A peste do clericalismo

  1. Há «uma peste na Igreja» que se chama «a peste do clericalismo», considerou o Papa Francisco. Esta peste manifesta-se das mais variadas formas. Por um lado, é o próprio clero que se vai considerando aureolado, com a ideia patética de que foram bafejados pela «eleição» divina para serem padres ou bispos, por isso, procuram viver como se estivessem acima da humanidade e que daí devem ser considerados como uns semideuses. Calha que as misérias quando aparecem vão denunciando como somos todos da mesma massa e que ninguém por mais que apregoe ou queira fazer crer, não está acima de nenhuma contingência humana, mesmo até que lhe tenha caído um dilúvio de água benta sobre a cabeça. Por outro, há uma porção enorme de leigos ou fiéis que aderem a ideias completamente loucas e dessincronizadas da mentalidade do nosso tempo. Deixam-se levar por um saudosismo da missa em latim e do padre de costas voltadas para assembleia todo ricamente ornamentado com vestes delicadas e caras.
  2. Dizem alguns que este ambiente saltou para a ribalta, como manifestação contra o Papa Francisco, que está a ser conotado como um Papa «progressista». Porém, antes de se ver assim, gostava mais que se visse Francisco como um Papa que procura recentrar a Igreja na verdadeira fonte, o Evangelho e o desprendimento do seu Mestre, Jesus de Nazaré. Deste Papa ficará bem vincada a ideia de que pretendeu pintar a Igreja com as cores do Evangelho e menos com a tradição do clericalismo que tantas vezes a faz ser vista como conservadora, anacrónica e fora da mentalidade do tempo concreto que passa.
  3. Estas manifestações de clericalismo, obviamente, que vêm daqueles que sempre viveram com a ideia do endeusamento Papal e que o clero era o «escolhido» para mandar e viver nas maiores e melhores mordomias, mesmo que o povo estivesse mergulhado na pobreza e na miséria. O Papa Francisco veio fazer despertar toda a Igreja para aquilo que é essencial, começando por apresentar-se eles mesmo não como um deus, mas como homem que precisa de oração e que é um pecador como os outros. Daí os seus apelos constantes para que rezem por ele. Afirma sem medo que os bispos e padres são uns entre pares, que devem assumir estar ao lado do povo e que não devem procurar distinções nem muito menos mordomias. O clero em geral não gosta e sente-se beliscado naquela ideia tão florida que os considera eleitos e diferentes do comum dos mortais.
  4. Aqui encontra razão de ser o título provocador de Frei Bento Domingues, no Público de 17 setembro de 2017, que suscitou imensas partilhas nas redes sociais: «Este Papa é uma decepção!». A par disto até o próprio Papa Francisco lembrou de forma veemente quanto mal pode provocar o clericalismo. O seu apelo é bem claro: «Por favor, não cedais ao mal do clericalismo, que afasta as pessoas e, especialmente, os jovens da Igreja, como outras vezes pude recordar».
  5. O clericalismo emerge e forte contra o Papa Francisco, mas, que no fundo é contra o Evangelho e contra Cristo. A raiz dessa desilusão vem em primeiro lugar dos cardeais arrependidos por terem votado nele de quem esperavam que fosse por pouco tempo a sua estadia no Vaticano, que não mexesse na Cúria, pejada de corruptos, pedófilos e outros vícios que mancham toda a Igreja. Que fosse um apagado, um «Papa de transição», para que as mordomias e os vícios continuassem à sombra dos privilégios. Tudo isso vai acabando, para Francisco, a Igreja é o lugar de/para todos, a igualdade é um valor, a inclusão uma luz, a dignificação humana como ideia forte da vida fraterna… Todos são chamados a participar nesta luz de amor universal que Francisco faz brilhar.
  6. Mais um pouco para percebermos de onde vem o clericalismo. Emerge forte e feio contra o papa Francisco, dos bispos de «carreira», esses que vivem longe do povo, instalados em palácios episcopais, alheios à vida das suas ovelhas, que buscam prestígio e a glória do mundo. Francisco convida-os a descerem à cidade, ao mundo e verem como estão e como vivem as suas ovelhas, a serem «pastores com cheiro a ovelhas».
  7. O clericalismo emerge forte e feio contra o papa Francisco, de muitos padres, criados e formados para cumprirem os ritos, imporem as regras, quais fardos pesados para outros, serem doutrinadores e burocratas… Francisco, convida-os a rasgarem horizontes, a construir pontes e a procurar o diálogo com todos, porque lhes rebenta com a ideia de que eram os mais «distintos» e os «eleitos». Francisco veio fazer com que se baixem e que se coloquem ao serviço de todos, particularmente, os pobres, os excluídos, os últimos.
  8. O clericalismo emerge forte e feio contra o papa Francisco, porque vem também tristemente de uma camada enorme de leigos e pretendem viver a sua fé com base em anacronismos patéticos. Agora são chamados à missão sem pretensiosismo nem muito menos com superioridades ridículas. São estes que estavam habituados aos paparicos eclesiásticos, para daí se mostrarem importantes diante dos outros e conseguirem os seus interesses meramente pessoais, estão a ver que Francisco, aponta-lhes o caminho da conversão e a lógica do Evangelho como fonte para a sua missão na Igreja e no mundo.
  9. Acabou esta lógica de uma Igreja fechada, narcísica, pacífica com a injustiça, a pobreza e a exclusão, dura com os ritos e os preceitos. É Francisco que nos desperta, é ele que nos mostra como se faz e é ele que nos fala: «Por trás da rigidez há algo escondido na vida de uma pessoa. A rigidez não é um dom de Deus. A mansidão, sim; a bondade, sim; a benevolência, sim; o perdão, sim. Mas a rigidez não! Por trás da rigidez há sempre algo escondido, em tantos casos uma vida dupla; mas há também algo de doentio. Quanto sofrem os rígidos: quando são sinceros e se percebem isso, sofrem! Porque não conseguem ter a liberdade dos filhos de Deus; não sabem como se caminha na Lei do Senhor e não são beatos. E sofrem tanto! Parecem bons, porque seguem a Lei; mas por trás tem alguma coisa que não os torna bons: ou são maus, hipócritas ou são doentes. Sofrem!».
  10. Melhor será que a vida toda da Igreja seja para todas as horas viveiro da felicidade, para que o mundo se torne, por sua vez, mais habitável e que todos procurem o seu lugar vivendo sempre numa fidelidade ao seu interior, o lugar da alma, e menos às formas exteriores. Que a exterioridade não se torne o ditador que horizonta o pensamento e as opções das pessoas, mesmo que sejam as mais seriamente religiosas. A «peste do clericalismo» é para combater.