Testemunho: 20 anos de nobel, Eu, Saramago e “Camões” (o cão)

Outubro de 1998. Lanzarote. Lembro-me como se fosse hoje. Faz este mês 20 anos que José Saramago recebeu o nobel da literatura. Está nos meus “cadernos de Lanzarote” (leia-se apontamentos de jovem jornalista).

Estava em Gran Canária para a cobertura de um mediático julgamento e, nessa altura, a Academia sueca anuncia o nome de José Saramago como prémio nobel da Literatura.

Meti-me no avião e lá rumei a Lanzarote. Cheguei àquela ilha árida e rumei à casa de José Saramago. Nos arredores de Arrecife, numa zona relativamente isolada, perto da Fundação César Manrique.
“A casa” foi mesmo o nome dado por Saramago ao seu refúgio na ilha dos vulcões. Mais de 200, dizem.

A casa, pintada de branco, naqueles dias, foi o rumo de jornalistas de todo o mundo.
Em bom rigor, para conseguir a entrevista com José Saramago, tinha solicitado os bons ofícios da filha, Violante Saramago Matos.

E lá fui. Toquei à campainha e o primeiro a dar sinal foi “Camões”. Sim, assim baptizou Saramago o nome do seu cão. Depois veio Pilar del Rio que me convidou a entrar. E dei de caras com esse vulto da literatura, na sala onde recebia toda a gente.

Tinha preparado umas perguntas a bordo do avião, entre Gran Canária e Lanzarote. Falámos perto de uma hora. Numa conversa gravada entrecortada, aqui e ali, com os latidos do “Camões” e o toque do velho telefone fixo. Ainda guardo a cassete com a gravação da entrevista.

Falamos de tudo. Desde o “Memorial do Convento” aos “Cadernos de Lanzarote”. Do Alberto João Jardim (que hoje recebeu a distinção honoris causa da UMa) à “jangada de pedra”. Da escrita em língua portuguesa e dos tempos em que foi diretor-adjunto do DN-Lisboa.

Do “Ano da morte de Ricardo Reis” aos tratados de Maastricht e de Amesterdão. Do federalismo e da regionalização. Dos movimentos nacionalistas e dos centralismos.

Dos romances históricos e do “Nome da Rosa”, de Umberto Eco. Do “Evangelho segundo Jesus Cristo”.

Dos ricos e dos pobres, da “censura” do Governo de Cavaco Silva (Sousa Lara), de escritas e escritores, de Lisboa, do dinheiro que recebeu do prémio e que, mesmo assim, lembrou, fica muito aquém do que ganha qualquer jogador de futebol.

Falamos dos que mereceriam o Nobel, da Sophia de Melo Breyner, daquele nobel que o precedeu nem 1997, Dario Fo.

Nunca se sentiu exilado, nunca rompeu com o país, a cultura, a história e o povo que o viu nascer.

Não quis rotular a sua escrita, deixou-a para a crítica e para os leitores. “A boa crítica é aquela que ajuda a ler”, disse.

Não se considerou um autor amargo ou amargurado nem “um escritor comunista”, antes “um comunista escritor”. Nunca aceitaria renunciar à condição de comunista em troca de qualquer prémio, incluindo o nobel. Considerou que o comunismo não caiu com o muro de Berlim e que o problema, à altura, tinha ver com a “crise geral das ideias de esquerda”.

É difícil ler Saramago? “Pode haver alguma dificuldade na primeira abordagem de um texto meu, mas isso imediatamente se vence. Agora, há leitores que são leitores preguiçosos… Não posso andar a escrever livros que agradem a toda a gente”, disse.

Não é dos que dizem “sou ateu, graças a Deus”. É simplesmente ateu. Considerou a inveja o “pior” dos defeitos e recusou-se a falar sobre a morte (“Se ainda não morri?”). Sobre a liberdade insistiu em que é necessário lutar por ela mesmo quando se a tem e sobre a felicidade preferiu trocá-la por “harmonia”. Nao sabe o que é excomunhão nem “supremo bem”.

Deixou-me com um pensamento basilar: “Há uma coisa em que as vitórias e as derrotas se parecem: É que, nem umas nem outras são definitivas”.