Entidades regionais e nacionais querem levar a exposição “Ilhas do Ouro Branco” em Março ao Porto, e depois a outros países

Fotos: Rui Marote e DR (Em Lisboa)

A exposição “As Ilhas do Ousro Branco – Encomenda Artística na Madeira Sécs. XV a XVI” mereceu hoje os maiores elogios do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes. Marcelo Rebelo de Sousa considerou a mostra “excepcional”, e afirmou que a mesma bem merece ser desfrutada pelo maior número possível de portugueses “não sendo possível, obviamente, fazê-la desfrutar por todo o mundo”.
Porém, o elogio de Marcelo inspirou declarações ainda mais ambiciosas por parte do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, que enalteceu esta “verdadeira embaixada artística da Madeira” e já foi, na senda de uma declaração anterior de Miguel Albuquerque, apontando o Porto como destino futuro da exposição, após vários meses de presença na capital portuguesa. Castro Mendes chegou mesmo a dizer que a exposição merecia ser vista nos países europeus “e, porque não, na América”.

O desafio de a exposição ir ao Porto fora lançado, momentos antes, pelo presidente do Governo Regional, como um desafio ao bispo da Diocese, D. António Carrilho, que, com o bispo emérito D. Teodoro Faria e outros membros do clero, marcaram presença ao final da tarde de hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes.

Marcelo Rebelo de Sousa foi uma presença apreciada, mas aparentemente os condicionalismos da sua agenda ditaram uma curiosa situação: os convidados e interessados foram chegando para a abertura da mostra, aprazada para as 18h30, quando foram surpreendidos, a essa hora, pela saída do mais alto magistrado da Nação para o átrio do Museu, acompanhado do ministro da Cultura, do presidente do Governo Regional e de várias outras entidades nacionais e madeirenses relacionadas com a Cultura, entre as quais a secretária regional do Turismo e Cultura, Paula Cabaço. Ali tiveram de ouvir os discursos sucessivos do director do MNAA, António Filipe Pimentel, de Miguel Albuquerque, de Castro Mendes e depois, finalmente, do presidente da República. É que estes, e outros dignitários, já tinham visitado a exposição e Marcelo, rodeado de seguranças, precisava de se ir embora.

Isto criou uma situação algo caricata, já que o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, Tranquada Gomes, o presidente da Câmara Municipal do Funchal, Paulo Cafôfo, e o vereador funchalense Miguel Silva Gouveia, por exemplo, não sabiam da visita prévia e/ou não tinham sido convidados para a integrar. Assim, houve uns que visitaram a exposição mais cedo e partiram, e outros que a visitaram só depois da partida dos primeiros, juntamente com o comum dos mortais.

Neste segundo grupo notaram-se as presenças de personalidades como Susana Prada, secretária regional do Ambiente e Recursos Naturais, de Cafôfo e Miguel Silva Gouveia, como já dissemos, e de João Henrique Silva, director do Museu de Arte Sacra do Funchal, uma das instituições que mais peças emprestou a esta exposição. Ora, da nossa perspectiva, se isto não configura uma indelicadeza ou um desrespeito, configura pelo menos uma trapalhada, da qual, em primeira instância, serão imputáveis os responsáveis do MNAA.

Por outro lado, houve jornalistas a acompanhar a referida “pré-visita”, enquanto outros foram impedidos de entrar antecipadamente por funcionários do museu, denunciando a falta de qualquer critério; e o presidente da República e os dignitários que o acompanharam entraram pela porta do Museu que dá para a Rua das Janelas Verdes, enquanto o grosso do público entrou pela entrada principal, tendo de atravessar toda uma série de corredores com obras que nada tinham a ver com a exposição da Madeira, antes de iniciar a visita à exposição, mais uma vez tendo de aguardar alguns momentos, sem qualquer razão, frente a uma porta fechada.
Mas, confusões à parte, as quais se podem esquecer com alguma boa vontade, a exposição está realmente interessante e promete, inquestionavelmente, projectar o nome da Madeira. O FN visitou-a e pode atestar da sua unidade narrativa e descritiva, da riqueza do património exposto e do seu impacto visual para o visitante.

O problema, que alguns, preocupados, responsáveis ligados à Cultura madeirense comentavam em voz baixa, é que se a exposição prosseguir com o grau de itinerância que se pretende, igrejas e museus da Região ver-se-ão despojados de alguma da sua oferta artística mais significativa durante muitos meses ou mesmo anos… E o que terão, então, para mostrar aos turistas? Uma questão sem dúvida pertinente…
Por outro lado, a importância da visibilidade que uma exposição como esta confere à Madeira em matéria de projecção enquanto destino cultural, é inegável. Este é um acontecimento cultural positivo, que coloca o arquipélago no mapa cultural nacional e mesmo internacional, e sublinha o valor do seu património histórico e artístico.

Voltando à intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, destaque para a forma como o mesmo, presidente honorário do Conselho dos Curadores do MNAA, enalteceu a forma como a instituição promove a manutenção da memória colectiva e da nossa identidade nacional e cultural. E, nesse sentido, para o modo como Portugal deu na Madeira os primeiros passos do que, na época, se podiam considerar algumas inovadoras experiências de globalização.
Foi “como a concretização de uma utopia”, a construção de raiz em território virgem, “um sítio onde as pessoas podiam almejar a uma outra organização da sociedade, mais justa e com oportunidades transversais mais abrangentes”.


