Da “onda” Albuquerque ao “tsunami” Cafôfo

O ano de 2018 irá trazer, sem dúvida, algumas confirmações sobre determinadas estratégias que vinham sendo visíveis, na Região, no final de 2017, de caráter político partidário, que na verdade, para sermos rigorosos, só coloca o PCP de fora (para já), o resto é coisa para não haver quem durma descansado. Por razões diferentes, mas todas elas envolvendo questões que têm a ver com a liderança, ou a falta dela, provocando movimentos, uns mais notórios que outros, que lançam um apelo à mudança, quer internamente quando falamos de partidos, quer externamente quando extrapolamos para a Região, sobretudo agora que estamos no ano que antecede o das eleições legislativas regionais. Neste sistema assente em partidos, é assim. Para o bem e para o mal.

Por tudo e mais alguma coisa, 2018 aparece como um ano decisivo, mais do que provavelmente 2019, altura de ir a votos E tanto mais importante porque é já neste ano que se começam a desenhar e reforçar as linhas de orientação que levarão ao posicionamento dos políticos para 2019. Há três anos, estávamos na “onda” de Albuquerque, o povo não via mais nada. E ponto final. Era, mais ou menos, como o corolário lógico da popularidade que o então candidato a presidente do Governo tinha a olhos vistos, trazida da Câmara do Funchal, com uma caminhada tipo “Marcelo”, popular mesmo, o que lhe permitiu ganhar o partido e depois o Governo.

Era ali que estava a esperança do futuro, sobretudo ali que estava uma forma de expressar a mudança, que veio ao encontro de uma saturação de anos com a mesma liderança, também ela com os seus tempos de popularidade, só que popular durante muito mais tempo.

O que aconteceu depois de 2015 é que essa transformação misturou-se com um anti-regime anterior, levado ao limite, já nesta governação, às vezes até de forma primária, por algumas escolhas que o líder fez e que não resultaram lá grande coisa, como de resto já se viu. Pela atitude e por certas cumplicidades que comprometeram o próprio líder, o governo e o partido que lhe dá suporte. Talvez um pouco de contenção e respeito pela parte boa do passado não tivesse ficado mal. Mas é assim, os líderes, às vezes, porque são obrigados a fazer escolhas, pelas circunstâncias e por decisões de momento com base em conselhos já “viciados”, são empurrados para certos “abismos”, com custos políticos inevitáveis. E “levam” com isso.

Albuquerque (PSD) não conseguiu, por essas e por outras, estabilizar o seu estatuto de liderança, dar-lhe “velocidade de cruzeiro”. E sendo assim, está um pouco dependente daquilo que, qual D. Sebastião, Pedro Calado possa vir a fazer – é muita responsabilidade para os ombros de quem chegou agora e é como se tivesse as casas (governo e partido) para arrumar. As eleições ainda são em 2019, mas a popularidade, hoje, já nem é metade da que era. Será preciso muito trabalho, muito dele de terreno, talvez ir além das sedes do partido e descer ao povo. O que está feito, está feito. A preocupação, agora, já é com o efeito, de Cafôfo claro está. Que na rua já leva um avanço, o que é importante, mesmo que se trate, como é o caso” de uma “maratona”.

No que toca ao PS-Madeira, as eleições internas clarificaram o que já estava desenhado. Carlos Pereira tinha pela frente uma plataforma conjugada de mobilização que visava uma ascensão ao poder, primeiro no Partido Socialista, e depois, apontando já para 2019, a presidência do Governo Regional, com a particularidade de ter havido um candidato ao partido e outro ao governo, um modelo pouco testado mas estrategicamente compreensível à luz daquilo que tem sido o capital de popularidade do autarca funchalense. Os socialistas decidiram, primeiro, e depois o eleitorado regional vem a seguir, com sim ou não. Depois da “onda” de Albuquerque, em 2015, podemos ter o “tsunami” Cafôfo visando 2019.

Já começamos a ter um caso muito sério para o PSD-Madeira, que nunca teve, na sua história, um cenário de oposição tão previsivelmente difícil de contornar. E o PSD-M já percebeu isso mesmo, vem adotando uma estratégia “à Jardim” – o inimigo externo – quando tanto Albuquerque como Rui Abreu, o secretário-geral do partido, a que naturalmente corresponde uma estratégia concertada, apontam o perigo da Madeira ser governada a partir de Lisboa com a vitória de Emanuel Câmara/Paulo Cafôfo. É curioso, porque foi exatamente a mesma estratégia que a oposição a Albuquerque utilizou quando o atual líder ganhou as eleições, acusando-o de ser “empurrado” por Pedro Passos Coelho e que era Lisboa a impor a mudança no PSD-Madeira e na liderança da Região. É uma estratégia como outra qualquer. Valeu o que valeu, vale o que vale.

Num outro patamar, relativamente aos restantes partidos, Lopes da Fonseca (CDS/PP) enfrenta, também, uma missão difícil, de unir o partido para os desafios de 2019, procurando recolocá-lo em patamares já anteriormente alcançados. Com as atenções centradas num desejo de liderança mais combativa, mais política, mais cúmplice com o potencial eleitorado. Já fez algumas alterações visando uma aproximação aos eleitores, com iniciativas pela ilha e uma estratégia que visa transmitir uma certa dinâmica política, mas depois disso já apareceu José Manuel Rodrigues a afirmar que está de volta, naturalmente para fazer “vida difícil” ao líder.

No Bloco de Esquerda, temos Paulino Ascenção que vai concorrer à liderança do partido na Região, e também, com um objetivo de tentar fazer com que o BE seja “empurrado” para uma outra dimensão regional, que corresponda, de forma mais próxima, ao protagonismo que neste momento tem na República.

Por estas e por outras, 2018 é um ano que promete muito. É, por assim dizer, marcante do ponto de vista político. O equivalente à campanha eleitoral, só que desta vez mais alargada no tempo. Será uma grande campanha eleitoral e um ano para que muitas reivindicações sejam satisfeitas, mesmo que algumas tenham durabilidade reduzida. Não se sabe se valerá a pena em termos de futuro, mas sabe-se que o quadro que se desenha é de tal forma importante para o futuro da Madeira e dos partidos que não andaremos muito distantes da realidade se dissermos que as eleições de 2019 serão, a manter-se estes cenários, as mais disputadas de sempre. Com repercussões para as gerações vindouras e para a própria partidarização da política.

Muita gente deve colocar as “barbas de molho”, como diz a expressão popular. Porque as “barbas do vizinho” já estão a arder.