Príncipe do Mónaco exorta a desenvolvimento sustentado na Madeira, ao inaugurar praça com o nome do seu bisavô

Fotos: Alfredo Rodrigues

O príncipe Alberto do Mónaco foi a personalidade que justificou a presença, hoje no Funchal, das mais altas individualidades da Região e de algumas entidades de destaque a nível nacional, entre elas o secretário de Estado da Defesa Nacional, Marques Perestrelo, e o chefe de Estado Maior da Armada e Autoridade Marítima Nacional, almirante Silva Ribeiro. O soberano do principado monegasco esteve presente na rotunda do Lido, que a partir de agora passa a ostentar o nome do seu bisavô, Alberto I, em homenagem a um patrono da investigação oceanográfica e que realizou várias visitas à Madeira e aos Açores, conduzindo também pesquisas nas águas da Macaronésia.

Na cerimónia, o actual príncipe Alberto de Mónaco deu conta da sua “grande alegria” por estar a celebrar a memória do seu ilustre antepassado na Madeira, e mostrou-se sensibilizado pelo “caloroso acolhimento” e pela atitude da autarquia funchalense ao evocar deste modo elogioso o seu bisavô.

“O príncipe Alberto I apaixonou-se de imediato pela vossa região, sobretudo em 1879, durante um cruzeiro de descoberta no seu iate, o Hirondelle. Mas, sobretudo, a vossa ilha teve uma influência decisiva sobre o decurso da sua vida”, declarou, citando Alberto I: “Se a visão da Madeira me comove tanto, é porque foi aí que o meu destino se decidiu definitivamente“, escreveu ele no seu jornal, quase vinte anos depois, em 1897, disse.

De facto, recordou, foi aquando da sua primeira visita que Alberto I conheceu a duquesa de Richelieu, que se encontrava então de férias na ilha, com quem viria a casar mais tarde: tornar-se-ia a princesa Alice.

“Foi para vê-la que o meu bisavô regressou à Madeira nos invernos de 1888 e de 1889. Ele aproveitou para realizar excursões, observações científicas e experimentações de materiais oceanográficos”, recordou Alberto II.

Abordando o percurso do “príncipe sábio” (le prince savant), o actual soberano de Mónaco lembrou a forma como o seu bisavô resolveu consagrar a sua vida à ciência, particularmente a das regiões marinhas. Já não era, disse, apenas o aristocrata europeu que vinha à Madeira em busca da suavidade do seu clima. Moviam-no interesses maiores, de exploração.

Alberto I, evocou, “regressa ao vosso arquipélago para seis campanhas oceanográficas, que se realizam todas em águas da Madeira, em 1897, 1901, 1904, 1905, 1911 e 1912”. Foi então ocasião de estabelecer elos com a sociedade local, incluindo a comunidade científica, e de desenvolver uma “autêntica paixão” pelas ilhas Desertas, onde realizaria excursões de caça que mais tarde formariam um capítulo da sua obra autobiográfica.

O príncipe Alberto II mostrou-se antecipadamente feliz por descobrir a exposição que o Arquivo do Palácio preparou com o Instituto Oceanográfico do Mónaco e com o Museu de História Natural do Funchal. Uma mostra que inaugurou logo depois da cerimónia na rotunda da zona do Lido.

Abordou de seguida a vocação científica que resolveu prosseguir: “Seguindo o exemplo do príncipe Alberto I, decidi, há alguns meses atrás, com a participação do meu Governo, do Instituto Oceanográfico, Fundação do Príncipe Alberto I, do Centro Científico do Mónaco, e da minha própria fundação, dedicada à protecção do meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável, dar continuidade à tradição das expedições científicas do Mónaco. Estas novas explorações, que têm por objecto a pesquisa e o esclarecimento do público, têm precisamente, agora mesmo, como primeiro destino, a Macaronésia, a bordo do navio científico Yersin. A cadeia do tempo é assim restaurada”.

“Esta tarde no Funchal, amanhã no Monte, depois nas ilhas Desertas, irei seguir as pisadas do meu ilustre antepassado. Mas espero sobretudo, modestamente, dar vida à sua obra, actualizando-a e adaptando-a aos grandes desafios ambientais que devemos agora enfrentar para bem das gerações futuras: a protecção do nosso planeta por meio da luta contra a mudança climática, a preservação da biodiversidade e da água”, referiu.

O soberano referiu ainda que “a preservação do vosso meio ambiente, que é um laboratório para estes três desafios do nosso tempo, deve, evidentemente, conjugar-se com um desenvolvimento turístico razoável, imprescindível para o desenvolvimento económico. Possamos nós, munidos com os ensinamentos dos que nos precederam, e à luz das pesquisas e das observações que as nossas equipas científicas conjuntas poderão realizar, transmitir esta mensagem àqueles que vierem depois de nós”, desejou.

Concluiu as suas palavras endereçando “um pensamento comovido às vítimas do acidente do passado dia 15 de Agosto” durante uma festa religiosa no Monte e salientou a “diversidade tão rica” do arquipélago da Madeira, relembrando a primeira impressão, quase idílica, do seu antepassado, Alberto I, que, apenas alguns dias passados sobre a sua primeira visita, dizia já ser capaz de cá permanecer durante semanas. “Toda a ilha é na verdade um imenso parque” dizia Alberto I em 1879.

