Entrevista a Paulo Cafôfo (2): Quem é o homem e o autarca que diz “Tudo se resume às pessoas”

Fotos: Rui Marote

Quem é Paulo Cafôfo? E quem tem medo de Paulo Cafôfo? Quem é este homem que conseguiu conquistar um segundo mandato camarário mesmo depois de algo tão politicamente negativo como a tragédia do Monte? O que faz, o que lê, que música ouve, o que o define, que desporto pratica ou praticou? O Funchal Notícias tentou saber e foi em busca da resposta, procurando descortinar os gostos e a personalidade do político e do homem, numa conversa cândida e sem empecilhos, sem assessores nem agências de comunicação por perto. Fomos sentir o pulsar do actual líder da autarquia, passeámos com ele, acompanhámo-lo pelas ruas da cidade, vimos como interage com as pessoas. E podemos atestar: Cafôfo, além de agir espontaneamente, está bastante seguro de si próprio e das suas opções. Apesar de se classificar ainda como um  aprendiz nas lides da política, adaptou-se muito bem à sua visibilidade pública, às suas funções, àquilo que a população espera dele. É um bom comunicador e terá aprendido muito sobre estas lides, desde há quatro anos para cá.

Recebeu-nos no seu gabinete, onde se notam ares de modernidade. Diz que, quando ali chegou, não gostou da decoração, considerou-a pesada, mandou retirar os “grandfather clocks” e outros adereços do género e pendurou na parede pinturas do artista português Pedro Proença, que antigamente estavam no café do Teatro e que tinham ficado algo danificadas no 20 de Fevereiro de 2010. Garante que o destino que iam ter era o lixo. Mandou recuperar o que se pôde e as outras manchas que ficaram naqueles trabalhos têm a ver com a própria história do Funchal – mesmo a trágica.

No móvel do gabinete, fotos de António Costa e Salgueiro Maia, a cabeça de Buda, a indicar uma vertente esotérica (pratica meditação e segue a filosofia Reiki, que preconiza uma energia vital universal) uma coluna wi-fi, (gosta de ouvir música) rádios para comunicações, telefone, pinturas de Lourdes Castro, de Marcos Milewski. Mais arejado, mais contemporâneo, reparamos. Menos convencional, menos “british”. Mas mantém uma bela secretária clássica do tempo, assegura, de Fernão Ornelas, a qual foi recuperar.

Afinal, perguntámos, quem é Paulo Cafôfo?

A resposta ao próprio: “O Paulo Cafôfo é um cidadão comum, que tem na profissão de professor a sua carreira. É duma família de classe média. O pai, que faleceu o ano passado, era comerciante, empregado. A minha mãe era professora do 1º Ciclo, e o meu pai era das zonas altas de Santo António, do Jamboto. Digamos que o meu percurso acabou por ser o de uma pessoa perfeitamente normal, que teve na educação, e a minha mãe sempre o disse, a melhor herança. Nela sempre investiu para que tivesse a qualificação e a formação pessoal necessárias para ter sucesso na vida. Portanto, trata-se de uma pessoa que fez um percurso na escola, um aluno razoável. Curiosamente, eu não tenho nenhuma área, nenhuma apetência para uma área específica… Tanto era bom em Matemática como era em Letras. Nunca tive uma vertente que eu dissesse, bem, esta é uma vocação, uma área do conhecimento para que tenho maior capacidade. Sempre fui um pouco “banda larga” no que diz respeito a esse aspecto. Segui o meu percurso normal, até ingressar na Faculdade. Estive sempre no Secundário na área da Economia, mas não era de todo o que me dava gozo”.

Tem dois filhos, um com 19 anos, outra com 13. Curiosamente, o filho resolveu cursar Economia em Coimbra, seguindo a opção que o pai descartou. A mais nova, com 13 anos, é classificada pelo edil como dona de uma santa paciência, já que acompanha regularmente o pai em actividades de fim-de-semana, por vezes maçudamente protocolares. O presidente da Câmara diz que os seus filhos são ambos muito discretos, “não gostam de ter destaque ou visibilidade”.

