Da música tradicional portuguesa aos ritmos cabo-verdianos

*Com Rui Marote

O Festival Raízes do Atlântico prosseguiu hoje no seu novo formato de sucesso, com concertos abertos ao público sem qualquer custo na marginal do Funchal, mais precisamente na Praça do Povo, um espaço adequado para um evento deste tipo. O público tem aderido, como o demonstram as plateias bem compostas que esta noite assistiram à actuação de uma das mais conhecidas bandas portuguesas dedicadas a canções de cariz popular e tradicional, a Brigada Vítor Jara. Criada já há mais de quarenta anos por um grupo de jovens de Coimbra, este agrupamento iniciou o seu percurso em Portugal no ano do “Verão Quente”, 1975, interpretando canções de cariz revolucionário e contestatário dos regimes de direita.

A sua denominação, aliás, é já indicativa dessa origem tão particular: Vítor Jara foi um professor, cantor e poeta chileno que acabou por ser aprisionado e fuzilado por militares, aquando do golpe apoiado pela CIA que depôs Salvador Allende e permitiu a ascensão ao poder de Augusto Pinochet.

Com o passar do tempo, a Brigada Vítor Jara perdeu muito do seu fervor revolucionário original, realizando um trabalho de pesquisa e interpretação da música tradicional portuguesa que, pela persistência e dedicação, em muito se pode comparar ao desenvolvido na Região pelo grupo “Xarabanda”, recentemente agraciado com uma importante distinção pela presidência da República. A “Brigada” já colaborou com múltiplos artistas portugueses, do calibre de Carlos do Carmo, Lena d’Água ou Jorge Palma.

O segundo concerto da noite foi protagonizado pela dona de uma voz doce e que transportou os espectadores, no seu ritmo muito próprio, para Cabo Verde. Lura, cantora que já colaborou com a “diva” Cesária Évora., Sendo, na realidade, lisboeta de nascimento, Lura é, porém, filha de cabo-verdianos e aprendeu a falar crioulo, dedicando-se a cantar nessa língua que considera um património imaterial característico do seu país e merecedor de particular relevância. É, na realidade, nessa mistura do falar indígena com o português que se exprime de modo tão sedutor, capacidade que ficou amplamente demonstrada no concerto desta noite.