Arraiais e festivais

Na nossa Ilha ,os arraiais dominaram o mês de Agosto e há dois que são sempre falados e conhecidos em toda a Ilha: o arraial  do Monte a 15 de Agosto – dia das 7 Senhoras – isto é, em que por toda a Madeira se honram e homenageiam sete Nossa Senhoras. Mas,  o mais antigo,tradicional e genuíno arraial  é o da freguesia da Ponta Delgada, que acontece no primeiro domingo de Setembro.
Esses dois arraiais , um no sul  e outro no norte da Ilha, são os verdadeiros, que arrastam multidões, com milhares de devotos da Senhora do Monte, peregrinos daqui e de além Atlântico, estrangeiros muitos, levados pela fé também do Beato D. Carlos Habsburgo, ali sepultado.
Essas manifestações religiosas são acompanhadas de barracas de comida e bebida, ao som das bandas de música que se  posicionam nos coretos do Largo das Babosas. A animação é grande e não faltam os bailinhos que  dão uma nota musical e saudosa de outros arraiais. São normalmente mais de dois dias de festa, pois, a religiosa é a mais  importante e que conta sempre, como aconteceu este ano, com a presença do Bispo da Diocese, outros sacerdotes e autoridades governativas.
É comovente ver os romeiros e demais peregrinos subirem rezando e entoando cânticos religiosos em louvar da imagem antiquíssima de Nossa Senhora do Monte. Os círios e velas são parte integrante da devoção e  agradecimento dos devotos. Os foguetes ecoam, os velhos tocadores e  alguns jovens abrilhantam a festa. São imagens que as nossas  retinas guardam na memória.
No norte da Ilha, o arraial do Senhor Bom Jesus tem, também, uma tradição secular, segundo reza a “história”; a freguesia de Ponta  Delgada foi criada nos fins do 2º ou 3º quartel do século XVI. Deve-se a Afonso de Sanha a devoção ao Senhor Bom Jesus, que trouxe da  sua terra natal, onde a devoção era e assim se mantém ao Senhor Bom Jesus de Braga. Quando este donatário aportou a esta pequena povoação  à beirinha do mar, ali perto construiu a Capela do Senhor Bom Jesus.
Hoje,a igreja do Senhor  Bom Jesus, perto da primitiva Capela, conserva na velha sacristia uma relíquia sagrada que é o madeiro,  enegrecido pelo tempo, da cruz do Senhor Jesus. O arraial dura 3 dias, festa rija – religiosa e profana- que arrasta de todos os pontos da Ilha e de fora, romeiros e centenas e centenas de peregrinos, alguns ainda a pé com o bordão de conto a ajudar por alguns caminhos e estradas , para chegarem à Ponta Delgada. Um sacerdote que paroquiou na freguesia durante anos vem, por vezes, com um grupo de romeiros cantando e bailando, parando para comer até à freguesia.
Recordo com viva saudade e emoção, quando há mais de  uns 70 e muitos anos, vinham todos ou quase a maior parte dos romeiros a pé, de bordões, cestos de vindima às costas com os comeres e beberes para  esses 3 dias de arraial e devoção. Dormiam debaixo das vinhas ou em  mantas, felizes nos seus  bailinhos acompanhados de harmónios, ferrinhos, pandeiretas, reco-recos, castanholas , e cantando a  despique. Não havia ainda luz eléctrica , os lampiões iam alumiando  e, ao encaminharem-se para a igreja, ouviam-se apenas o sussurro das  vozes, choros de crianças e o caminhar compassado!
Rebentavam foguetes, girândolas, o sino tocava a chamar à missa do  romeiro  de madrugada e depois a missa do dia com a igreja enfeitada de alegra-campo pelas paredes, flores, muitas gerberas e “cabrinhas “, fetos e sei lá que mais. Nos coretos, tocavam-se modinhas, canções repetidas de geração em geração e  das barracas vinham cheiros a canja quentinha, vendiam-se rosquilhas de pão de casa, que acompanhava as espetadas assim como o jaquet ou vinho com laranjada. Vendiam-se pepinos com sal, tabaibos, figos e uvas americanas.
Mas o mais apreciado pela rapaziada era assistir à matança das rezes, cujas tripas eram depois lavadas na água corrente da levadinha que vinha das serras; antes ,na madrugada da sexta e sábado do Senhor, ouviam-se os gemidos do gado que se iria abater. Nesses tempos ainda  não havia matadouros municipais e cada um podia abater o gado para a festa. Também ainda não traziam os aparelhos de rádio , como anos depois aconteceu, nem as botijas de gás às costas . Era tudo tão  diferente e, no domingo do  Senhor, depois da missa da Festa, saía a procissão grande com a representação das várias Irmandades ,as devotas com os círios das suas promessas, os anjinhos com as oferendas, as entidades do concelho e as bandas de música. O Senhor Bispo e os demais sacerdotes seguiam debaixo do pálio, abençoando com a Custódia o povo que ladeava as ruas  pavimentadas de flores. Havia um fotógrafo amador que registava as pessoas e coisas , mas  tudo isso, está ainda bem presente no registo da nossa memória visual  e auditiva.
Os festivais, grande cartaz do Verão por todo o Portugal, arrastam milhares de jovens principalmente, mas nada têm a ver com arraiais. Claro que a principal finalidade é espalhar as músicas dos  mais diversos estilos e cantores ou cantantes pela juventude, em que os lucros são fabulosos e o ensurdecer (com o continuo uso e abuso as  novas tecnologias) a curto prazo será infelizmente uma realidade! Todos somos culpados, porque damos aos nossos jovens possibilidades  financeiras – que muitos de nós não tivemos- e os jovens ilusoriamente copiam: roupas, estilos musicais ensurdecedores, atitudes muitas das  vezes pouco ortodoxas, e vivendo durante esses dias  dos festivais  em parques de campismo com poucas ou nenhumas condições de higiene.
Os grupos e bandas musicais pululam , as drogas consomem-se e viciam e, não é ser retrógrada  ao mundo em que vivemos , mas é uma chamada de atenção para todos. Há festivais a mais, despesismo, e se continuarmos neste ritmo frenético, a juventude não chega a crescer.