Cisma ou purga?

Ao contrário do que, porventura muitas pessoas possam julgar, o escândalo da pedofilia que atinge a Igreja Católica não é,   dramaticamente, um problema novo. Muito pelo contrário, trata-se de uma prática criminosa que ressurge.

Basta, com efeito, consultar a imprensa da época para perceber que no início de 2010, algo de muito semelhante envolveu a Igreja Católica então durante o pontificado do Papa Bento XVI e precisamente no ano em que esteve em Portugal. Um escândalo que atingiu o próprio Sumo Pontífice que foi acusado de, enquanto arcebispo de Munique e Freising, ter atrasado o afastamento de um padre californiano acusado de pedofilia – na altura, advogados britânicos chegaram a ponderar o recurso aos tribunais para incriminar o Papa, sob a legação de ter procedido ao encobrimento de crimes de abusos sexuais de crianças por padres católicos.

De acordo ainda com a imprensa da época (ano de 2010), só entre 2001 e 2010, o Vaticano recebeu cerca de 3.000 queixas de pedofilia contra padres diocesanos ou religiosos por crimes cometidos nos últimos 50 anos. Na Bélgica, aos respectivos bispos chegaram mais de 300 queixas de casos de pedofilia, mas só 15 foram tidos em conta e mesmo nestes casos os culpados nunca sofreram sanções. E na Itália, um advogado denunciou que ao longo da última década foram abertos inquéritos de investigação a cerca de 130 padres acusados de pedofilia. E segundo o semanário alemão Die Zeit foi o então “número dois” do Vaticano, o
cardeal Tarcísio Bertone que tentou abafar o escândalo de um padre acusado de abusar de mais de 200 crianças surdas.

São também desse mesmo ano de 2010 notícias dando conta de que, por exemplo, o arcebispo de Bruxelas, um bispo conservador, criticou o “silêncio cúmplice” da Igreja Católica que preferiu “a reputação de alguns homens da Igreja à honra dessas crianças abusadas”; um cardeal alemão, tal como o Papa, e seu colaborador próximo, defendeu uma “limpeza” na Igreja através da condenação dos culpados de actos de pedofilia e da indemnização das vítimas; o Vaticano publicou um guia para lidar com padres acusados de pedofilia, advogando que os casos devem ser “sempre” comunicados às autoridades e, inclusive, foi divulgado que o Papa Bento XVI estaria a ponderar a realização de um sínodo de emergência para delinear uma estratégia para enfrentar a considerada mais profunda crise do último século.

Vale ainda a pena reproduzir o que, a propósito deste escândalo, o teólogo Anselmo Borges escreveu no “DN” de Lisboa em 27 de Março de 2010: “O pior, no meio deste imenso escândalo, foi a muralha de silêncio, erguida por quem tinha a obrigação primeira de defender as vítimas. Afinal, apenas deslocavam os abusadores, que noutros lugares continuavam a tragédia. Há na Igreja uma pecha: o importante é que não se saiba, para evitar o escândalo”.

Oito anos depois, a Igreja Católica, agora sob a liderança do actual Papa Francisco, volta a ser palco de um novo escândalo com proporções muito semelhantes, não só pela sua dimensão geográfica (EUA, Austrália, Chile, Irlanda), mas também pela sua amplitude numérica (só nas dioceses da Pensilvânia, nos Estados Unidos da América, um relatório contendo 1.000 páginas aponta para sete décadas de abusos sexuais, perpetrados por mais de 300 padres contra mais de 1.000 vítimas, sendo que o mais antigo dos casos remonta a 1947). No Chile, por outro lado, em Julho estavam em investigação 38 casos de abusos na Igreja, agora são 119, envolvendo, entre outros, 7 bispos e 96 padres, e o chefe da Igreja Católica, o cardeal Ricardo Enzati foi colocado em detenção provisória em Julho, pelo período de seis meses, e chamado a tribunal pelo alegado encobrimento de abusos sexuais do seu antigo
braço direito. Entretanto, e até Maio passado, 34 sacerdotes e um bispo já haviam apresentado a sua demissão. Por seu turno, na Irlanda, um outro relatório classificou de “endémicos” os abusos sexuais cometidos em instituições católicas para acolhimento de crianças e refere casos de abusos físicos e emocionais, causados por castigos arbitrários, disciplina opressiva e, por vezes, fome.

