Uma espécie de ingerência

 

Gostaria de começar este texto com quatro pequenas notas prévias indispensáveis ao enquadramento, termos e alcance daquilo sobre o que quero reflectir e que se prende, naturalmente, com as eleições recentes para a presidência do PS-M, com os seus resultados e com as consequências que, sob o meu ponto de vista, podem advir da escolha feita.

Primeira nota: enquanto homem de partido, do PS, sou, desde a primeira hora, um apoiante claro, e sem reservas, de António Costa. Considero que, tanto como secretário-geral socialista como enquanto primeiro-ministro, tem correspondido globalmente, àquelas que eram as minhas expectativas, – superando-as, porventura -, e é, sem dúvida, em circunstâncias normais, a minha escolha para futuros combates no Partido e no País; segunda nota: fui, sem me esconder atrás de nada, apoiante do candidato derrotado, Carlos Pereira, a quem aproveito para felicitar publicamente pelo seu desempenho em todo esse processo, cumprimentando-o de forma reconhecida e solidária; terceira nota: no que direi, nada me move de natureza pessoal contra nenhum dos membros do PS-M, mas pretendo, tão só, deixar expresso o meu sentimento sobre o que aconteceu e como aconteceu; quarta nota: aos resistentes que, lendo o Funchal Notícias, continuam a teimar ler-me também, os meus agradecimentos e o meu mea culpa por lhes colocar à frente um texto tão politica e partidariamente comprometido.

Numa entrevista concedida depois de eleito, o desafiante, vencedor, revelou publicamente que António Costa, secretário-geral do PS, terá acompanhado de perto, apoiando, directamente ou por interposta pessoa, – talvez não fosse inapropriada a prática, por parte do líder do PS, de ouvir mais gente que, na RAM, ao longo de muitos anos, tem tido a sensibilidade necessária para, defendendo a Região, defender, sem hesitações e com orgulho o Partido Socialista -, a iniciativa que o entrevistado, então candidato ao cargo de presidente do PS-M, havia resolvido protagonizar, criando assim condições para que o PS-M viesse a apoiar a candidatura, em 2019, do actual Presidente da Câmara Municipal do Funchal à presidência do governo regional. Com esta revelação (?) pretendia o recém-eleito credibilizar o processo, dar-lhe substância e dimensão nacional e, porventura, tentar apaziguar os mais recalcitrantes, dentro do PS-M, face ao modo como tudo decorreu.

Não sei se conseguiu atingir algum destes objectivos; pela minha parte, não, e, pelo contrário, despertou em mim um sentimento de estupefacta incompreensão saber que o líder do meu Partido, que apoiei e em quem votei, António Costa, se havia deixado imiscuir, na vida interna do Partido na Madeira, permitindo que em seu nome fossem influenciadas as escolhas, numa insólita, indesejável e sem precedentes intromissão. No início do mês, deixei aqui registada a ideia de que, e passo a citar – (me), “… Qualquer atitude menos pensada que interfira, sem razão útil e magna, no desenvolvimento normal e estatutário da vida das instituições nas RA’s, nomeadamente dos partidos políticos que nelas encontram o espaço da sua afirmação política, configura, a existir, uma interferência inadmissível na autonomia, um gesto alheio à autonomia, uma agressão gratuita à autonomia…”; não retiraria, agora, uma vírgula.

Porém, e para lá dessa circunstância, a vitória, pelos vistos poderosamente apadrinhada, não escrutinou, nem confirmou qualquer clareza programática, qualquer ideia auspiciosa e entusiástica, qualquer identificação ideológica, qualquer pragmatismo eleitoralmente promissor; consagrou, isso sim, num ambiente de sombrias cumplicidades, uma destemperada cupidez capaz de levar o PS-M pelos caminhos do imediatismo útil, da irracionalidade como hábito, do oportunismo como vício, do vale tudo como método. E, tudo isto, sem se perceber muito bem quem é quem nesta amálgama de influências, de desempenhos, de protagonismos e de desígnios, sobrando a convicção de que o PS-M, – e os seus órgãos, todos eles, o individual e os colectivos -, por força dos condicionamentos externos que promoveu e acolheu de forma expressa e pública, abdicou da autonomia estratégica, programática, decisória e comportamental que tinha como arma de combate político e fica, sabe-se lá com que resultados, à mercê de decisões que ficam fora de casa e que não são de todo em todo controláveis e, ou, contornáveis.

A breve trecho, e como soe dizer-se, p’ra longe vá o agoiro, o Partido Socialista na Madeira poderá ver-se reduzido à dimensão de um simples dispositivo de propaganda eleitoral condenado a catapultar aos patamares maiores da política e da representatividade social quem não tem, nem quer ter, qualquer compromisso com ele e com o que ele significa, qualquer cumplicidade com o seu passado e com a sua memória, quaisquer laivos de referência identitária que o aproxime do que no PS-M há de verdadeiro, unificador e promissor.

Resta-me esperar estar enganado, – e como eu o desejo… -, e poder ver, em breve, um partido unido, adulto, sério, competente e apetrechado para enfrentar os desafios substantivos com que vai ser confrontado, capaz de corresponder às expectativas dos militantes e dos cidadãos em geral sustentando uma alternativa capaz de honrar o seu passado na construção da autonomia e da democracia.

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PS:

E, já agora, caro (a) leitor (a), a ironia de uma curiosidade: “você sabia que”, a ser verdade que o secretário-geral do PS se empenhou na vitória do candidato vencedor, apoiou também, et pour cause, a estratégia dos que, – nela significativamente presentes -, estiveram do outro lado da barricada nas directas, abertas a independentes, que ele, secretário-geral disputou, e de que, apesar disso, também na Madeira, saiu vencedor?

 

 

Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.