Cristo Rei da Madeira: monumento pioneiro

Rui Gonçalves Silva
Existe na Madeira  (Garajau/Caniço), no promontório do Garajau, uma estátua evocativa do  Sagrado Coração de Jesus designado Cristo- REI, pois como a sua inauguração e benção coincidiu, nesse ano, com a solenidade litúrgica de Cristo-Rei, como a mesma fica assim conhecida. Refira-se, que a solenidade de 
Cristo-Rei foi instituída no dia 11 de Março de 1925, pelo Papa Pio XI, para realçar a soberania de Jesus, como centro da História e do Universo. O Cristo-Rei do Garajau  é um monumento singelo a Cristo, no topo da colina, num lugar cimeiro, com a imagem escultórica de Jesus de braços abertos, em betão, com 14 metros (pedestal e estátua), sobranceiro ao imenso mar em frente, visível de todos os barcos que aportam ao Funchal, e local de visita e peregrinação por terra.
O que é curioso e não é do conhecimento da maioria das pessoas, nem este facto é salientado por quem quer que seja, é que esta estátua ao Cristo-Rei, simples, pequena, mas monumental na sua representatividade, existe antes de todas as principais e mais emblemáticas que se conhecem no Mundo, cujo modelo de representação é idêntico nas demais evocações, ou seja, Cristo de braços estendidos e abertos, num apelo simbólico da sua mensagem e benção.
De braços abertos, como num abraço universal, o Cristo-Rei do Universo olha-nos e e expressa um convite renovado à Sua Palavra de Vida, “Vinde a Mim”, vós todos os que “andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei” diz o Senhor.
O Cristo-Rei do Garajau foi mandado erigir pelo Conselheiro Aires de Ornelas e sua esposa Dª Maria de Jesus Ornelas, tendo sido foi inaugurado em 30 de Outubro de 1927, da autoria do escultor francês Serraz. Na verdade, surge como tal em vária documentação como sendo da autoria de Georges Serraz (1833-1964); todavia na base da estátua consta Lenoir Pierre /Serraz, o que nos dará conta de que a escultura será da autoria de dois escultores franceses. Subsiste esta questão da identidade do seu autor ou co-autor por confirmar, uma vez que a inscrição na base da escultura poderá ser equívoca. Consta na escultura  a  seguinte  identificação
                             LENOIR PIERRE
                                    SERRAZ

Todavia cremos que a obra é da autoria dos dois escultores  franceses, ficando em evidência o nome do escultor Pierre Charles Lenoir ( por ser o mais velho?) e  Serraz apenas menciona o seu apelido. Assim sendo, parece-nos mais correcto atribuir a autoria da escultura em causa, aos dois escultores e não apenas a George Serraz.

Quando ao pioneirismo desta escultura, é inquestionável. O que é facto é que este monumento foi construído muito antes dos principais monumentos existentes  evocativos de Cristo-Rei.
Por curiosidade, refira-se que o  Papa Bento XVI nasceu no ano em que foi inaugurada a Estátua do Cristo-Rei do Garajau ( 16 de Abril de 1927). Este é assim  anterior a todos os grandes monumentos/esculturas/estátuas/santuários, que se construíram por esse mundo, antes particularmente do famoso Cristo Redentor do Corcovado (Rio de Janeiro – Brasil) que foi inaugurado apenas em 12 de Outubro de 1931) da autoria de um escultor francês chamado  Paul Maximilien  Landowsksi (1845-1961).
A escultura em causa, tem 30 metros de altura e o pedestal em que assenta tem 8 metros, sendo este Cristo-Rei Redentor o terceiro maior do Mundo, depois do existente na Bolívia (2º) e do da Polónia (o maior do mundo).
Em termos de actualização, registe-se que a partir de 6 de Dezembro de 2011, com a inauguração do monumento a Cristo de Copoya ( Chiapas/México) este será o maior do Mundo (62,3 metros – sendo de 48 metros sem o pedestal); todavia é uma escultura diferente das demais, pois não representa a imagem de Cristo-Rei, mas é uma representação estilizada, com a incorporação dos traços e contornos da figura de Cristo e não uma estátua de corpo inteiro, como é comum e emblemático nestas evocações. Por isso, não se nos afigura que esta possa ser comparada, para efeitos de avaliação da mais imponente, quando se tratam de monumentos diferentes, embora ligados, por serem ambos evocações de Cristo Rei.
O monumento do Cristo-Rei de Almada é também muito posterior. Inaugurado a 17 de Maio de 1959, tem como um dos autores, o escultor madeirense Francisco Franco (autor da imagem do Cristo Rei) e o escultor Leopoldo de Almeida (autor da imagem de Nossa Senhora existente na capela).  O monumento no seu todo tem 110 metros de altura, tendo a imagem do Cristo Rei 28 metros.Actualmente o maior monumento ao  Cristo-Rei é o existente na Polónia, mas de construção recente, pois foi inaugurado a 6 de Novembro de 2010 (tem 33 metros).