A gravidade de toda esta vaga de acontecimentos abomináveis é de tal ordem que até o tesoureiro do Vaticano, um cardeal australiano, conselheiro do Papa, enfrenta um julgamento histórico por abusos sexuais e nos EUA, a procuradora de Nova Iorque intimou “todas as dioceses” católicas a procederem a investigação a abusos.

Face a esta história que se repete, há vozes na Igreja, como o Arcebispo de Dublin (Irlanda),  que considera que “não basta pedir
desculpa” pelos abusos sexuais na Igreja. Numa carta divulgada ao “Povo de Deus” em 20 de Agosto p.p., o Papa Francisco não poupa nas palavras, assume “vergonha e arrependimento” pela forma como a Igreja Católica lidou com os crimes de abuso sexual que denomina de “atrocidades”, deixando claro que “nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado (…) nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam,  mas também que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetradas”.  O Papa Francisco proclama ainda “tolerância zero”, “um «nunca mais» a qualquer tipo e forma de abuso”, evoca as palavras do então cardeal Ratzinger, na Via Sacra escrita para a Sexta-Feira Santa de 2005: “Quanto lixo há na Igreja” e deixa claro que “Dizer «não» ao abuso é dizer energicamente «não» a qualquer forma de clericalismo”.

Como é sabido, a Conferência Episcopal Portuguesa apressou-se a dar conta de se encontrar em sintonia com o Papa Francisco no seu propósito de “lutar contra qualquer forma de abuso”.

Trata-se de uma posição assumida com convicção profunda, ou por mera conveniência, seguindo a reboque de outras congéneres?

A questão tem razão de ser e importa ser esclarecida. É que, nesta matéria, como noutras, não bastam as palavras. E há situações, factos que, pelos vistos, suscitam, no mínimo, a dúvida.

Ora, a 22 de Agosto último, o jornal “Público” noticiava que os “bispos portugueses garantem não ter denúncias sobre abuso de
menores”. Dez dias depois, o “DN” local anunciava que a Diocese do Funchal havia procedido ao afastamento de um padre das suas funções sacerdotais devido a um caso de abuso sexual de menor, ao mesmo tempo que revelava que a Diocese se colocava ao lado do Papa Francisco na luta contra a pedofilia.

Entretanto, como tornou claro o padre José Luís Rodrigues em artigo publicado neste espaço no passado dia 2 do mês em curso, a notícia estava envolta numa “nebulosa”, na medida em que não era esclarecido se o aludido afastamento resultava de uma nova acusação contra o sacerdote em causa, ou se tinha origem nas acusações precedentes ocorridas em 2005 e 2007. Questões que uma semana volvida o referido matutino clarifica ao relatar que impende sobre o aludido padre uma nova acusação, facto que acentua a gravidade da questão, designadamente porque é legítimo que se questione se as anteriores acusações foram devidamente apreciadas por quem de direito, com o rigor e a atenção que justificavam ou se, pelo contrário, foram minimizadas. É que se, assim foi, estaremos em presença de uma nova situação que poderia ter sido evitada se a justiça e a instituição religiosa tivessem actuado em conformidade com a gravidade de que estaria em causa.

A dúvida assume contornos ainda maiores se atendermos a que neste novo caso ocorreram fortes pressões conforme refere o “DN”, circunstância que, não custa a crer, ter-se-á verificado também anteriormente e, ainda por cima, à época, à frente da Diocese encontrava-se um prelado que, convenhamos, não oferecia quaisquer garantias de que pudesse tratar o assunto adequadamente, bastando para tal recordar o desplante que teve em comparar a actuação judicial contra Frederico Cunha, o seu ex-secretário, à “perseguição que fizeram a Cristo”.

Aliás, e de acordo com a mais recente notícia do já referido “Diário de Notícias” local – e se esta leitura não é correcta, a culpa é
exclusivamente da Diocese -, a invocada solidariedade com o Papa Francisco não parece ser tão evidente e inequívoca como procura
transparecer, na medida em que o caso do padre Anastácio Alves não teria sido tratado com a celeridade, a transparência e o rigor com que se tentou demonstrar. Ou seja, a adesão é plenamente convicta ou fruto da mera conveniência ou oportunismo?