Paulo Cafôfo gosta também de praticar desporto. Adora correr na Praia Formosa, cuja beleza elogia, uns cinco dias por semana, se a agenda o permitir. De preferência, de manhã. Um mergulho vem depois complementar a actividade física. Em novo, praticou natação tendo como treinador André Escórcio. Ainda se lembra da rigorosa disciplina, que lhe desperta risos. “Andávamos ali todos direitinhos. E é assim que tem de ser, quando se leva o desporto a sério”, admite. Praticou vários, a natação foi aquele que levou mais a sério.

Confessa que gosta muito de cozinhar, o que considera uma terapia. Inventa muito e não é de seguir receitas, preferindo dar azo à criatividade. Gosta mais de comer em sua casa, ou na de amigos. No entanto, muitas vezes come fora, nos cafés da baixa ou mesmo na cantina da CMF. Da primeira vez que o fez, gerou espanto, lembra. “Mas eu sempre fui habituado em cantinas, desde a Faculdade até às escolas onde leccionei. E na cantina da CMF come-se bem, e barato, também”.

Em casa, garante, é mesmo muito raro ver televisão. Prefere ler ou ouvir música. E nestes âmbitos, os seus gostos são eclécticos. “Gosto muito de jazz, gosto muito de bossa nova, e obviamente gosto de rock. Mas ouço também muita coisa comercial”. Conta-nos que, das primeiras coisas que faz de manhã, é ligar o rádio (que ouve através do telemóvel) para ouvir música e notícias. Também vê as edições noticiosas online. Está sempre a ouvir música, seja no carro (tem um Smart e um Renault 4, para quando não anda de moto, a qual, no entanto, utiliza bastante). Pedimos-lhe que diga uma das músicas mais radicais que ouve: “Olhe, os “Mão Morta”, embora não lhe chamasse radical”, diz-nos. “Gosto, aprecio” (risos).

FN – O que determinou na sua vida a opção pela formação universitária em História?

Paulo Cafôfo: “Foi precisamente o gosto, a paixão pela mesma. Sempre tive esse gosto, não por me atrair um saber enciclopédico, mas mais porque a História me ajuda a compreender o presente e o futuro. Nunca me atraiu um saber enciclopédico, até porque hoje em dia, vivemos numa sociedade da informação e da comunicação, em que tudo está à distância de um clique. Aliás, a minha preocupação enquanto professor de História sempre foi, não de encher a cabeça dos miúdos com este saber enciclopédico, porque isso hoje em dia não faz qualquer sentido. O que faz sentido é podermos conhecer, interpretar e relacionar os factos. É esta ginástica que a História permite. Se repararmos, a História é transversal, é “macro”. E podemos aplicá-la em qualquer situação. Aliás, as ciências sociais em geral têm essa valência, não é? Mas foi mais a curiosidade, o querer conhecer, querer saber…

FN – E satisfê-lo?

PC – Sim, bastante. Eu tive a felicidade de entrar na Universidade de Coimbra, pelo “peso” académico e pela vivência, de experiência de vida, que foi, e o curso deu-me as bases, mas não no sentido de me fechar. Ou seja, hoje em dia, quem tirou o curso tem orientações, tem caminhos abertos, para poder depois explorá-los. Não é, bem, já sou licenciado, tenho esta formação, e agora não preciso de saber absolutamente mais nada. Pelo contrário, abrem-se é outras curiosidades e outros caminhos que até então não tínhamos.

FN – Há quem ache que quem governa, quem dirige, deve perceber mais de economia, de gestão. A História, no seu caso, dá-lhe uma perspectiva do mundo e das pessoas. Acha que o ajudou a ser um governante mais próximo das pessoas?

PC – A História dá uma perspectiva humanista. Quando falamos da História, falamos dos homens, e da Humanidade, e do Humanismo. Quando se fala muito em economia ou em gestores, há esta questão de se olhar muito para a folha do Excel, olhando muito para os números, para os resultados.

