca antes visto, uma vez que é a primeira vez que se perspetiva uma disputa desta dimensão entre PSD e PS, sem que obviamente possamos colocar de lado os outros partidos, que até podem ter um protagonismo elevado se não houver maioria absoluta do vencedor e, com isso, for necessário recorrer ao “fiel da balança”.

Por isso, não é surpreendente o que temos assistido de negociação e benesses, englobando os dois governos, de lá e de cá, de cedências, de distribuição de verbas, de promessas, de um conjunto de situações que colocam os portugueses numa espécie de “nuvem”, como aquela que a tecnologia oferece para colocar os arquivos. Nunca se sabe onde está, fica algures entre qualquer coisa e coisa nenhuma. Passes na área Metropolitana de Lisboa a 40 euros, no máximo, crianças até 12 anos não pagam, aumentos da Função Pública, descongelamentos de carreiras, impostos a menos por um lado, talvez a mais por outro, mas parece sempre melhor do que era, classes satisfeitas, umas mais do que outras, mas numa procura abrangente, apoios garantidos aos regressados da Venezuela, ferry, só no período do sol mas promessa cumprida na mesma, helicóptero de combate aos incêndios, hospital que a República faz que dá muito e dá pouco, numa marcação cerrada a ver quem cumpre e quem não cumpre, enfim, inúmeras situações, que davam para fazer o que antigamente se fazia nas mercearias, um rol. Para os mais novos, o rol era uma lista onde o merceeiro apontava as compras e no final do mês o cliente pagava. Quando pagava…assim mais ou menos o que acontece nos três primeiros anos das governações, com alguma ironia pelo meio, mas com muita realidade que facilmente se constata. O último ano é para pagar. Caso contrário, os “merceeiros” deste país podem mandar assentar “rol” noutro lado.

É esta superficialidade que não nos permite ver nada. E “eles” sabem disso. Eles, entenda-se, políticos de todo o lado, deste Mundo, deste País, desta Região. Sabemos, assim por alto, que há um novo plano de reformas antecipadas, meio ou todo incoerente, que há uns dinheiros por explicar de gestões bancárias, que há uns ajustes diretos que vagamente se conhece, mas todos legais, umas verbas distribuídas, umas contratações à medida mesmo sem serem necessárias, mas a “conselho” da clientela, tudo assim, passando como diz o povo “nas barbas” dos portugueses. Que se indignam com “tão pouco” e ficam sem tempo de indignação quando há “muito”. Uma questão de análise.

E realmente, para quê discutir a fórmula dos impostos, a reforma antecipada, a lista de espera dos hospitais, a falta de medicamentos, os ajustes, diretos ou indiretos, as obras e as adaptações do PDM e de todos os outros planos, de pormenor e de “pormaior”, se podemos ver, sentadinhos no quentinho do sofá, um indivíduo qualquer a dizer que é violência dar um beijinho à avó. E passa a tema nacional. Damos murros na mesa do centro, chamamos tudo e mais alguma coisa e vamos tomar um café.

Isso passa…como o resto.


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