Fotos: Alfredo Rodrigues
Xanana Gusmão, líder histórico da resistência timorense e, mais tarde, presidente e depois primeiro-ministro de Timor-Leste, foi hoje agraciado pela Universidade da Madeira com o título de doutor honoris causa. Foi um acto que marcou a sessão de abertura do ano académico naquele estabelecimento de ensino, e que contou com a presença das forças vivas da sociedade madeirense, entre numerosas entidades civis, militares e religiosas presentes.
Depois do elogio que lhe foi prestado pelo representante da República para a Madeira, Ireneu Barreto, que apadrinhou o seu doutoramento, Xanana Gusmão proferiu um discurso no qual começou por apresentar pêsames às famílias das vítimas dos “incêndios que tragicamente persistem em existir em Portugal”, manifestando-lhes a solidariedade do povo timorense. Já anteriormente, logo ao começar a sessão, tinha sido pedido pela UMa um minuto de silêncio à assistência pelas já confirmadas 32 vítimas dos incêndios mais recentes no nosso país.

Fotos: © ALFREDO RODRIGUES
Na sua intervenção, Xanana Gusmão agradeceu a “elevada distinção académica” que lhe foi outorgada, bem como as boas-vindas que recebeu na Madeira, ilha por cuja beleza se confessou “extasiado”. Disse ainda estar particularmente impressionado pela gentileza dos madeirenses. Confessou não ter a certeza de ser merecedor do doutoramento que lhe foi atribuído, e referiu-se a Timor-Leste falando do povo que “um dia sonhou ser livre da opressão, e que continua a sonhar com a liberdade”.
Isto porque, conforme admitiu, “quem vive em pobreza nunca chega a conhecer a verdadeira dimensão da liberdade”. Citando Camões sobre a sua terra, classificada de lugar onde o sol nasce das águas, socorreu-se de uma certa poesia no seu discurso, citando lendas sobre a criação da ilha, e recordando os primeiros habitantes que, há milhares de anos, se foram fixando naquela localidade. Tais migrações, referiu, contribuíram para a heterogeneidade das populações de Timor-Leste, a qual, lembrou, se fundiu com o espírito aventureiro dos navegadores europeus, designadamente portugueses, num encontro de culturas e civilizações.

“Assim se afirmou o destino de um povo e de um país”, salientou, unido pela lusofonia, que o aproxima também do Brasil e dos PALOPs.
O orador denunciou a opressão a que os timorenses estiveram sujeitos, “devido à cobiça” de países poderosos, e recordou que “mais de um terço da população timorense pagou com a vida o seu direito à liberdade”.
Agradeceu, na oportunidade, a solidariedade de Portugal, de vários países africanos de expressão portuguesa e também das comunidades portuguesas residentes no estrangeiro, que contam no seu seio milhares de madeirenses. Estes apoios à autodeterminação do seu país foram essenciais, considerou, prosseguindo para declarar que Timor tem de saber, hoje em dia, tirar partido do seu posicionamento no espaço político, económico e estratégico.
Referindo-se à economia timorense e ao desenvolvimento que para ela deseja, insistiu bastante na necessidade de desenvolvimento da actividade pesqueira, já que as águas de Timor-Leste, afirmou, estão hoje infestadas de pesca ilegal que muito prejudica aquele jovem país; por outro lado, mostrou-se um advogado insistente do desenvolvimento sustentável, até porque, como acontece na Madeira, espera ver desenvolver-se em Timor um turismo ligado à Natureza.
Referindo, por outro lado, que Timor tem procurado manter a paz e a estabilidade na região, com os seus vizinhos, Xanana Gusmão reconheceu: “Somos ainda frágeis e vulneráveis”, na medida em que se trata de um novo país e que emergiu que um cenário de total destruição. O processo de construção do Estado foi, reconheceu, particularmente difícil. Mas agradeceu aos países que estenderam a mão, nos momentos mais críticos.
A promoção de emprego e o crescimento da economia, realçou, são hoje cruciais para Timor-Leste, que se tem procurado afirmar junto de toda uma série de instituições internacionais, incluindo vários organismos das Nações Unidas.

