Das distopias migratórias às fronteiras da utopia

Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

(*Professora na Universidade da Madeira

 Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa)

Textos das mobilidades e das encenações à deriva, os mundos representados em Uma Terra Prometida. Contos sobre os refugiados (2016) resultam de várias situações fraturantes. Captadas por nove escritores, apresentam-se como narrativas de uma contemporaneidade extrema. O leitor encontra múltiplas situações que reenviam para os dramas do século XX e XXI. As disforias dos anos 60-70 em contexto pós-colonial e as dissonâncias da hodiernidade, por vezes projetadas numa sociedade futura, têm uma presença relevante na arqueologia do livro.

Sob o signo da viagem e da espera, a ilustração e o vocábulo na capa do livro (REFÚGIO. s.m. Espaço físico que oferece condições de segurança ou estabilidade) dão o mote a dições da indiferença social, traumas de guerra e comportamentos absurdos da sociedade “pós-humana”. Os diferentes olhares sobre a cultura da indiferença, “a expulsão do outro” (título do livro de Byung-Chul Han), o abuso sobre o semelhante, o reconhecimento (por vezes assustador) do império da técnica e do tecnológico podem, decerto, consciencializar os diferentes leitores.

Quem poderá então (re)encontrar práticas do Care? Quem deverá promover o cuidado com o Próximo? Quem poderá dizer a urgência da mudança? Quem poderá alertar para a robotização do gesto? Quem poderá contrariar as identidades subtraídas? Não quero enveredar por caminhos que melindram alguns intelectuais. Todavia, na deriva dos nossos tempos, a literatura pode (ou não) ter uma função? Cito José Eduardo Agualusa: “Um bom leitor é um leitor mais informado e responsável; formando leitores estamos também desenvolvendo a empatia e o interesse pelo outro.” (O Paraíso e outros Infernos, Quetzal, 2018, p, 308). Acredito na literatura como lugar de partilha, de encontros e de desassossegos (sempre necessários). Nela encontro silêncios, elipses, respostas e assombros. Neste sentido, recordo de novo Agualusa: “Toda a grande arte tende a incomodar, na medida em que questiona o pensamento e os valores dominantes.” (Paraíso, op. cit, p. 296).

Assim acontece com Uma Terra Prometida. Contos sobre Refugiados.

Afonso Cruz recupera o impressionismo pictórico de Edouard Manet. Através de um tom cáustico, o olhar da voz do texto apresenta, porém, uma narrativização da indiferença da sociedade tecnológica e burguesa dos nossos dias (“Déjeuner sur l’herbe com alguém a afogar-se”). O vazio existencial, a sociedade do polegar (imagem que retomo de Michel Serres ao referir-se à geração da internet e das tecnologias) e os laços fúteis dos protagonistas são o exemplo da “modernidade líquida” (expressão conhecida de Zygmunt Bauman). Estas formas liquefeitas e efémeras que atravessam a atualidade devem inquietar os nossos sentidos.

O humor é captado na ucronia de Ana Margarida de Carvalho (“Melhor a ementa que o cianeto”). As Casas de Repouso, cujo objetivo é praticar “a alegria com caráter de urgência” (p. 22), são frutos da “teoria” do Comité de Remissão Social de Culpas Europeias no Caso dos Refugiados da Síria (CRSCECRS). Humor negro? Ou vaticínio? Nenhum grupo deve ser enclausurado numa fotografia a tom sépia. Nenhuma sociedade pode estar à margem. Regressarei a este texto num estudo mais aprofundado.

Carlos Vale Ferraz, escritor reconhecido no âmbito da literatura de guerra colonial, regressa a África. Convocando a figura do mercenário Jean Schramme, a narrativa reenvia, em particular, para os conflitos do ex-Congo Belga. O texto acentua, ainda, os estilhaços provocados pelo protagonista. A leitura deste texto envereda por identidades à deriva, fraturas familiares e trilhos intransponíveis.

A descrição dos conflitos e os traumas identitários surgem no texto de Cristina Camacho (“O meu prédio”). O narrador, ora adolescente em pleno cenário de guerra, ora adulto na Europa que o acolheu, transporta o leitor para o verdadeiro sentido do drama humano. Pode ser um quadro dissonante da Síria. Trata-se de uma moldura distópica de lugares submetidos à força bélica: destrutiva, arrasadora e impiedosa. “[A] cor da guerra” (p. 65), o “destino [que] é o mar” (p. 83) e a fragmentação forçada não são miragens. O texto sublinha infâncias destroçadas e gerações irremediavelmente perdidas.

Na narrativa de Filomena Marona Beja (“Ilumbe”), os protagonistas acreditam numa época melhor. O jovem casal pode representar a metáfora da renovação de África. O ritmo da narrativa acentua a instabilidade dos momentos de transição. Porém, outras forças emergem. Seguem-se as neocolonizações. Ilumbe parte para o norte da Europa. Matuta opta por Lisboa. Com uma formação sólida, Matuta insere-se na sociedade portuguesa. A educação foi e será sempre uma mais-valia. Não duvido.