Uma interrogação que, aliás, um padre da Diocese de Aveiro, de seu nome José Alves, deixou expressa num artigo publicado no “Público” do passado dia 4 de Setembro corrente, sugestivamente intitulado “Estamos mesmo com o Papa?” Eis um pequeno excerto: “Não se pode dizer que se está com o Papa Francisco e a prática da Igreja em Portugal não ser preventiva. Não estamos a falar apenas da denúncia de casos de abusos, mas de evitar que essas situações aconteçam. Quando os Bispos, na responsabilidade que lhes é confiada, não denunciam junto da Santa Sé situações anormais e ilícitas, como seminaristas que são expulsos e acolhidos e ordenados noutras dioceses, sem pedido de informação prévia, não estaremos a entrar na mesma lógica de silenciamento? (…)
Não se pode dizer que há uma campanha organizada contra o Papa Francisco e sabemos que ela é cultivada num meio anti – Igreja
de pendor tradicionalista, mas sem coragem e força quando acontecem ao nosso lado e nas nossas dioceses. O cardeal Burke – um dos principais opositores  do Papa – ‘passeou-se’ por Portugal, celebrou em alguns sítios, ‘baptizou’ grupos de lobby anti – Papa com o conhecimento dos bispos locais”. Conclusão: “estar com o Papa Francisco” implica muito mais do que simples notas de circunstância.Obviamente que a Igreja Católica não tem o monopólio da pedofilia -um crime ignóbil que é transversal a muitas outras instituições
religiosas, civis e militares, e cujos indicadores referem que a maior parte dos casos acontece nos ambientes familiares, mas é natural que o que se passa no seio da Igreja seja mais repugnante e que se deva ser mais exigente com os seus ministros, de quem se espera que sejam fonte de exemplo e nunca de repulsa. Por tudo isto, não resisto a transcrever uma pequena passagem de um texto intitulado “Futurofilia” inserto na edição do semanário “Expresso” de 25 de Agosto p.p. da autoria do jornalista da SIC e escritor Rodrigo Guedes de Carvalho: “O que vem dos Estados Unidos prova a nova normalidade. Pior: destapa uma enorme careca, mostra uma fraude gigantesca, um colapso de confianças e expectativas. Mostra o diabo sentado na cadeira onde víamos Cristo.

A regra, pela normalidade que nos chega, é a violação ou abuso de qualquer criança que passe os portões da diocese. Crianças violadas por padres como regra? É talvez a maior quebra contratual da sociedade, e tem mil ângulos de abordagem e de análise, e de investigação suplementar, e de levantamento de multidões de bons que considerem fazer uma pausa nas pipocas, levantar-se do sofá e ir para a rua, ou para onde possam fazer a diferença, onde possam, ainda, travar males futuros, que os passados estão feitos”.

Como não surpreende que o já citado padre, professor e ensaísta português Anselmo Borges tenha acusado ao jornal “Público”, numa peça publicada a 22 de Agosto p.p., a Cúria Romana de ser responsável “por mais ateus do que Karl Marx, Nietzsche e Freud juntos” ou que o bispo emérito das Forças Armadas D. Januário Torgal Ferreira defenda expressamente que “a Igreja tem de assumir esta vergonha, promovendo uma purga e uma catarse”. Ou ainda que, como reclama Isabel Allegro de Magalhães, professora catedrática e membro do Graal (uma comunidade internacional de mulheres de inspiração cristã), haja um “rigoroso escrutínio psicológico dos candidatos a padres” e se refunda a doutrina da Igreja em relação ao celibato, dando como exemplo as  igrejas protestantes, onde os pastores podem casar, e não se ouve falar de escândalos com esta dimensão.

Que a propósito de todos estes crimes, há uma luta no seio da Igreja, isso é por demais evidente. Ao ponto de haver quem reivindique a renúncia do Papa Francisco. O que levou a escritora Lídia Jorge a considerar, igualmente nas páginas do “Público”, que “o cisma não está à vista, está escondido”, ao mesmo tempo que manifestava “esperança num esclarecimento, que pode ir à ruptura”. E aponta duas coisas que fazem mover a Igreja mais “arcaica”: “o sistema neocapitalista que ele (o Papa) tem derrubado com as encíclicas e as questões sexuais, homossexuais, e o papel das mulheres e dos recasados”.
Enfim, resta saber quem irá vencer a batalha que está em curso.

  * Por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.