O lado “cego” da Política

 

Quem quiser ser governo, na Região, em 2019, não pode ter muitos deslizes. Para não dizer um único deslize, da forma como isto anda “apertado” do ponto de vista da sondagem pública. O eleitorado está de tal forma esgotado que tudo já é pretexto para reagir, para tomar posição, até parece que não dá tempo para chegar ao próximo ano e ao dia do voto. Se pudesse ser já hoje, tanto melhor. É um facto novo em contexto regional, uma conjuntura que vai exigir, tanto de quem governa como de quem faz oposição, uma inteligência acima da média – em alguns casos, é verdade, não se sabe como farão isso se até agora não se viu, mas mesmo assim, terão que fazer o seu melhor – para que o resultado final seja aquele que esperam.

Estamos, mais coisa menos coisa, a pouco mais de ano e meio das Regionais. E para quem não soubesse, até parece que é para daqui a seis meses, tal a onda de estratégias que de parte a parte vamos assistindo quase diariamente. A propaganda, que pensávamos ser exclusivo de outros tempos, é hoje o chamado “pão nosso de cada dia”. A propaganda, que tantos criticaram no passado, atenção, com alguma razão, para não dizer muita, está hoje mais abrangente, mais alargada, é difícil distinguir o que é propaganda e o que é informação. De tal forma que quando é informação até ficamos desconfiados e muitos recorrem ao que é popular para dizer que “quando a esmola é muita o pobre desconfia” ou mesmo “aqui há gato”, às vezes “gato com o rabo de fora”. Mas não importa, o objetivo de agora é o mesmo de outros tempos e também se paga para isso, e de que maneira. É mais democrático, é verdade, paga-se meio democraticamente a todos. E como todos seguem a mesma estratégia, há mais a fazer o mesmo.

A política é igual em todo o lado, em todos os partidos, em todos os tempos. Defendem as suas teses, e muito bem, são incapazes de ver para os lados, e muito mal. É assim, não há volta a dar. É o lado “cego” dos políticos, conforme dá jeito. As máquinas da propaganda são colocadas nos terrenos, uns põem fotos dos corredores do hospital completamente vazios, o que é suspeito num hospital normal, outros colocam os corredores “entupidos”, o que pode ser sectário e correspondente a um “pico”, num determinado momento, tomando a parte pelo todo. E é assim com tudo. O PSD diz que o hospital não se faz porque o PS não quer, o PS diz que o PSD não está a cumprir e por isso o hospital não anda. E andamos nisto.

Valha-nos a alteração de estratégia de comunicação, que começa a vislumbrar-se, focando-se no Serviço Regional de Saúde, que depois de muita insistência e de nítida falta de perceção dos titulares, chegou à conclusão que o melhor é esclarecer, antecipar, olhar de frente para os problemas e falar aos utentes, explicar à opinião pública. Foi preciso um cabo dos trabalhos para ver isso, mas vá lá que foi visto, não se sabe se chega a tempo de alterar a imagem, mas já é um princípio. E quando assim é, temos que reconhecer a reação e valorizar, além de ter esperança que isso corresponda efetivamente a um melhor serviço. Na essência, é o que interessa. E o problema, às vezes, é que há pessoas que se julgam mais importantes do que o serviço. Não são.

Não é que o País esteja melhor, porque há dias também existiam falhas gritantes em hospitais nacionais, com demissões de responsáveis médicos, por exemplo, no Hospital de Faro. Mas “com o mal dos outros podemos nós bem”, reza a expressão que usamos vulgarmente no dia a dia. Como ouvimos dizer que temos o melhor, claro que exigimos o melhor.

Mas voltando a 2019, porque isto está tudo interligado, os eleitores não estão minimamente preparados para qualquer tolerância. Por isso, deslizes nem vê-los, quer de quem governa, quer de quem é oposição. Vai exigir muito cuidado aos dois lados. E cuidado, também, com a propaganda, que é generalizada mas que pode funcionar muito mal. Para quem paga e para quem recebe. Os tempos são outros e o eleitorado está diferente, mais exigente, mais crítico, menos tolerante a figurinos que foram penalizados nas urnas, que tiveram já o juízo dos eleitores, que demonstraram claramente que aquele modelo esgotou.

Para quem está na oposição, ainda que a tentação seja forte face a esta onda de popularidade vigente nas sociedades, que só não tem nada de mal desde que não resvale para o populismo, o mais difícil é resistir ao ambiente que anda à volta, um ambiente de uma certa euforia, de chegar ao poder, que a todo o momento pode resultar em “tiros nos pés”, a tal ponto de comprometer eventuais e legítimas aspirações, individuais e coletivas. Quando se fala num passo de cada vez, não contam os passos em falso. E no caso do PS-Madeira, que entrou numa nova liderança interna e de um candidato assumido a presidente do Governo, não precisava, por exemplo, destas “ajudas” do primeiro-ministro quando este vem a público afirmar que a Madeira deve ao País o agravamento do défice. Não é correto do ponto de vista institucional, da confrontação entre regiões, não é bom do ponto de vista estratégico e partidário. Destas “ajudas”, a nova liderança socialista madeirense bem pode dispensar.

E é claro que Paulo Cafôfo já viu isso, mas obviamente não está em posição de abrir o flanco neste momento, daí o seu silêncio estratégico. Precisa, agora e neste caso concreto, do Partido Socialista, embora o Partido Socialista precise mais de Cafôfo. É uma questão de saber se as tentações deste relacionamento não descambam para mais do mesmo e comprometem, quer o partido, quer esta fórmula de candidato que não o líder, mas sobretudo podem comprometer o próprio Cafôfo. Os problemas de identidade política não vão ser fáceis.

Por tudo isto, porque até ao dia das eleições haverá certamente muito “pé na poça” e muita coisa bem feita, e ainda muitas alterações nas forças partidárias, há um caminho a percorrer, muita sondagem para sair, muita “encomenda” para distribuir, pensando que com isso está o problema resolvido. Não está, mesmo pagando e bem. Há muita vida para além disso, mesmo que não pareça aos interesses instalados, que no fundo já os conhecemos de “outros carnavais”.

Façam e sobretudo façam bem. Façam como dizemos aos miúdos antes de atravessarem a estrada: olhem para um lado e para o outro. O lado “cego” dos políticos nunca foi bom conselheiro, mas eles, políticos, não veem disso. Pois não, é o lado “cego”.

Mas pensem que o povo está vendo mesmo parecendo que não está.