Entrevista a Paulo Cafôfo (3): MP ainda não ouviu o autarca sobre a tragédia do Monte

Fotos: Rui Marote

Foi um acontecimento que sacudiu a sociedade madeirense, já bastante fustigada pelos incêndios e aluviões, para nem mencionar outro tipo de desastres, os estragos causados pela crise económica nas famílias e nas empresas. A tragédia do Monte mexeu com a própria fé de muitas pessoas que se questionaram como poderia um ser superior permitir tal coisa, quando as pessoas prestavam culto a Nossa Senhora. Outros desculpam tudo às suas crenças místicas, preferindo apontar culpados no reino deste mundo. E todas as reacções foram uma embrulhada, a CMF a adiantar-se na perícia, o Ministério Público a tardar a actuar, a Igreja a sacudir as culpas, a edilidade a reagir tarde e mal. Entre as responsabilidades desta ou de outras gestões camarárias, não se pode, todavia, ignorar o facto humano. Todos, mesmo as entidades oficiais, foram colhidos de surpresa. Menos uma família residente na zona, e que há muito alertava para o perigo iminente, inclusive através do FN. Como se sente Cafôfo em relação a este acontecimento? Foi o ponto de partida para uma nova etapa da longa entrevista que concedeu ao Funchal Notícias.

FN – A tragédia do Monte foi uma situação que o colheu de surpresa, que terá sido um choque. Essas questões das responsabilidades têm muito que se lhe diga, já foram faladas e exploradas de diversos ângulos… Vou pedir-lhe que me diga só uma coisa: já foi ouvido pelo MP nesta matéria?

PC – Não fui.

FN – Do ponto de vista pessoal, isto é uma coisa que o tenha afectado psicologicamente, particularmente, da qual pense ainda que tem contas a prestar?

PC – Na minha vida pessoal, e na vida política, eu assumo sempre as coisas. Seja nos bons, ou nos maus momentos. O Monte, para mim, foi duma violência pessoal (não falo política) muito grande. Eu assisti e vi coisas muito duras de ser ver. Estamos a falar de pessoas e de mortes trágicas. Nem todos nós temos, e eu acredito que até tenho alguma capacidade de aguentar o horror, mas aquilo que ali estava, naquele cenário, foi um cenário de horror e de terror. E foi para mim muito difícil, aliás, como acredito que tenha sido com a maior parte das pessoas que ali estiveram e presenciaram aqui “in loco”; e pensam, mais um pouco e éramos nós que ali estaríamos, porque íamos na procissão. Fui a funerais, e estive reunido com todas as famílias, algumas delas mais do que uma vez. Neste sofá onde nós estamos, já chorei com algumas, porque há ali situações de vida com as quais nós também nos envolvemos, já desabafámos, e há pessoas até que já ajudámos, em questões que não têm a ver propriamente com a tragédia, mas está relacionado… Acabamos às vezes por conhecer dificuldades porque alguns munícipes passam, conhecer a sua vida… E do ponto de vista pessoal, foi obviamente, violento passar por isto tudo. Estou tranquilo. Estou tranquilo, no sentido de que não tenho, na minha consciência, um peso de que poderia ter feito alguma coisa para evitar aquilo. Foi imprevisível. Do ponto de vista pessoal, depois de ter passado por momentos dolorosos, tenho esta serenidade e tranquilidade.

FN – Mas concorda que, ao longo dos anos, deixaram-se crescer excessivamente as árvores de cidade? O que não tem a ver exclusivamente consigo…

PC – Se olharmos para as cidades, em tantas cidades, as árvores que existem… esta cidade não é diferente das outras… e uma cidade terá sempre perigos. Não é só árvores. Às vezes as pessoas não têm a noção de que quem está num cargo como eu estou, como estão os vereadores, nós estamos sujeitos a determinados acontecimentos que nos marcam, e que não temos, directamente, uma responsabilidade, embora as coisas recaiam sobre nós. Por mais e melhor que façamos, isso pode sempre acontecer, porque na vida, é o que acontece… Nós em casa temos acidentes… Aliás, alguns dos mais graves acontecem mesmo em casa, contrariamente àquilo que se possa pensar. O que temos de fazer é estar alertas, e fazer o melhor que podemos, e o melhor que sabemos, para evitar que situações, dessas ou outras, possam acontecer. Agora, não vamos cortar as árvores todas da cidade.

