O caso nada raro da “Raríssimas”

Começou a investigação “Raríssimas”. Paula Brito e Costa foi constituída arguida com termo de identidade e residência. Aleluia! “Em menos de um fósforo” começaram as buscas.
E com a promessa de que vai ser dia e noite, noite e dia.
Num comunicado publicado pela velocíssima Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa pode ler-se que se encontra “em curso, em Lisboa, em Odivelas, em Queluz e na Moita, o cumprimento de quatro mandados de busca não domiciliária e de um mandado de busca domiciliária emitidos no âmbito de inquérito da Secção Distrital do DIAP de Lisboa”.
Um recorde digno do Guiness ou, quiçá, mesmo acima!!!
A verdade é que temos o mundo embasbacado e roído de inveja a olhar para nós, rendido à nossa exemplar celeridade, sem dúvida tentadíssimo a imitar-nos. Em lugar de esfregarem os cotovelos numa parede de crespo, aprendam com quem sabe. Em matéria de Justiça, cá em Portugal, “é tudo para ontem”. A vida são dois dias. A Justiça é um só. Um verdadeiro “vê se te avias”.
As buscas tiveram como alvo a casa de Paula Brito e Costa, em Odivelas, a sede da Raríssimas, em Lisboa, a Casa dos Marcos, na Moita, além de um gabinete de contabilidade.
A PJ esteve ainda no gabinete do ex-secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, que se demitiu na sequência das suspeitas de gestão danosa na associação da qual foi consultor, entre 2013 e 2014. Enquanto consultor, Delgado só recebeu da instituição a modesta e insignificante miséria de 63 000 euros, quase tanto como o ordenado mínimo nacional ou as equivalências de Miguel Relvas.
Após as buscas da Judiciária à casa da ex-presidente, Pedro Cunha, o advogado da também auto-proclamada DOUTORA Paula Brito da Costa, disse que “não é previsível” que “nos próximos dias, semanas ou meses” ele ou a sua cliente prestem mais declarações aos jornalistas. “Da nossa parte, neste momento, não temos nada para dizer”, afirmou Pedro Cunha. Dizem
Nada mais compreensível. Há que estudar os labirintos e escapatórias da lei, as possibilidades de amolar o processo; de recurso em recurso, em recurso; de formular defensivas alegações parecidas a argumentos de ficção científica; laborar na esfarrapada tese da “cabala” ou em piadas de “Stand up comedy”, enfim, mandar as culpas para D. Afonso Henriques ou para o clássico mordomo.
O advogado acrescentou igualmente não saber quando é que a ex-dirigente da Raríssimas será presente a um juiz. Pela correria do processo deve estar por dias, calcula-se…
No entanto, Pedro Cunha não descura a possibilidade de Brito e Costa voltar ao trabalho assim que terminar o período de suspensão de 30 dias do cargo diretivo que tinha na Casa dos Marcos. Subscrevo a brilhante ideia. Tem a obrigação de voltar à Casa dos Marcos, ou não tivesse sido ali tão Marcante!!!
As palavras do advogado (nem sei como exprimi-lo tão sensibilizado que estou) são a modos que um comovente hino à JUSTIÇA e aos direitos laborais. Veja-se esta verdadeira pérola argumentativa: “Acho que é normal que as pessoas regressem ao seu local de trabalho quando tiverem condições para isso”. Melhor: “Os arguidos também trabalham”.
Segundo se sabe, a ex-presidente foi suspensa pela Direção por uns cruéis e extensíssimos 30 dias, não por iniciativa própria da Direção, mas só depois da gritante reivindicação dos funcionários, todos de pé, mas já não para fazer vénias à prepotência da “dona daquilo tudo”, justificando a Direção que a sua presença no local de trabalho “pode ser susceptível de perturbar” as averiguações do processo de inquérito interno entretanto aberto. Como se isso fosse possível ou sequer a mais remotíssima hipótese!!! Esta nossa lei, às vezes, passa de uma espécie de Santa Casa da Misericórdia, como dizem alguns, para uma coisa radicalmente draconiana, isto é, excessivamente rígida. É mesmo arrepiante imaginar (apenas imaginar já dói) as punições exageradamente rígidas, drásticas ou desumanas que vêm por aí ladeira abaixo contra “a dona daquilo tudo”.
Para ficar com “pele de galinha” e com os “cabelos em pé” basta pensarmos no caso BPN, BES, TECNOFORMA, Submarinos, Robalinhos, Marquês, entre tantos outros inocentíssimos e angelicais processos a fazer lembrar as longas-metragens do realizador Manuel de Oliveira ou os discursos de Fidel Castro.
Entretanto, enquanto a investigação começava a ganhar a habitual velocidade supersónica, a arguida teve tempo e livre-trânsito para ir até à sede da Raríssimas, com toda a certeza para “matar saudades” de alguma papelada mais íntima, das porcelanas, das gavetinhas… enfim para dar vazão aos seus afetos. É humano. Resumindo, a arguida teve muito pouco tempo para destruir provas, falar com pessoas e condicionar testemunhos!!! Alegadamente.
Com sorte, os inspetores da PJ ainda irão a tempo de encontrar cascas dos 230 euros espatifados em gambas, algures no quarto de jantar, e um ou outro saquinho de compras do Corte Inglês, local onde a distinta senhora fez uns gastozitos de 364 euros pagos pela Raríssimas.
Marido e filho, porém, estão fora do perímetro das investigações, tendo a possibilidade de continuar a visitar a instituição sem quaisquer restrições. Total liberdade de movimentos. Parece que em nada estão ligados ao caso, diz-se. Dia 25, o Pai Natal vai descer pela chaminé, certo?
Por enquanto arguida e advogado vão fazer uma espécie de “retiro”, de “voto de silêncio”.
Pois é, já reza o ditado: “O silêncio é de ouro”, como diria o igualmente inocente Pedro Dias.
Certo é que, caso os jornalistas não pusessem cá fora as denúncias, tudo estaria a ganhar pó nalguma gaveta fechada, com a chavinha eternamente perdida ou em parte incerta.
Se assim não fosse, jornalisticamente espoletado, morrer-se-ia à espera que a Justiça levantasse o dito-cujo dos cadeirões estofados e fizesse o que lhe compete: investigar as denúncias e proceder em conformidade.