Suicídio: o sorvedouro social

Hoje partilho convosco a minha angústia sobre um fenómeno social complexo, arrasador, imprevisível, fatídico e irreversível. Um inquietante fatalismo do qual sempre considerei responsável todo o social envolvente à vítima. Embora a minha forma de pensar não se tenha alterado em muito, hoje acresce o peso de pertencer ao núcleo desse mesmo social próximo, questionando-me inquietantemente: “poderia a minha atitude ter feito a diferença?”. Apenas Deus o saberá…

Passado pouco mais de um ano, aqui registo a dor da forçada despedida a um digníssimo ser humano. Verbalizo o sentimento de ausência de uma das pessoas mais emblemáticas que pude conhecer neste mundo; um ser humildemente superior, sereno, sorridente, altamente cordial, respeitador da diversidade de ser de cada um, incondicionalmente disponível para ajudar quem a ele se dirigisse; um ser de palavra de força, de ânimo; um grande académico… Um SER humanamente exemplar, distinto, pela sua delicadeza, pela sua capacidade de ouvir, pelo seu respeito pelo outro, pela sua capacidade de compreensão, pela sua capacidade de transmitir confiança, pelo seu espírito de doação… Refiro-me a alguém com quem tive o privilégio de trabalhar e de muito aprender no contexto de uma relação profissional/académica pautada pelo mais alto respeito e consideração. Recordo os últimos momentos em que tive o prazer da sua presença… Tendo eu perguntado se estava bem, a resposta foi breve, distante, um “sim, está” num tom firme, talvez vazio, contido, cortante, de quem não queria desenvolver o assunto. E, lado a lado, percorri um longo corredor num silêncio pesaroso junto de alguém cujo olhar já estava voltado para o seu íntimo, para um seu mundo interior, sem que eu me tivesse dado conta disso. Hoje recordo suas elogiosas palavras, a mim dirigidas nesse mesmo dia, e quão lapidada e rápida foi a sua intervenção e fugaz a sua saída, evitando tudo e todos… Uma semana mais tarde estava a ser informado da sua drástica partida. Inquietante!… Como compreender ou aceitar que uma pessoa que tanta vida e esperança transmitia se deixou sorver por este “abismo”? Pela sua humanidade, educação e dignidade, tinha tanto ou tudo do que tanto falta nesta cada vez mais medíocre sociedade… Para mim, e certo estou que não só para mim, a sua partida deixou um tão grande vazio, particularmente no seu ambiente de trabalho. Privou-nos da sua presença física, mas levou tanto mais consigo. Partiu levando toda uma energia, toda uma vida, todo um brilho, toda uma confiança que se propagava pela sua presença e vida num enorme espaço onde hoje entro e sinto, arraigada, a vastidão de um vazio.

Sendo que a saudade e os lamentos não trazem ninguém de volta, o propósito aqui será alertar para bem viver sem descurar a presença, em cada instante, daqueles com quem convivemos e que precisam do nosso cuidado, tanto mais quando não o expressam.

Jamais conseguiremos conhecer autenticamente ou totalmente alguém, talvez nem a nós mesmos, e deste modo o afirmo apenas para abalar com as certezas que causam surpresas e para evitar as surpresas que causam profundas tristezas. Nem sempre há sinais, nem sempre há sintomas. Todavia, sempre que possível e que nos apercebamos (talvez por instinto) que alguém vive dilemas únicos e sem solução (real ou aparente), que alguém está mergulhado no pessimismo, na crença fatalista irracional, urge que sejamos capazes de demonstrar compreensão, sensibilidade, disponibilidade, confiança, esperança, paciência e reconhecimento de qualidades/potencialidades. Procuremos em cada dia fazer o outro (seja ele quem for) sentir-se presente na nossa vida, sentir-se necessário, sentir-se útil, sentir-se estimado, sentir-se valorizado desde a mais ínfima caraterística, sentir-se capaz de algo e algo mais, sentir-se satisfeito consigo próprio, sentir-se perdoado, sentir-se ouvido, sentir-se respeitado, sentir-se compreendido, sentir-se amparado. Estes são deveres de todos nós para com cada um daqueles com que convivemos e até para com aqueles com quem simplesmente nos cruzamos. Aprendamos a reconhecer o outro e a dar vida pela nossa atitude, pelo nosso comportamento, pelo sorriso, pelo gesto, pela palavra. A nossa palavra pode ser comparável à robustez de uma corda capaz de suster a queda de um ser humano neste abismal sorvedouro.