FN – Há um risco de desumanização…

PC – Completamente. Aliás, esse é um título dum livro do Valter Hugo Mãe, noutra perspectiva, lembrei-me agora. Mas sim, a História dá-nos esta humanização. E para mim acho que é fundamental, para quem gere uma cidade, ou um governo, ter em conta as pessoas. Para mim, esse é o essencial, o mais importante que tudo. Porque tudo se resume às pessoas. Tudo começa e acaba nas pessoas. Se a política não for entendida assim, não estaremos cá a fazer nada, absolutamente.

FN – Falámos um pouco do seu background académico… Falemos um pouco do seu background cultural. Citou Valter Hugo Mãe. Em termos de literatura, o que é que mais o atrai, o que é que gosta mais de ler?

PC – Curiosamente, também nisso sou “banda larga”, seja na literatura, seja na música, naquilo que são os meus gostos. Posso se calhar dizer aquilo que estou a ler agora… e nunca leio só uma coisa. Olhe, neste momento estou a ler o António Tavares, “Todos os dias morrem deuses”, estou a ler uma biografia do Mário Soares, estou a ler uma compilação de crónicas do Manuel António Pina, comprei agora o Damásio, a “Estranha Forma…”… ah… Eu comecei agora a lê-lo… Interessantíssimo, sobre os sentimentos, as emoções… A consciência, enfim… Acabei de ler agora de ler o livro do Tolentino Mendonça, um livro extraordinário sobre a vida, sobre Deus, acaba tudo por estar ali misturado…

FN – Citou as crónicas do Manuel António Pina, são interessantes, do ponto de vista político, social…

PC – Político, político!

FN – Mas ele também era um excelente poeta. Gosta de poesia?

PC – Gosto muito. Aliás, eu acho que a poesia, independentemente de ser de quem seja, faz parte daquilo que é o nosso dia-a-dia, no sentido de nos ajudar. Eu utilizo muito a poesia não só como um “relax”… mas enfim, tem uma profundidade… É claro que, ainda há tempos em lia, precisamente o Tolentino Mendonça… E ele falava, num texto, duma prisioneira da Segunda Guerra Mundial, alvo do nazismo, que se preocupava muito em cuidar das flores. Estavam a morrer à fome, não tinham pão, mas ela tinha sempre muito cuidado com a flor. E é este cuidado que nós, se calhar, precisamos de ter, o de não olhar só para o ter, mas também estas pequenas coisas de prazer da vida, e a poesia dá-nos efectivamente isso.

FN – Interessa-se também pela área científica? Anda a ler António Damásio, um neurologista…

PC – Sim… O Damásio, é verdade, tem uma forte componente científica, mas é muito mais do que isso… Muito… Eu diria que é mais filosófica do que propriamente científica, embora todo o percurso dele, e o conteúdo também, seja evidentemente científico. Mas é muito mais filosófico do que propriamente científico. O científico, no sentido de ser um livro técnico… De todo, não é.

FN – Em termos de artes plásticas, há algum género, algum pintor, algum artista favorito?

PC – (Risos) mas eu aí também sou…

FN – Também é banda larga…

PC – Prefiro arte moderna. Acho que é… Sou uma pessoa simples. E considero que isto de arte moderna… Há muitos estilos, muitos artistas, muitas propostas… Mas tem uma simplicidade que me atrai. E nós, aqui na Madeira, temos… E isto é uma questão importante, a Cultura, viver da Cultura, e o panorama cultural madeirense… porque nós temos realmente gente genial em diversas áreas. Entristece-me, às vezes, quando se olha para a Cultura só para as festas, só para o lado mais festivaleiro, quando depois há outro tipo de cultura, o levado a cabo quer por instituições, quer por pessoas, que realmente merecem…

FN – Tem sido criticado nesse aspecto, também, por ter levado a cabo alguns eventos considerados festivaleiros. Por um lado, tem realizado de facto, iniciativas culturais…

