Trinta militares treinam na Madeira para missão de seis meses no Iraque; partem em Novembro

Fotos: Rui Marote

No Regimento de Guarnição nº 3 (RG3), no Funchal, treina-se afincadamente para uma missão militar no estrangeiro. Um contingente denominado “Força Nacional Destacada”, constituído por três dezenas de militares, quase todos madeirenses, apronta-se para uma desafiadora missão no Iraque, onde envergará pela primeira vez os novos uniformes camuflados das Forças Armadas portuguesas. Os 12 oficiais, 15 sargentos e 3 praças (cabos) sob o comando do major Eduardo Ribeiro partirão em breve para o campo Besmayah, sensivelmente 50 quilómetros a Nordeste de Bagdad.

O objectivo desta missão, que se enquadra na sequência da operação internacional “Inherent Resolve”, liderada pelos EUA e que visou atacar e incapacitar o autoproclamado Estado Islâmico, é o de ministrar formação às forças de segurança iraquianas, nomeadamente militares e de polícia militarizada. Apenas cinco elementos do grupo que partirá a 5 de Novembro para aquele país do Médio Oriente não são madeirenses.

Conforme o Funchal Notícias apurou, a 21 de Outubro este contingente receberá na Praça do Município, no Funchal, o estandarte, que será abençoado pelo bispo do Funchal, D. António Carrilho. A acompanhar os militares irá também uma imagem da padroeira, Nossa Senhora do Monte.

A força, onde todos são voluntários, é quase maioritariamente masculina, mas inclui uma mulher, de patente cabo, natural do Curral das Freiras. Iniciou os treinos em Maio do corrente ano, e alguns dos seus elementos ainda se deslocarão a Espanha, para formação suplementar. Entretanto, a globalidade do grupo enfrentará ainda mais três semanas de treino. O exercício final está marcado para decorrer entre os dias 15 e 19 de Outubro. Após todas as etapas percorridas, deverá ainda ser externamente avaliado, por especialistas do Exército que lhe conferirão a certificação de que encontra plenamente preparado para as funções que irá desempenhar.

A viagem do Funchal para o Iraque será longa, devendo realizar-se, supostamente, a bordo de um avião militar Hércules C-130 a hélices, que transportará os militares entre o Funchal e a capital portuguesa, depois entre Lisboa e Chipre, e finalmente de Chipre para Bagdad.

No campo Besmayah, os militares portugueses na sua maioria da arma de Infantaria, integrarão uma mais ampla força espanhola, comandada por um brigadeiro-general. São cerca de 400 espanhóis no campo, mais uns 50 ingleses e uns 20 canadianos. No total, o campo integra umas 600, 650 pessoas no total, refere o comandante do contingente que parte da ZMM, o major Eduardo Ribeiro. Não se trata de um novato nestas andanças: já realizou missões em Timor e na Bósnia. Outros oficiais que integram a força também já estiveram em missões no estrangeiro.

A missão que parte da Madeira terá pela frente, como já dissemos, a tarefa de formar as forças de segurança iraquianas, mas não será esse o seu único desafio: terá de fazê-lo em língua inglesa, traduzindo para um intérprete que por sua vez traduzirá para árabe as instruções dadas pelos portugueses; e, por outro lado, deverá ensiná-los a manejar armas que não são as habitualmente usadas pelo Exército português. Na realidade, embora na Madeira os militares estejam a treinar com aquela que é, até hoje, a arma padrão do Exército português, a espingarda automática G3, no Iraque terá de ensinar os instruendos a dispararem, sobretudo, com a norte-americana M16, embora também possa ter os ensinar a usar as AK-47 “Kalashnikov”.

“Nós seremos os formadores para a utilização táctica dessa arma e para o seu manuseamento”, explica Eduardo Ribeiro. “Teremos de ensiná-los a usarem as armas que eles receberem, novas. O armamento, todavia, é marioritariamente americano. É verdade que cá não temos M16… Mas quando chegarmos ao terreno, treinaremos cuidadosamente com essas armas, para depois darmos a formação certa”.