Estaremos perante pessoas em inquietude interior resultado de uma visão circundante que não afaga, não conforta o vazio sentido pela alma e pelo coração e não tranquiliza o espírito crítico que vê este mundo como um todo desconfortante…

O suicídio é uma busca de quem procura parar a consciência ou o sentimento de dor psicológica insuportável. É uma procura de refúgio pela morte, uma ilusão de vitória sobre uma dor interna para a qual o indivíduo não vislumbra forma de a contornar ou de lhe pôr fim. Porém, creio poder afirmar que ninguém deseja morrer, o que poderão desejar é libertar-se da sua dor, quer ela seja física ou psicológica. E não poucas vezes a vida é bem dolorosa pelo tanto difícil e sacrificada ou pelo quão vazia…

Segundo Shneidman (1979) a “ambivalência”, a dualidade deste querer e da negação deste ato está sempre presente até ao último instante, concludentemente, desafiemo-nos a alimentar a valência do não querer ir por este caminho.

Os estudos permitem estabelecer alguns nexos de causalidade para esta deserção de si: o suicídio “egoísta” daqueles que já não encontram razão para continuar a viver, o suicídio “altruísta” de quem vislumbra a plenitude para além da vida terrena, o suicídio “anómico”, resultado de um alto transtorno por força das dificuldades vivenciadas, o suicídio “vingança” de quem procura provocar remorsos em alguém, ou ainda o suicídio “autopunitivo” de quem procura ser justiceiro de si mesmo na esperança de assim se desculpar e redimir perante a sociedade. Comum é que em todas estas interpretações há um desejo de fuga ao espetro vivencial. Tanto ou mais gravoso é que, apesar do suicídio ser considerado um ato deliberado e “consequentemente” consciente, Durkheim alerta-nos para a existência de “estados psíquicos sem consciência”. E então aqui a nossa atenção deve ser “radiográfica” e redobrada.

Serão inúmeros os fatores potenciadores desta perda de interesse, desta falta de energia intrínseca, psicológica e física, desta fuga abismal, deste afastamento brutal e sem retorno: um conflito interior; uma vida interior que pesa amargamente pela força das condenações morais de outros; a violenta frieza das visões e juízos redutores, simplistas, preconceituosos, exclusivos; os problemas laborais; as dificuldades económicas; as insuportáveis dores físicas; a dor do luto; o insucesso escolar ou laboral; a não aceitação da doença; o rompimento da lealdade esperada de outro; a desesperança perante aqueles em quem se depositou expetativas positivas; a desilusão causada por aquilo ou por aqueles que eram os alicerces inspiradores do caminhar neste mundo; o sentimento de culpa; o sentimento de melancolia inquebrantável; o sentimento de insegurança; o sentimento de desconfiança com que permanentemente os outros nos olham; o sentimento de melancolia; o sentimento de desvalorização; o sentimento de exclusão; o sentimento de incapacidade de suportar o distanciamento e indiferença de outro; o sentimento de impotência; o sentimento de incompetência. Estes são apenas alguns de um conjunto infindável de fatores que nos podem empurrar, paulatinamente, para esta obscura intenção.

As vítimas não são “os fracos”, pois é necessária muita força e energia para conseguir pôr fim à sua própria vida. Neste sentido, algumas críticas a este ato consumado são imprudentes, quer pela recriminação, quer pelo gozo. Efetivamente, “os tendentes” não merecem o nosso apoio nesta brutal intenção, mas merecem toda a nossa compreensão, todo o nosso respeito, toda a nossa oração, sobretudo quando tardiamente nos apercebemos e nos mobilizamos para os fazer sair deste intrínseco abismo.

As vítimas deste fenómeno são muitas vezes pessoas aparentemente sorridentes, serenas, diria mesmo “assintomáticas”. Reduzir a incidência deste fenómeno implica uma doação de cada um de nós, todos os dias, cada dia, na atenção que se dá àquele com quem nos relacionamos ou àqueles com quem simplesmente nos cruzamos. Uma palavrinha, o perguntar “como está?”, o tão simples “olá”, “bom dia”, “boa tarde”, o leve e frontal sorriso são gestos que transmitem ao outro que naquele preciso momento ele não está só, naquele preciso momento ele está presente na vida de mais alguém, ele faz diferença, alguém o está a ver como pessoa, alguém dá pela sua existência. São mecanismos tão simples, gratuitos, que fazem o outro sair de si mesmo, fazem com que o outro se sinta reconhecido; são fios ténues, talvez tão frágeis quanto os fios de uma teia de aranha, mas ao mesmo tempo altamente “reafirmantes” do sentido de ser de cada um. Pequenos gestos que podem fazer a diferença para os que se sentem excluídos, esquecidos, inúteis. Este tão pouco pode ser essencial para segurar uma existência entre nós; pode fazer a diferença entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. Uma palavra de simpatia, de agrado, anima e ilumina qualquer um e se não pudermos ser o Sol que sejamos, pelo menos, a Lua.