PC – Vamos lá a ver, uma coisa não invalida a outra. O problema é quando só se olha para uma vertente. Quando só se olha para a vertente festivaleira, e se descura outros aspectos da Cultura, e aqui o exemplo que deu da programação cultural do próprio Teatro Municipal, mas também do apoio que nós damos, desde uma Porta 33, desde os Dançando com a Diferença, desde o Élvio Camacho, com o Teatro Feiticeiro do Norte, desde o apoio a publicações…

FN – Acha que faz uma gestão equilibrada…

PC – Temos que fazer uma gestão equilibrada, e nunca pode ser só determinada pelo nosso gosto pessoal.  A nossa perspectiva tem de ser, em termos culturais, aquilo que interessa para a cidade, e a complementaridade, penso que é o sucesso de uma vida cultural de uma cidade como o Funchal.

FN – Em relação aos artistas regionais, eles foram também fortemente atingidos pela crise, e há uma carência muito grande de locais de exposição no Funchal. Se os artistas, antes, já tinham muita dificuldade em vender o seu trabalho, quanto mais viver dele, ou em organizar simplesmente exposições, hoje, continuam a ter essa dificuldade. É verdade que são organizadas exposições, por exemplo no Teatro e noutros espaços públicos… mas tem-lhe sido transmitido este tipo de preocupações?

PC – Claramente. Repare que, desde que eu cheguei à CMF, nós apoiamos, e estou a dizer apoio financeiro directo, oito vezes mais artistas e instituições ligadas à Cultura. Nem falo de isenções, que é uma forma de apoio, de espaços e equipamentos culturais da cidade. Mas, é uma necessidade. Repare, se olharmos para os equipamentos culturais que nós temos, temos  a nossa catedral da Cultura que é o Teatro Municipal Baltazar Dias, que tem tido uma performance muito interessante, quer em termos de espectáculos, quer em termos de público consumidor de cultura… Nós tivemos 45 mil espectadores o ano passado, entre turistas e locais, o que é um número extremamente interessante, mas aquilo que notamos é que o Teatro não chega. Não chega para as encomendas, e para a programação que nós queremos. Também começamos a não aceitar tudo, ou seja, implementar uma elevação do nível de qualidade da programação cultural, até porque também há determinados espectáculos, para além da questão da qualidade, que não se coadunam com uma sala clássica como o é o nosso Teatro. E o Funchal tem falta de um outro equipamento, outro espaço cultural, e é uma necessidade que nós temos já identificada. Essa nossa aposta vai passar, também, pela requalificação do Matadouro, como local… não é cultural, é mais de criatividade, sendo que ali, para além de locais de exposição, para além de locais onde criadores poderão ter o seu local de trabalho, de espaço de criatividade, trabalho e produção criativa, também haver hipótese de, a nível de exposições, a nível de espectáculos, ali termos a hipótese de termos uma outra centralidade, com base na cultura, ou com base na criatividade, na inovação.

FN – Fala-se muito de indústrias criativas comparando-as quase com outro tipo de negócio. Isso é um bocado discutível…

PC – É muito discutível. Olhe, o Augusto Santos Silva, [actual ministro dos Negócios Estrangeiros] tem um trabalho muito interessante sobre as indústrias criativas, mas quando olhamos para as indústrias criativas, estamos a falar de indústrias que, na sua maioria, dão muito dinheiro, mas ligadas ao audiovisual. É muito aos media e ao audiovisual, muito por aí. E também entrou um pouco de chavão, de moda, falar em indústrias criativas. Agora, que, independentemente da parte conceptual, há aqui um espaço para gente criativa, que tem projectos muito interessantes que me chegam sempre aqui à Câmara, no sentido de dar um apoio, criar uma oportunidade de ter uma orientação, de ter um espaço, isso sim. E estou certo de que ali o Matadouro será, depois, um espaço de… enfim, já houve tantos projectos, tantas ideias que ali surgiram, mas a cidade precisa de criar novas centralidades, e novos pólos atractivos.