“O principal problema é não saberem o que é a democracia, se for eleita vou mostrar isso”

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“Temos uma democracia podre nesta terra, mas se eu fosse eleita ia demonstrar como se faz. Há gente que tem medo de tudo, mas eu nunca tive medo de nada, sou mulher mas ainda nenhum me engoliu viva”. Foto Rui Marote

Maria Ganança não vira a cara à luta. Aceitou mais este desafio de ser candidata pelo Bloco de Esquerda à Câmara da Ponta do Sol, um desafio dos muitos que teve na sua vida, uma longa vida de envolvência político-partidária e sindical. Diz que “não anda à procura de tachos”, nunca andou, reforça. “Se fosse por isso tinha saído há quarenta anos, não era agora”. Agora, num tempo novo e com mais anos em cima, o que acontece é que o cansaço do que vê, do que sempre viu no fundo, é diferente porque os níveis de tolerância já são outros. Está farta de ouvir queixas de gente que vota nos outros e no dia seguinte às eleições bate-lhe à porta com problemas. “Isto aqui não é posto de polícia, a polícia é lá em baixo”, reage com alguma ironia, para não dizer muita, mas com a convicção de sentir a razão do seu lado.

Eleger um vereador dá “outro poder de intervenção”

Sentada numa cadeira, num espaço da sua casa onde se sente o peso dos anos em cada canto e uma tradição em cada objeto, Maria Ganança revolta-se na proporção da sua simplicidade, a mesma que os madeirenses conhecem, a mesma que as sociedades precisam para se completarem numa parte de desapego que vai faltando com o decorrer dos anos e com o passar ao lado dos valores.

Passa à parte prática do mundo, o mundo eleitoral que a leva à luta por um lugar na Câmara da Ponta do Sol, eleger um vereador seria uma vitória. E daria legitimidade para “levar os problemas das pessoas com outra força e outro poder de intervenção”.

Concelho precisa de se desenvolver todo

A candidata vai direta ao assunto e diz que o objetivo “é eleger um vereador para defender o povo. Até agora, pelo menos aqui, na parte da Lombada, toda a gente diz que a Câmara não fez nada. E até o que tinha foi tirado, como escolas por exemplo. O concelho precisa de se desenvolver todo, não é só a vila. É verdade que a vila está mais ou menos, a zona dos Canhas está desenvolvida, mas o resto andou pouco. E gasta-se o dinheiro pela ribeira dentro sem necessidade, depois diz-se que não há dinheiro para resolver os problemas das pessoas. Veja o caso de uma estrada que temos aqui e que está em terra há anos, não temos acesso para a serra em condições, só um jipe é que vai lá, quem não tem não pode ir ver nem o que é seu”.

Veem a minha fotografia e pensam que estou eleita

Maria Ganança diz que “se o Bloco de Esquerda tivesse um vereador, as pessoas ficavam mais bem servidas. Mas tem algumas observações a fazer relativamente ao eleitorado, por vezes pouco esclarecido e com receio. “A mim, vêm dizer que está mal, mas eles pensam que eu estou lá, mas não estou. Eles veem sair a minha fotografia quando é as eleições e pensam que eu já estou eleita na Câmara. Depois, votam hoje e amanhã já estão aqui a pedir contas. Eu digo para pedirem contas a quem deram o voto”.

Diz que no concelho da Ponta do Sol toda a gente a conhece como “uma lutadora, há anos”. Por isso, manda a responsabilidade para o eleitorado, que tem na mão a possibilidade de mudança: “Está na mão deles, façam o que entenderem”. Pede frontalmente o voto, é isso que vai fazer nos contactos que irá manter na campanha, é isso que já faz nas conversas diárias com as pessoas, quase todas conhecidas.

Temos uma democracia podre nesta terra”

Se for eleita, que problemas leva para a Câmara? Uma questão que ganha proporções pela resposta que só os anos de vida e a vida que levou podiam dar: “O principal problema é não saberem o que é a democracia. Se for eleita, vou mostrar isso. Eles falam em democracia, mas fazem falcatruas até aos da sua cor política. Temos uma democracia podre nesta terra, mas se eu fosse eleita ia demonstrar como se faz. Há gente que tem medo de tudo, mas eu nunca tive medo de nada, sou mulher mas ainda nenhum me engoliu viva”.

Agacham-se para o tacho, para terem um padrinho”

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“A mim, vêm dizer que está mal, mas eles pensam que eu estou lá, mas não estou. Foto Rui Marote

Maria Ganança critica algumas posturas que coloca num patamar de servilismo, de subalternização, que a política, diz, pode proporcionar. Rebusca a expressão popular que todos sabem como começa, com “quem muito se agacha…” e conhecem como acaba (…) para fazer aquilo que considera ser um “retrato cada vez mais visto”. Vinca que não é preciso as pessoas se “agacharem”, mas também diz que “é isso que as pessoas fazem até mais não poderem, para terem um tacho, para terem um padrinho, às vezes um padrinho que deita mais para o fundo. Mas mesmo assim querem ter um padrinho, não querem ir noutras listas, dizem que não podem”.

Fui aos Canhas mas parece que estavam no gozo. Vão gozar com outra”

É por estas e por outras que o Bloco sentiu algumas dificuldades na elaboração das listas pelo concelho. Concorre pela Ponta do Sol, mas nos Canhas e na Madalena não. “Também já estou cansada de lutar, ainda fui aos Canhas mas parece que estavam a gozar com isto. Vão gozar com outra, não estou para aquilo, as pessoas que façam como quiserem”.

A propósito de democracia, não obstante as alterações políticas operadas na Região, nos últimos anos, Maria Ganança considera que “nada mudou, está tudo na mesma”. Lembra “as exigências que alguns partidos com tradição de poder fazem para ir este ou aquele nas listas”. E depois, mesmo os que votaram neles para chegarem ao poder, lutam como loucos entre si Isto é democracia? Comigo, já sei que sou maltratada, mas eles fazem isso com os do próprio partido”.

Devem tirar os tapumes da Marina

De Rui Marques, o atual presidente, afirma ser “uma pessoa que respeita toda a gente”, mas aponta-lhe um problema: “Diz uma coisa pela frente mas depois há outros que não fazem nada do que ele manda”. Do concelho em si, tem uma crítica a fazer: devem tirar os tapumes da Marina. E isto, como refere, é muito simples: “Que os que fizeram a Marina tenham vergonha, eu entendo, mas o povo da Ponta do Sol não deve ter vergonha, quer é ver o mar. Já se sabia que aquilo não dava para uma Marina e mesmo assim gastaram dinheiro, uma e duas vezes. Mas pode estar aberta ao povo, para zona de lazer. Gastaram o dinheiro e já agora aproveitem alguma coisa”.