É oportuno nos questionarmos sobre até que ponto as nossas atitudes, os nossos procedimentos ou a falta deles pesam na decisão daquele que procura negar-se à vida. Mobilizemo-nos contra este saqueador das vidas que mais estimamos, começando por olhar cada um como pessoa, reconhecendo as suas capacidades e potencialidades, procurando ter um elogio a fazer cada dia, por mais pequenino que seja ou insignificante que possa parecer. Uma palavra que para nós se reveste da simplicidade de uma gota de água poderá ser um oásis para quem se encontra perdido no deserto da vida. Talvez não sejam necessários grandiosos elogios; será necessário, sim, que eles sejam autênticos, verdadeiros. Não sejamos desproporcionais nos elogios, pois a fronteira entre o sincero e justo elogio e o elogio oco, enganoso, fantasmagórico é ténue e facilmente distinguível por quem tem consciência de si. O efeito do elogio pode vacilar entre a agradabilidade vivificante e a ansiedade martirizante… Para a VIDA, uma palavra de apreço vale mais que uma nota de 500 euros, não que o dinheiro não seja fundamental, mas porque as pessoas não são mealheiros. A estrutura interna que precisa de reanimação vive de atenção, reconhecimento, gestos de carinho e não, ou pelo menos não só, de materialismos.

Moreau de Tours (1899) falava do suicídio como “uma epidemia sempre crescente”. O problema cresce, muito provavelmente, em proporcionalidade direta com o desenvolvimento, a competitividade, o stresse e o inesperável fracasso (a vários níveis). Porém, longe de mim querer com este escrito contribuir para o aumento desta fatalidade. Guillon e Bonniec (1990, p. 25) falam-nos da imprensa como “agente de contágio” deste fenómeno devastador, assassinando pelo exemplo que dissemina, altercando que a erradicação deste fenómeno passa por não comentar as ocorrências. Aqui não pretendo elevar ou vangloriar quem a este limite se propõe, mas apelar a que cada um de nós esteja atento àqueles que fazem parte da nossa vida. Pelo menos, olhemos por esses, os mais próximos, sejam eles próximos por vizinhança, relação laboral, relação familiar, relação amorosa ou outra.  Estejamos vigilantes, atentos, a nós e aos que nos rodeiam porque esta “pulsão de morte”, como lhe chamara Freud (1920), pode ser isso mesmo, autêntica, impulsiva e ingratamente irreversível.

Para nós, vigilantes, e que sejamos vigilantes dos outros e de nós mesmos, os estudiosos consideram alguns indicadores de risco a ter em conta: o pessimismo sobre o futuro, a dificuldade de concentração, a anedonia (perda da capacidade de sentir prazer), o isolamento social (ou comportamento antissocial) e a frigidez. Estejamos atentos aos gritos silenciosos de ajuda, às projeções negativas de si mesmo, aos sinais de distanciamento ou marginalização, ao isolamento físico e/ou comunicacional, às expressões de angústia por ser ou sentir-se diferente.

Pior que o pessimismo que até pode ser mobilizador, embora talvez destrutivo, é o sentimento de inutilidade, tanto mais agravado quando a pessoa se sente sem valor para si, para a família e para o contexto social em que se move. E se uma das raízes do problema é o sentimento de inutilidade, então a responsabilidade vai em direção ao outro (ao social) porque aquilo que nos faz sentir úteis é a atitude do outro que nos mostra ou diz “preciso de ti!”.

Dói! Lamentavelmente!… Mas por muito que nos inquiete e incomode, a tristeza e o desespero que conduzem a este sorvedouro resultam de um acumular de infortúnios condicionados pelas pessoas (eu incluído) e pelas circunstâncias em que cada um vive… E são as almas mais nobres e puras que este social consegue confundir e enfraquecer…

Com o necessário respeito, deixo uma singela mensagem: quando estivermos em ambientes de pobre compreensão e tolerância (laborais, familiares, amicais, estudantis), que nos oprimem, desvalorizam, desgastam, corroem a pouco e pouco, façamos o possível por o quanto antes “bater com a porta”! Há sempre quem espere e precise de nós; agarremo-nos a esses, valorizando-nos a nós mesmos, acima de tudo! Não permitamos que outros, oculta e “despretensiosamente”(?), nos empurrem paulatinamente para este “abismo”!…

Esta “desesperança” (Minkoff et al., 1973) de si e em si só quem a sente sabe porque sente, como sente e o quanto a sente. Todavia, desafio cada um a lutar contra este diálogo interno enraizado numa crença limitativa. Se são efetivamente as emoções que nos arrastam e considerando o pensamento anterior às emoções, então será fundamental que aprendamos a gerir o pensamento, aprendamos a gerir para nosso bem a nossa “inteligência emocional”, desde a mais tenra idade.

Embora sendo a problemática demasiado densa para proposições imediatas, cito as palavras de Marques (2001, p. 142) referindo que “a felicidade é o Supremo Bem e o propósito da vida é a procura da felicidade” para, consequentemente, por mim asseverar que a morte não traz felicidade a ninguém.