Por seu turno, o representante da República, Ireneu Barreto, declarou que o acto que trouxe o príncipe de Mónaco ao Funchal é merecedor de “alegria”, porque motivado pelas expedições científicas: conforme salientou, “a História e a Ciência sempre evoluíram pelo génio de alguns homens de excepção – pioneiros, exploradores e sonhadores – que quiseram e tiveram a coragem de ir mais longe, no conhecimento dos elementos que nos rodeiam”.

“É hoje claro que as expedições do príncipe Alberto I foram um decisivo passo no labor científico de conhecimento do mar e dos seus mistérios”, realçou. “Ao criar a oceanografia moderna e ao desvendar segredos do mar, os trinta anos de explorações mostraram um novo mundo, que importa conhecer, proteger e preservar para as gerações futuras”, exortou. “Mas quantos bancos Princesa Alice, quantas fossas Hirondelle, quantas mais formações submarinas continuam à espera de serem conhecidas?”, interrogou-se. Ireneu Barreto salientou o empenho do actual príncipe em seguir as pisadas do seu antepassado e terminou: “(…) somos uma comunidade que se esforça por preservar o único património mundial natural sob a égide da UNESCO em Portugal, a floresta laurissilva, e por salvar da extinção algumas espécies da nossa fauna, como o lobo-marinho, as freiras da Madeira e do Bugio e a Cagarra”.

O secretário de Estado da Defesa, Marcos Perestrelo, realçou as boas relações entre Portugal e o principado de Mónaco e deu ênfase ao facto de naquele país existir uma notável comunidade portuguesa. Referiu-se também ao interesse pela oceanografia e à necessidade de preservação dos mares, como sendo uma responsabilidade acrescida para “regiões marítimas” como o são ambas as nações, portuguesa e monesgasca.

Já o presidente da Câmara Municipal do Funchal, Paulo Cafôfo, sublinhou com orgulho o facto de a Madeira e o Funchal, em particular, terem ao longo da sua história atraído cientistas e visitantes ilustres que aqui passaram temporadas mais ou menos longas, e que acabaram invariavelmente por ficar rendidos aos encantos desta ínsula no meio do Atlântico. Alberto I, frisou, foi um deles. Destacou as investigações realizadas pelo bisavô do príncipe de Mónaco e salientou que foi no Funchal que o mesmo encontrou a sua paixão para além da oceanografia, ou seja, aquela que viria a tornar-se a princesa Alice.

Declarou ainda que o contributo do príncipe Alberto I para o melhor conhecimento das nossas águas e da fauna que a habita incentivou o despertar de interesse dos madeirenses pelo mar, em termos de exploração científica e conservação, o que em seu entender justifica plenamente a homenagem feita ao dar o nome de Alberto I à praça no Lido. Abordou também as valências científicas da CMF, entre as quais a Estação de Biologia Marinha, situada nas proximidades.

Um aspecto focado também pelo presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, que começou por falar francês, para agradecer ao príncipe de Mónaco a sua contribuição para os actuais estudos oceanográficos; passando para o Português, deu os parabéns à autarquia funchalense por esta iniciativa, e elogiou-a por continuar a ser uma das poucas Câmaras Municipais do país com um Departamento de Ciência, presidido por Manuel Biscoito; para este cientista, pediu, aliás, uma salva de palmas dos presentes. Este Departamento, considerou, “tem ajudado a projectar a Madeira no mundo”.

Tranquada Gomes, presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, foi também elogioso no papel do principado de Mónaco no seu papel de alerta para a necessidade de salvaguardar o nosso futuro colectivo através da conservação da natureza, trabalho que poderá ser prejudicado, considerou, “se não houver uma adequada gestão dos nossos recursos marítimos”.

O amor pelo mar une os ilhéus, considerou, sendo uma mais-valia para a prossecução de actividades ecológicas e conservacionistas. Tranquada Gomes não se esqueceu de lembrar o que une o principado do Mónaco e Portugal: para além da comunidade portuguesa, lembrou que o treinador do clube do coração do actual príncipe, o Mónaco, é o madeirense Leonardo Jardim, “um filho desta terra” que tem trazido “muitas alegrias” ao soberano.

Alberto do Mónaco chegou hoje ao Funchal ao princípio da tarde no seu avião Falcon de última geração; dirigiu-se de imediato para a rotunda do Lido, para inaugurar a praça que passa a ter o nome do seu bisavô. Ali descerrou uma placa de homenagem, concebida pela escultora madeirense Manuela Aranha, e assinou o livro de honra do Município do Funchal. Rodeado de uma autêntica “entourage” de jornalistas, fotógrafos e segurança pessoal, além das entidades oficiais e convidados, foi todavia pouco o público madeirense que compareceu na ocasião, motivado pela oportunidade de “deitar o olho” a uma das personalidades cuja imagem e actividades são das mais cobiçadas e relatadas pela imprensa cor-de-rosa.