FN – Sim, é óbvio. Embora, houve um pouco uma histeria depois do Monte, de andarem a cortar a torto e a direito…

PC – Mas repare, a histeria de que se fala, compreensivelmente, da parte das pessoas, houve medo. Nós começámos a receber alertas e alertas na câmara, e fomos criticados por fazer essas intervenções. Agora, nestes últimos dias de vento, enfim… Há um problema aqui, falta de chuva… Não sou eu a dizê-lo. Os técnicos é que o dizem. Neste momento, as árvores estão secas por falta de água, não têm elasticidade e quebram. Há aqui alterações climáticas a acontecer claramente, e que têm efeito depois também nisto, o que é preocupante, porque temos de estar muito alertas, para minimizar, ou evitar mesmo, que os perigos podem ter como consequência, catástrofes.

FN – Outra questão: a empresa “Frente Mar”, tem sido uma das coisas mais criticadas na gestão camarária. Há quem diga mesmo que aquilo é uma espécie de empresa para funcionar como um saco azul, onde se mete tudo o que não se pode propriamente justificar em termos de despesas, tem um passivo gigantesco, o que é que falhou ali?

PC – Não falhou nada. A questão não é que se possa dizer que tenha falhado alguma coisa na empresa municipal Frente Mar, pelo contrário. É preciso lembrarmo-no no passado, dos processos de má gestão e gestão danosa nos tribunais, da empresa municipal Frente Mar, é preciso lembrarmo-nos também de que aquela empresa não tinha sustentabilidade financeira, e neste momento, é uma empresa que tem essa sustentabilidade financeira e tem futuro. Porquê? Nós, aquilo que fizemos foi que, além da gestão dos complexos balneares, e repare que melhorámos significativamente a Barreirinha, e abrimos o Lido, além das praias, que, da minha perspectiva, estão melhores, particularmente a Praia Formosa, em termos de limpeza, condições para ter acesso a banhos. Mas, com os estacionamentos. Os parcómetros, e as receitas dos parcómetros, estavam, como é sabido, numa empresa privada, em que nós depois não renovámos a prorrogação desse contrato, e entregámos à Frente Mar, que veio dar outra sustentabilidade que essa empresa não tinha. E ainda estamos a cobrir a gestão danosa que foi feita. Dou um exemplo concreto: não sei se se lembra duma pista de gelo que existia aqui na cidade do Funchal. Pois nós ainda temos um calote à Caixa Geral de Depósitos, de, não querendo falhar nos números, 700 mil euros, relativamente a isso. Mais; tivemos que inscrever este ano um valor de quase 400 mil euros de dívida da Frente Mar à CMF, da água. Que só pudemos inscrever agora, porque tivemos a recomendação do Tribunal, de que se a empresa não fosse sustentável, teria de fechar. Neste momento há sustentabilidade, e esse valor que o PSD critica, é um valor de contas de água que não foram pagas. Apesar de ser uma empresas municipal, tem, obviamente, de pagar os custos de água. Por isso, foi agora inserido nas contas, mas foi feito nos mandatos anteriores. Por isso, a empresa, neste momento, tem sustentabilidade, a empresa tem um carácter de sazonalidade cada vez menor, por causa dos estacionamentos, mas claro que o número de pessoas que é necessária numa época balnear é completamente diferente daquelas que são numa época de Inverno, em que não são necessários tantos recursos humanos. Temos pessoas de confiança [nessa empresa]? Temos. Temos ali pessoas nomeadas para tal, tudo dentro da legalidade, tal como há pessoas nomeadas, em muito maior número, por exemplo, em lugares do Governo Regional. Mas isso é o que é, e é assim que tem que ser, e não há aqui nada de extraordinário. Há lugares que são por concurso, e há lugares que são de nomeação.