A  Penteada  ou  o  Fim  do  Caminho

 O tempo, em alguns mitos  ancestrais, é comparado  a um grande rio caudaloso, cujas cheias são factores de destruição e  morte. Heráclito usou essa  metáfora para  definir  a passagem do tempo histórico, correspondendo  as cheias  aos  picos civilizacionais que transformam os  humanos e modificam toda a face do planeta. Enquanto o tempo passa, deixando marcas no nosso rosto e na nossa  vida, nós ficamos sempre aquém  da  vertigem que o leva para futuros desconhecidos. E embora os  futuristas  se  aventurem  em  possíveis  previsões  do que  venha a  acontecer em  anos  próximos, de acordo  com  uma  evolução  reconhecida, o  tempo  é  uma  espécie  de  mistério  que  nunca  se  revela  e  apenas  se expressa  momentaneamente  na  transitoriedade  dos acontecimentos. Assim, o que vai acontecendo é consequência de  vários agentes e procedimentos, através duma teia  de  possibilidades imprevisíveis.

Em 2004, publiquei o  livro  *A Penteada ou o Fim do Caminho, um  documento  afectivo,  cujo  conteudo define e denuncia a mudança, por sucessivas  devastações, que sofreu  o  sítio onde  nasci  e  vivi na  infância. Por ordem natural, o Caminho da Penteada por onde se escoa o  Ribeiro  da  Água  de  Mel que vai desaguar à Ribeira de Santo António  viu desaparecerem, ao longo dos anos, os vultos humanos que faziam a história do lugar, as antigas  moradias por fim abandonadas e os característicos muros pintados de amarelo claro que cercavam  os quintais e as fazendas. Em 2004 verifiquei que o Caminho da minha infância chegara  ao  fim. Ergueram-se ali o Campus Universitário e o Tecnopolo, e algumas  vivendas novas ocuparam as terras que outrora tinham sido fazendas  verdejantes e produtivas. Anunciavam-se  então  novos planos promissores  que  guindariam  o  sítio a um futuro de pujança e modernidade.

Na chegada de 2018, o tempo  mais  uma  vez me  colocou  repentinamente  perante uma experiência desconcertante  com  alguma  tristeza  à  mistura. Voltei  agora a  este  lugar  que  foi  meu  por  direito  de  ter  eu ali  nascido e  vivido  uma  adolescência  saudável  e  feliz  e pela  memória  que dele guardei e registei  num livro  significativo, esse  que atrás  referi.  De novo me abismei numa desoladora  destruição. Neste momento as casas que então se construíram  estão  de  novo  vazias, outra vez devassadas,  enterradas  em  entulho  e  ervas  secas.  Apenas  emergem  do  que  foram  jardins  umas  rosas  desesperadamente  resistentes  e  uns  tufos  de  estrelícias  que  em  vão ostentam  o orgulho  das  suas  formas  e  cores,  completamente  aviltadas, cercadas por detritos  e  um  matagal  assustador.

A Penteada  apresenta  agora, para desencanto  meu,  uma recente versão do fim do Caminho, uma segunda etapa da sua vida, revisitada pelo rio caudaloso do tempo, cruel  e imparável. Desfigurado  e  moribundo, o  seu  perfil é o de  um sobrevivente  condenado  ao  ostracismo,  velho  e  triste.  Pergunto-me  se o viaduto que  o  ensombra, a Via Rápida traçada em cota 200, quase rasando  o  Caminho, fazendo uma tangente impensável com o prédio 31 B, não terá  contribuído para o desassossego dos moradores. Sei que fico sem resposta e não beneficio de nenhum antídoto que me cure o espanto. Na verdade, tal como digo no meu livro, especialmente amado: «Um viaduto  rasga  transversalmente a perspectiva do Caminho…Visto  cá  de  baixo  afoga  a  ladeira  como  uma  rajada  de  betão  que  surgisse,  impiedosa, sob  as entranhas  da  colina  e  cujo  destino ainda  não  é  possível  prever. Transporta  em  si  o  timbre  da  vertigem  que  agride  sem  mais  remédio  a  lentidão  das  terras  ainda  há  pouco  despojadas  de  suas  ervas  e  frutos.»( pp 17/18).

A acrescentar a todo este envelhecimento, até  o  edifício da  Universidade  acusa  na  fachada  as  marcas  das  intempéries,  por  invernos sucessivos,  que  lhe  esfacelaram  a  pele do  rosto.  Toda a paisagem  que a  circunda é a  de  uma  mata  virgem a  prolongar  o   baldio  acachapado  sob a Via Rápida. Uma  moldura  inadequada à edificação  dum  projecto  urbano  que  um  dia  foi  sonhado  e  prometido,  para  que  a  cidade  crescesse  até  ali,  harmoniosa  e  limpa,  moderna  e  bela.

Ah ! O tempo…o  tempo !… Por  um  lado  a  fragilidade  dos  sonhos  humanos…por outro  a falibilidade dos seus  poderes !

 

*A Penteada ou o Fim do Caminho, Editorial Diferença, Leiria, 2004