Papá, compra-me um ferry! A mamã paga a conta…

Ilustração de José Alves.

Era uma vez uma família que vivia numa terra catita mas pequena e pobre, embora com o devaneio de ser rica. Se em mercado era meia légua, em sonho extravasava a dimensão do globo. Habituada a viver pendurada no orçamento, especializou-se em sonhar, pedir e mandar pôr na conta do orçamento. Foi além do poema de Pessoa, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Aqui, os filhos (ou deuses) querem, a mãe-orçamento paga e a obra nasce e só depois se pensa nessas coisas de somenos importância que são os números ou a equação custo-benefício. Tretas de empresários cinzentos ou corruptos, quando as madrinhas Europa e República até condescendem na viabilização do sonho.

Essas banalidades do mercado, que dita a viabilidade ou não dos negócios, é só para ficar nas sebentas de economia, nos bancos da faculdade. Nesta terra, querer é poder, acima de qualquer doutrina económica. E tantas vezes, os filhos, puxando o calção do papá, useiros e vezeiros em ter, insistem com solicitude no sonho  sonhado, sob pena de fazerem birra: “Papá, compra-me um ferry!… A mamã paga a conta!” E o pai, refém das palavras para contentar e calar os filhos, ávido de continuar ao leme, lá vai queimando os neurónios a ver como viabiliza o sonho sonhado dos filhos. No rosto, o sorriso de que o barquito de papel vem aí, na cabeça, a certeza de que “nem ferry, nem Ferrari…”

A sabedoria popular da terra ensina que, quem não educa como deve ser, depois tem de cuidar das feridas. Com ou sem cobertura bancária, com ou sem mercado que justifique, o ferry vem a caminho e já se vislumbra a rasgar a linha do horizonte, claro está, pendurado num orçamento que sai do bolso de cada um dos filhos especialistas não em fazer contas mas em sonhar, o que já é muito. Afinal, visionários, precisam-se e assim o mundo pulula e avança, como na canção. Pudera! Ninguém os pode levar a mal. Nasceram e cresceram na megalomania de uma terra que tudo pode. Se há dinheiro para a bola, para os compadres, para os ajustes diretos, para a banda de música da esquina que toca “é o PSD que põe a Madeira em marcha”, não haveria de faltar para o barquinho que rasga os limites físicos da terra e liga o madeirense ao mundo?

O Estepilha, que sabe que estes filhos modernos é que mandam lá em casa, já está a ver o pai a cortar a fita inaugural da casquinha de noz. Por isso, já fez a mochila e prepara-se para viajar, em classe económica, uma noite sentado numa cadeira à espera de chegar a Portimão. Sim, porque os camarotes são para os filhos da megalomania, os descendentes do magnânimo D, João V. Seja quem for que fique com o negócio, santo ou corrupto, alinhado ou desalinhado, o que importa é fazer a vontade aos filhos que mandam. O resto, o resto vai por conta da dívida, essa coisa pequena e insignificante que um certo Primeiro Ministro português disse, um dia, que pagar é coisa infantil. E alegres e contentes, este mar salgado que nos define já nos liga ao retângulo. Venha o ferry e voltemos a Pessoa: “Tudo vale a pena/se a alma não é pequena”. Quem vier a seguir, que pague a conta, até porque, o sonho que se segue é comprar o Palácio de São Lourenço, que é meu, teu e nosso.