Enfermeiros vestem de negro e gritam bem alto o seu descontentamento à porta do Hospital Dr. Nélio Mendonça

A luta dos enfermeiros especialistas, que motiva um protesto a nível nacional, teve hoje também eco na Madeira, com cerca de uns duzentos, ou mais, enfermeiros a marcarem presença junto à entrada do hospital Dr. Nélio Mendonça, numa manifestação pacífica mas devidamente acompanhada pela PSP. Habitualmente vestidos de branco, estes profissionais de saúde, e alguns seus filhos e outros familiares, envergaram hoje roupa preta para tornar bem evidente o seu descontentamento, o qual ficou também expresso nos assobios, gritos de protesto e palavras de ordem que não se coibiram de tornar bem audíveis na entrada de um estabelecimento onde, habitualmente, esse tipo de ruído não é tolerado.

Márcia Ornelas, porta-voz e representante na Madeira do movimento nacional dos enfermeiros especialistas de saúde materna e obstétrica, mostrava-se há pouco satisfeita com o grau de adesão à greve e à manifestação.

Salientou, na oportunidade, que o protesto se estendia a todos os enfermeiros, não apenas os especialistas mas também os generalistas. “Esta manifestação surgiu do descontentamento de todos os enfermeiros com a sua carreira. Somos a classe excluída do Serviço Nacional de Saúde. As últimas declarações do Sr. Ministro da Saúde não foram muito simpáticas para connosco”, constatou. “Qualquer procedimento que os enfermeiros tenham, ele recorre sempre aos termos “ilegalidade” e “imoralidade”; o nosso protesto era ilegal, a greve também já é ilegal… Isto parece-me que é mesmo contra a classe de enfermagem”.

Confrontada com a possibilidade de a greve ser mesmo ilegal, por não entrega do pré-aviso com a devida antecedência, Márcia Ornelas referiu que a comunicação desta greve foi apresentada às chefias do SESARAM, daí achar que “está tudo legal”, porque senão, seriam informados do contrário, o que não aconteceu.

Referindo que inicialmente este protesto surgiu relacionado especificamente com a área dos enfermeiros especialistas, a porta-voz referiu que agora estende-se “a toda a enfermagem”, que considera merecedora de “dignificação”.

“Estamos a pedir uma carreira digna, com condições laborais e salariais dignas e o respeito da população e das entidades governamentais”, sublinhou.

A situação acabou por chegar a isto, considerou, devido a uma “exaustão” e um nunca acabar de situações abusivas que foram cansando, ao longo de anos, a classe. Falando de “falta de respeito e consideração”, salientou que os enfermeiros são, de entre os licenciados, aqueles que “não ganham enquanto tal”, sendo que os especialistas têm ainda mais dois anos de formação que não se traduzem na progressão na carreira que seria expectável.

“Acho que esta representatividade é enorme. Estou muito contente e orgulhosa”, declarou. A totalidade dos enfermeiros especialistas cifra-se na Região em cerca de 400. “A adesão à greve está acima dos 80 por cento, e em muitos serviços, mesmo acima dos 100%”, disse-nos a nossa interlocutora, considerando que isso deixa bem expresso o “descontentamento dos enfermeiros”, que se deverá manter até sexta-feira no protesto agendado.

“Tenho aqui enfermeiros que nunca fizeram greve, e neste momento estão a fazer. Isso, acho eu, é significativo”, concluiu.

As questões que afligem os enfermeiros, declarou, são as mesmas no continente e ilhas.