Existe em Portugal continental, para além do Cristo-Rei de Almada, junto ao rio Tejo, uma estátua no cimo da serra de Marofa ( Figueira de Castelo Rodrigo /Guarda), inaugurada em Julho de 1956.

Pelo mundo existem vários monumentos evocativos de Cristo-Rei, cujos principais serão o de Dili /Timor, inaugurado em 1996 (presente da Indonésia a Timor Leste), com 27 metros; de Angola, no Lubango, onde existe um monumento erigido pela colónia de madeirenses em 1966, com 14 metros; na Bolívia existe o Cristo da Concórdia, (de 1987) que  tem 40 metros (sendo, como se referiu, o maior do mundo); no México há o Cristo-Rei de Copoya, entretanto concluído e inaugurado (6/12/2011), que é o maior monumento ao Cristo Rei (tem 62 metros), mas não é um monumento  idêntico aos demais na representação de Cristo, pois não é a escultura deste de corpo inteiro e mãos abertas, mas uma representação estilizada.

Registe-se da existência, em muitos países do mundo e em várias localidades, de estátuas a Cristo-Rei, na generalidade com a imagem de Cristo de braços estendidos, na linha da estátua do Garajau e do Corcovado, embora também existam outras formas de representação.

Alguns exemplos de monumentos a Cristo-Rei : Cerro de la Noa (México); Cachabamada (Bolívia); Colon (Panamá); Lima e Cuzo (Peru); Dong Nam Bo (Vietname); Mont Pilatus (Suíça); Puerto Plata (República Dominicana); Ilhas Virgens; Gozo (Austrália); e em muitas localidades do Brasil (Minas Gerais, Belo Horizonte, Bahia, Sergipe, São Paulo, Paraíba,Santa Catarina, Paraná e Mato-Grosso.

Assim, no contexto dos monumentos evocativos a Cristo-Rei, o existente na Madeira, no Garajau, não tendo a dimensão das grandes esculturas existentes na iconoclastia cristã, é de facto na  sua concepção, no seu ideal de Fé e de crença,  pioneiro no tempo, consubstancia a ideia de evocar Cristo como referência para todos os crentes, de forma expressiva e em local apropriado, onde Ele seja Luz, Farol, Guia, Lembrança e Memória, esse Cristo de braços abertos  a todos, como ideia e apelo de generosidade, abrigo, benção, alento, paz e concórdia.

E do cimo deste promontório, desta pequena terra-Ilha, em pleno Atlântico,  ergue-se essa imagem simples, nobre e expressiva de Cristo, sob um céu azul, com a imensidão do mar em frente e a dimensão impressionante da escarpa,  a lembrar o divino ao Homem, a simbolizar a necessidade e a premência de espiritualidade na vida de cada um e de todos nós.

Nota: A 8 de Maio de 2016, a estátua do Cristo Rei do Garajau perde um pedaço da manga do braço direito, supostamente por degradação, decorrente do tempo, do vento, da erosão, da brisa do mar. Ao que consta, a última  intervenção de conservação e restauro na estátua datava de 2001.
Em Junho de 2016 a Câmara Municipal de Santa Cruz, procedeu a obras de restauro, após a queda de parte da manga, entretanto já concluídas.
Refira-se ainda que a comunicação social local deu conta de que a empresa Intermarina -Imobiliária SA será a proprietária dos terrenos em volta do Cristo Rei, incluindo a estátua. Ao que é alegado, o terreno em causa (cerca de 157 mil m2) terá sido adquirido por um empresário austríaco-canadiano em 1965, que fundou a empresa Intermarina, com o objectivo de edificar construções inovadoras na área.