Através de um jogo temporal que se desdobra entre 1961 e 1970, José Fanha (“Outra luz”) recupera o tempo da velha senhora. A voz do texto refere a guerra colonial, a fuga ao conflito numa viagem “a salto”, o contacto em Paris com uma cultura à beira de maio de 68, a viagem para Amesterdão, “a cidade de todos os espantos” (p. 117).  O norte da Europa tem, de facto, “outra luz”. Mas também essa luz pode ser severa. Para Diogo, trata-se de lugar de crescimento e de descoberta da verdadeira essência da figura paterna. A guerra implica laços familiares fragmentados, estilhaços identitários dificilmente recuperáveis e memórias traumáticas.

Em Uma Terra Prometida as narrativas relevam viagens incertas, acentuam inúmeros obstáculos e dão a ver os tormentos da realidade. Miguel Real (“Europa! Europa”) homenageia Aylan Kurdi e a inocência perdida. A imagem da criança morta no areal de uma praia da Europa está gravada na memória de todos nós. Esta Europa de Miguel Real é simultaneamente o lugar de esperança e o nome da filha de Miriam. O texto revela ainda que a recém-nascida é fruto de estupro. Este conto vem pôr a nu a dupla fragilidade da mulher. Essa realidade não pode ser negada. Em África, Miriam fugiu às perseguições, mas foi violada por “um bando de facínoras nigerianos” (p. 135). Muhammed aceita a “desonra”. Sabe que a criança é o passaporte para chegar à Europa. A escrita de Miguel Real acentua os perigos da jornada, a fome durante o percurso e as doenças a bordo. Algumas narrativas apresentam, por vezes, um final feliz. A esperança renasce. Acredito num tempo mais luminoso.

O texto de Nuno Camarneiro (“Vinte e poucos anos”) acentua as viagens empreendidas por um jovem em busca de mudança. A paragem obrigatória é Paris. A cidade é lugar de descoberta em termos de referências culturais, artísticas e identitárias. Esta narrativa termina, no entanto, com o regresso a Portugal. Jovem e sem dinheiro, o protagonista desconstrói o mito de uma terra abonada: “A França, a Europa dos ricos, era um lago frondoso para onde desaguavam córregos sinuosos” (p. 164). A experiência na cidade das Luzes permitiu-lhe o convívio multicultural. Possibilitou-lhe, sobretudo, uma reflexão sobre o devir dos tempos.

A narrativa de Sérgio Luís de Carvalho (“Walter Benjamin não morreu em Portbou”), cujo título aguça de imediato a curiosidade leitor, elabora uma possibilidade diferente de recontar a história do Filósofo. O recorte de jornal e os dois cartazes acentuam o efeito de jogo. Real ou Ficção? O incipit, em itálico, informa-nos da morte de Walter Benjamim a 25 de setembro de 1940. Foge ao terror nazi. As autoridades franquistas terão recusado o visto de passagem para Portugal. A segunda narrativa é, na verdade, a hipotética viagem de Walter B. para a cidade das sete colinas: a Lisboa das varinas, dos ardinas, dos cacilheiros e das exposições imperiais à beiro do rio. Trata-se, também, da Lisboa dos refugiados e de perigo à espreita. O excipit retoma o histórico inicial: Walter Benjamim não rumou a Lisboa nem partiu para Nova Iorque. Optou pelo suicídio para não cair nas mãos dos alemães: “no final, foi como se o destino de todos os homens estivesse desde sempre escrito sobre a Terra.” (p. 187). Desta vez, prefiro a ficção à realidade. Prefiro a esfera intima da serenidade e da paz.

Não obstante esses mundos fragmentados, Uma Terra Prometida deixa entrever fragmentos radiosos. As histórias apresentam protagonistas, ora adultos, ora crianças, ora famílias, ora jovens solitários movidos pelo desejo de encontrar saídas e de contrariar barreiras. A resiliência é necessária. A resistência também.

Trata-se de um projeto planetário que problematiza o “sistema-mundo”: a questão dos refugiados; o olhar renovado sobre essas mobilidades, a problemáticas das identidades globais, a perda de pertença ao lugar e ao afeto, mas, simultaneamente, a demanda, a esperança e a renovação. São sonhos de partilha e de diálogos interculturais. São, em todo o caso, recusa de atropelos e de insignificâncias. “O pior horror não é o horror em si, mas o silêncio ao redor.” (Agualusa, Paraíso, op. cit. p. 39).

Uma Terra Prometida faz jus às palavras de Agualusa. Estes contos sobre refugiados não silenciam a distopia. Não anulam as monstruosidades. A Palavra atenta nos meandros da incompletude e dos territórios da aniquilação. A escrita pode ser superação.  Resultado de um olhar diverso sobre práticas de um “tout-monde” exilado, desorientado e fragilizado, os cambiantes dos autores do panorama literário português dão conta de figurações em trânsito. Terra Prometida ou Terras de Ninguém? (Descrença)? Interrogação? Acredito em novas conformações identitárias, sociais e culturais. Acredito, sobretudo, na utopia como motor de transformação.