Considerando “magnífico” e “singular” o conjunto das 86 peças  seleccionadas pelos curadores, Fernando António Baptista Pereira e Francisco Clode de Sousa, o presidente da República considerou que as mesmas “são demonstrativas da arte que os mercadores madeirenses trouxeram da Flandres para a Madeira, em troca desse ouro branco que era o açúcar. Arte sacra, mas também pintura, escultura, artes decorativas, ourivesaria”.
A mostra, que “prestigia a Madeira e prestigia Portugal”, considerou, cumpre assim o desiderato de “dar a conhecer um património riquíssimo”.
Por seu turno, Miguel Albuquerque declarou que, com este acontecimento, “iniciámos da melhor maneira as comemorações dos 600 anos da descoberta e colonização da Madeira”.

Classificando a exposição “As Ilhas do Outro Branco” de “riquíssima” e “única”, disse que a mesma reflecte a aposta de Portugal no Atlântico nos séculos passados, que firmou uma posição estratégica que, na sua óptica, lhe permitiu ser uma das grandes potências mundiais do seu tempo.
Referindo que Portugal, em termos continentais, sempre foi um país ultraperiférico na Europa, expressou a opinião que a opção marítima foi o que permitiu a afirnação “cosmopolita e de afirmação mundial” dos portugueses.
Daí que encare mesmo esta exposição como uma oportunidade para Portugal reflectir sobre o que pretende ser no futuro, agora que se situa no seio de uma União Europeia. “A Madeira está intimamente ligada à nossa vocação enquanto país”, opinou, “de intercâmbio com outros povos e culturas”, patente “neste espólio maravilhoso”.

A Madeira “é de facto o alicerce da primeira globalização”, arriscou. “Hoje, temos de voltara pensar: Portugal sempre se afirmou mais quando saiu para o mundo, quando ousou a vocação atlântica”, ultrapassando as limitações das suas circunstâncias enquanto país integrante do Velho Continente.

Por seu lado, o ministro da Cultura citou cronistas como Gomes Eanes de Zurara ou Gaspar Frutuoso, evocando as primeiras viagens ao Porto Santo e à Madeira, nos primeiros tempos do povoamento, para citar a beleza natural do arquipélago, que se vem somar à beleza do património artístico entretanto acumulado, graças às encomendas de mercadores enriquecidos pelo comércio do açúcar, que, ao longo de dois séculos, encomendaram às oficinas flamengas e lisboetas valores patrimoniais que, gratamente, se conservaram até aos nossos dias.

“É toda esta exaltante e notável história”, declarou, que é contada nesta mostra, através de documentos e obras de arte únicas.
O director do MNAA, António Filipe Pimentel, numa intervenção pejada de momentos de bom humor, congratulou-se com a concretização deste evento cultural no Museu, comparando a Madeira a um verdadeiro paraíso “cheio de biodiversidade”.
Entretanto, através de metáforas poéticas, evocou todas as conversas e todo o trabalho que precedeu a montagem da exposição, mostrando-se satisfeito pelo facto de a mesma ter acontecido, dando assim forma a esta exposição que mostra um património artístico invulgar na natureza e na escala.
Afirmando que o MNAA pretende continuar a ser “varanda, aberta ao mundo, do património artístico português”, não se cansou de exaltar os méritos da mostra agora realizada.

Dividida por múltiplas salas, “As Ilhas do Ouro Branco” é uma exposição que principia com uma introdução à prosperidade económico financeira do comércio do açúcar, que impulsionou a aquisição das obras de arte hoje patentes ao público lisboeta; prossegue para a apresentação de painéis de altar e para uma introdução à organização política e social da Madeira dos tempos da colonização. Seguem-se painéis e diversas obras de arte religiosa, múltiplos óleo sobre madeira, trípticos com temas religiosos da autoria de mestres quatrocentistas como Jan Provoost, oriundos de locais como a capela de São João Latrão, em Gaula. Em destaque, encontra-se também um retábulo com o tema dos dos Reis Magos, da oficina de Antuérpia, de cerca de 1530. Refere-se ainda a forma como os sucessivos capitães donatários, quer do Funchal quer de Machico, aparecem ligados à encomenda de retábulos e imagens para templos católicos, desencadeando a vontade de serem imitados por elementos da nobreza, da burguesia rural e do clero, além de estrangeiros radicados na ilha. Apresentam-se documentos escritos interessantes e velhos de séculos, como a transcrição de uma doação feita por Francisco Homem e sua mulher, num manuscrito sobre papel vindo do Arquivo Regional da Madeira, datado de 1529. Aborda-se também a forma como os comerciantes nascidos à sombra da economia açucareira, na qualidade de patronos de igrejas ou capelas, também promoviam encomendas às oficinas portuguesas continentais, principalmente lisboetas.

Aborda-se a forma como a clientela madeirense manifestava a sua devoção através da aquisição de obras de arte religiosa como representações de santos, da Virgem com o Menino ou da Paixão de Cristo.
Destaque significativo é também dado à ourivesaria sacra.
Finalmente, abordam-se também os marfins, as porcelanas e as lacas provenientes da carreira da Índia, onde vários madeirenses faziam fortuna, como foi o caso de Tristão Vaz da Veiga, capitão da viagem de Macau, referido por Gaspar Frutuoso em “As Saudades da Terra”. Foi tempo de um novo tipo de importações artísticas.

A última sala da exposição apresenta vários, e monumentais, óleos sobre madeira, obtendo um impacto visual notável, complementado, nesta secção, pela belíssima cruz manuelina do Museu de Arte Sacra do Funchal. A mostra incorpora também alguns elementos audiovisuais.