Insistiu também no problema das alterações climáticas, que exige rápida atenção da comunidade internacional. As ditas alterações têm causado um notório aumento de catástrofes naturais e podem ser causadoras da subida do nível dos oceanos, uma questão que preocupa, e justificadamente, as nações marítimas. “Estamos a trabalhar com os países vizinhos para proteger a diversidade da vida marinha”, referiu. Por outro lado, destacou a importância que os recursos naturais podem vir a ter no impulsionamento do crescimento de Timor-Leste, mas sempre numa perspectiva de sustentabilidade.
Mencionou também o modo como o seu país ambiciona tornar-se um local que funcione internacionalmente como uma estação de controlo das baleias, que cruzam periodicamente as suas águas, contribuindo dessa forma para mais uma das preocupações ecológicas internacionais, e considerou “incompreensível que não haja uma resposta global mais eficaz às alterações climáticas e ao aumento da acidez dos oceanos”.

Num outro aspecto, referiu-se aos refugiados que hoje atravessam os mares do mundo, não só o Mediterrâneo, denunciando a forma como fogem de guerras causadas frequentemente pela “negligência e egoísmo” dos países mais industrializados e pelos interesses das multinacionais.
A comunidade internacional, sublinhou, deve reflectir sobre os milhões de pessoas que, num êxodo sem precedentes, atravessam o mar em busca de uma vida melhor, fugindo do horror dos conflitos armados.
Antes de falar Xanana Gusmão, Ireneu Barreto procedeu, como já dissemos, ao seu elogio, afirmando que o homenageado “simboliza e personifica valores universais e de cosmopolitismo, síntese invulgar numa só pessoa”, realçando o seu papel na luta pelos direitos humanos e pela liberdade, na transição política norteada pela paz e pela identidade do povo timorense; e na integração internacional.

Elogiou a atitude de Xanana, “conquistada a vitória”, expressa numa “imensa generosidade, visível na grandeza de saber perdoar, unindo todos numa só Pátria, e reconciliando-a com o opressor do passado”.
Recordando o percurso de resistente de Xanana, Ireneu Barreto recordou 1991, o ano em que o mundo assistiu ao massacre de Santa Cruz, “onde homens, mulheres e crianças indefesos, rezando em português, foram trespassados por balas assassinas, numa das maiores violações dos direitos humanos do final do século XX”.
“O massacre de Santa Cruz, paradoxalmente, colocou a então adormecida questão de Timor na agenda jurídico-política internacional, despertando as nossas consciências para a justiça da luta libertadora do povo maubere”, salientou, classificando Xanana Gusmão como “o Mandela asiático”, cuja libertação, em Setembro de 1999, foi “um momento aguardado e por todos interpretado no seu significado de terminus de uma inaceitável injustiça”.
Abordando a posterior criação de um Estado de Direito, falou da “salutar abertura de espaço democrático para uma nova geração de políticos timorenses, com novas energias e novos sonhos”.

“Actualmente, Xanana Gusmão serve Timor-Leste no âmbito internacional, como Pessoa Eminente do Conselho de Assessoria do g7+, sendo Chefe da Equipa de Negociações das fronteiras marítimas, nomeado pelo Governo de Timor-Leste”, lembrou.
“O nosso doutorando pode orgulhar-se do seu País, um Estado respeitado e admirado no concerto das Nações, um Estado de Paz e de progresso, generoso para com os seus amigos em momentos de dor, como Portugal e, em particular, esta Região podem testemunhar”.
Ao associar neste momento simbólico os dois arquipélagos, Timor e Madeira, tão distantes e ao mesmo tempo tão aproximados pela língua, a Universidade da Madeira dá o seu contributo histórico para a imortalização das ideias de liberdade e solidariedade em português, referiu.
Já Francisco Fernandes, presidente do Conselho Geral da UMa, saudou os alunos e as suas famílias na abertura do ano académico, e considerou este estabelecimento de ensino superior “um dos pilares do desenho autonómico” e para a “disseminação da sabedoria”. Considerou, por outro lado, que a UMa, “não obstante a sua expressão primeira – desde logo regional e nacional – não pode deixar de assumir a procura de horizontes de mais ampla escala, a busca de outras geografias, seja na atracção de alunos e de docentes estrangeiros de referência, ou na partilha de projectos comuns, seja também, como foi o caso, demonstrando estar aberta ao mundo, homenageando (…) o doutor Xanana Gusmão, personalidade de reconhecido mérito internacional (…)”.

Elogiou-o como “lutador pela liberdade” e homem de sensibilidade cultural, consubstanciada na palavra e na expressão artística como poeta.
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