O major Ribeiro comanda a força destacada para o Iraque

A preparação do Exército português, garante o major Eduardo Ribeiro, é tácticamente superior à da generalidade do militar iraquiano médio. Para além das “guardas pretorianas” do tempo de Saddam Hussein, devidamente treinadas, a maioria não domina muito as técnicas que permitem a sobrevivência. Por exemplo, ao atacarem posições do chamado “Daesh” ou autoproclamado Estado Islâmico, muitos militares iraquianos sucumbiam nas últimas dezenas de metros ao tomarem de assalto as posições. Para além das técnicas elementares de tiro, os instrutores portugueses deverão treiná-los no modo de se protegerem em todas as circunstâncias e de procurarem salvaguardar a sua integridade física ao mesmo tempo que conquistam um bom grau de operacionalidade militar e proficiência e devidos cuidados no manejo de armas de fogo.

A equipa militar maioritariamente constituída por madeirenses, embora tenha realizado cá a maior parte da sua instrução, também passou um mês no continente, onde recebeu instrução das Operações Especiais em matérias de extracção, sobrevivência e evacuação; dos Comandos, em tiro de combate; onde assistiu a várias palestras susceptíveis de a preparar em matérias como a cultura árabe, o conhecimento do Islão ou as características do Daesh; e onde todos tiveram de passar por uma fase de vacinação contra males como a febre amarela; e onde se preparou para tarefas no domínio da engenharia ou para determinadas ameaças que possam acontecer.

O FN teve a oportunidade de assistir, no RG3, a um exercício de treino desta equipa que em breve partirá para o Iraque. Foram demonstradas, no mesmo, as capacidades dos militares da Madeira para as Forças Nacionais destacadas, no ensino e formação dos militares iraquianos e face a múltiplas ameaças passíveis de ocorrer no teatro de operações. No exercício foram demonstradas diversas técnicas, tácticas e procedimentos, por exemplo de combate em ambiente urbano.

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No exercício foram encenadas diversas situações: a deslocação de viaturas dos militares portugueses do quartel para o local de treino; uma entrada num edifício e respectiva inspecção pelos militares armados, face a uma ameaça real; um incidente em que se verifica um inesperado esfaqueamento e imediata reacção dos militares portugueses ao colocarem em respeito, sob mira das armas, e posteriormente manietarem e prenderem o agressor; o rápido socorro prestado à vítima; as técnicas de avanço no terreno face a fogo inimigo e conquista de uma posição; a montagem e operação de um “check-point”, para controlar a passagem de pessoas e viaturas ou interdição temporária de um itinerário; e um exercício de educação física militar, aspecto pedido expressamente, o ano passado, pelas forças militares iraquianas. Também foi demonstrada, por uma equipa de engenharia, uma instrução de reacção a um ataque químico. N terreno, sucedem-se as movimentações, a rápida entrada de viaturas de emergência, o imediato socorro, os tiros, as vozes de comando. Por enquanto, os militares estão a usar apenas tiros de pólvora seca; na segunda parte do exercício, a que também assistimos, em breve utilizarão munição real, ao encenarem a prática de instrução de tiro aos militares iraquianos, numa série de posições; deitado, de pé, tiro estático, tiro dinâmico.

O exercício serve também para nos tornar aparente o papel necessário de determinados núcleos desta força que parte da Zona Militar da Madeira, e que se juntaram aos militares madeirenses, vindos do continente. Nomeadamente, de engenharia (uma equipa constituída por um oficial e dois sargentos) e de socorrismo (com um enfermeiro que veio do Hospital Militar).

Tirando estes quatro, os outros 26 elementos servem na ZMM; cerca de 20 deles são madeirenses. A maior parte são militares oriundos da arma de Infantaria, embora também os haja de artilharia, e vários oficiais com cursos de tropas especiais, como comandos ou páraquedistas.

Este destacamento da Madeira vai substituir uma força de militares portugueses oriundos dos Açores, que também levou uma mulher, oficial de engenharia. O major Ribeiro admite que levar uma mulher para um país muçulmano como o Iraque, ainda por cima para ministrar instrução, “vai ser um processo”.

“As pessoas têm de aceitar”, refere. E esta militar, voluntária como os outros, não pode ser desconsiderada, apesar das diferenças culturais. “Acredito que nos vamos integrar bem”.