Vandalismo na Rua João de Deus favorecido por estacionamentos que a CMF pintou em cima da faixa de rodagem

Esta manhã, os diligentes trabalhadores da limpeza da CMF terão de limpar o resultado da passagem de uma horda de rapazes mal-educados pela Rua João de Deus, que fizeram barulho quanto baste sensivelmente entre a uma hora da madrugada e as três da manhã, acordando e naturalmente incomodando os respectivos moradores.

Os ditos adolescentes e jovens adultos, que pareciam vindos de alguma “festa”, pontapearam violentamente caixotes do lixo e “papeleiras, derrubando-as e espalhando o lixo pelo chão, numa vã demonstração de imbecilidade e força bruta. Acompanhados por raparigas da sua idade ou mesmo mais novas, estacionaram as suas motos, aceleras ou outros motociclos mais potentes, de impunes escapes abertos, onde bem entenderam, os automóveis obedientemente nos espaços pintados de branco que a Câmara do Funchal diligentemente lhes entregou ontem de bandeja para usufruto a qualquer hora do dia e da noite, e dirigiram-se a uma loja de conveniência que funciona automaticamente 24 horas por dia e 7 dias por semana –  ironicamente situada ao lado do antigo Comando Regional da Polícia de Segurança Pública (hoje Secretaria Regional da Inclusão e Assuntos Sociais). Se havia por esta zona alguma ordem, foi noutros tempos.

O seu objectivo era comer, beber e conversar, mas fazendo-o em altos berros e com a diversão da destruição da propriedade pública à mistura. Um casal jovem e mais bem-educado não gostou e remontou a papeleira caída no chão, mas o seu gesto diferenciador não teve grande efeito, já que pouco depois apareceu outro grupo de jovens rapazes acompanhados das respectivas flausinas que pontapeou e derrubou novamente aqueles equipamentos urbanos destinados ao lixo.

A destruição dos mesmos já tinha começado mais atrás, nas proximidades do Museu Henrique e Francisco Franco, onde também o lixo e a destruição se encontravam espalhados pelo chão.

Estas jovens e indelicadas personagens demoraram a ir embora, e chegaram a ser chamados à atenção por um morador agastado.

Enquanto uns inculpavam os outros pelos comportamentos menos urbanos, reconhecendo que há quem abuse, houve moradores que ameaçaram chamar a Polícia, mas que evitaram fazê-lo para não alimentar mais problemas. Da dita Polícia, cujo actual Comando Regional dista apenas algumas centenas de metros do local, não passou, durante estas quase duas horas, aparentemente nem um carro-patrulha cujos agentes tomassem a iniciativa de alertar para a violação da lei do ruído ou das regras da civilidade. Agentes a pé, muito menos. Já quase se não os vê na cidade.

No dito estabelecimento automático de venda de comidas e bebidas pede-se, num cartaz, atenção para com os moradores e pouco ruído, mas os pedidos são em vão. Já há um bom tempo que o pessoal que se reúne naquela zona para as libações e comezainas públicas não liga a mínima para esses pormenores. Os moradores vão aguentando estoicamente, principalmente os que moram mesmo em frente da loja, nos apartamentos por cima da lavandaria e da confeitaria da esquina, sitas no outro lado da rua.

Até agora, a Rua João de Deus tinha duas faixas de rodagem e isso fazia com que menos carros estacionassem ali, mesmo à noite. A PSP multou insistentemente várias vezes durante o dia. Havia uma noção geral que estacionar ali, mesmo em cima da faixa de rodagem, podia acarretar uma multa. As pessoas tendiam a não se demorar, os diálogos e monólogos já sob o efeito do álcool, eventualmente já bebido noutras paragens, eram misericordiosamente mais curtos.

Agora, de um dia para o outro, a CMF pintou espaços, pelo menos por agora gratuitos, assinalados com tinta branca, na faixa de rodagem sul da Rua João de Deus e assim legitimou o estacionamento até agora irregular – e que a PSP punia – naquela zona, facilitando o estacionamento aos clientes da loja que funciona 24 horas, inclusive aos que são malcriados e vândalos. Todos os que até agora ali foram multados por infringir o código da Estrada devem agora estar a interrogar-se sobre o seu azar: o que ontem era ilegal, hoje passou a legal.

Entretanto, muitos cidadãos indagam sobre o inferno do congestionamento de trânsito que o começo das aulas na envolvência da Escola Secundária Francisco Franco trará a uma rua que já foi Avenida e que hoje se vê quase reduzida a um beco, à semelhança da Rua do Bom Jesus, mais à frente.

Mas já se parece ter percebido existir um curioso desnorte autárquico em matérias que parecem evidentes à maioria dos cidadãos, pelo menos aos residentes no centro. Que se interrogam, também, como por ali circularão viaturas de emergência, como ambulâncias ou os carros dos bombeiros ou da Polícia, em caso de emergência. E que bem se recordam que esta área foi alagada aquando do 20 de Fevereiro de 2010, que houve pedregulhos enormes que foram parar à Rua do Carmo, e que os incêndios que assolaram não há muito a baixa do Funchal ameaçaram múltiplas casas naquela zona, e criaram um engarrafamento monstruoso nas artérias próximas do Campo da Barca e da “Francisco Franco”, num “gridlock” que demorou a desatar, com os carros de gente em pânico apinhados uns por cima dos outros em todas as direcções.

Mas, regressando ao vandalismo e ao ruído nocturno, a julgar pelo respeito manifestado para com moradores na Zona Velha da cidade e em outros locais, a CMF entende ser esta a animação nocturna de que o Funchal, até agora demasiado “morto”, necessita.

Claro, Deus nos livre de os moradores protestarem com os ditos rapazolas inimputáveis. Estão sujeitos a ouvir respostas menos educadas. Magnífica foi a despedida de um deles, a pedir boleia a outros. “Vá lá, leva-me a casa, que a minha mãe disse-me para estar em casa à meia-noite e já são três da manhã…”. Após alguma insistência, o argumento lá venceu…

Para quem ainda não percebeu e tiver dúvidas, o autor destas linhas reside na Rua João de Deus. Não interveio. Só assistiu a tudo, também naturalmente agastado. Depois, fotografou. Para o caso de alguém ainda querer saber destas coisas que dizem respeito às “pessoas”, de quem tanto se fala nas campanhas eleitorais.