“A política está a precisar de pessoas como eu”, diz o candidato do PSD no Porto Moniz que reconhece o trabalho social que tem sido feito

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“O eleitorado está dividido. E tanto tira votos ao PS como tira ao PSD. Estou apenas focado no meu projeto”, afirma Rui Nelson, candidato do PSD à Câmara Municipal do Porto Moniz. Foto Rui Marote

O PSD tem uma missão difícil no Porto Moniz, onde há quatro anos sofreu uma derrota para Emanuel Câmara, do PS, depois de “anos a fio” a ganhar a confiança do eleitorado e a ter sucessivas maiorias. Foi a primeira derrota social democrata para a Câmara Municipal. O desafio afigura-se com alguma complexidade, se atendermos a que o candidato que é presidente tem mais vantagens, o que se observa cada vez mais independentemente do partido ou movimento pelo qual se candidata. Além de que as estatísticas apontam para uma maior facilidade das reeleições.

Seixal com inspiração

Rui Nelson, técnico de arquitetura e engenharia, com ação na orientação e fiscalização de obras, é o homem a quem está entregue essa tarefa de reconquistar a Câmara. Não é por falta de inspiração, que o seu local de trabalho lhe transmite de sobra, com uma paisagem soberba pela frente, que não vai atingir os seus objetivos. Tem o Porto Moniz todo sobre a mesa, uma imagem onde sabe de cor os pontos, os fortes e os fracos, de um concelho onde vai apelar ao voto. Na mesa, o mapa, pela janela o paraíso ali mesmo ao pé. O Seixal tem destas coisas. E enquanto candidato tem um lema: “Porto Moniz feliz”. Diz que o social está em primeiro, mas depois é “tratar da felicidade das pessoas porque perdemos o espírito comunitário”.

Desertificação é o grande problema

O candidato já identificou o grande problema do concelho: a desertificação. E também já sabe por onde vai começar para combater essa realidade: a natureza. Assim, dito quase parecendo sem pensar, até parece fácil. Sabe que não, mas tem ideias muito concretas para o futuro. Mas antes de todas as avaliações, como refere, “foi preciso unir o partido, a nível local. Conseguimos isso e, a partir daí, fomos para a estratégia que queremos para o concelho”.

O trabalho social no Porto Moniz “está bem feito”

Faz justiça ao trabalho desenvolvido pela atual gestão camarária gerida por Emanuel Câmara. Reconhece as virtudes “do trabalho social que tem sido feito”, admite que “está bem feito” e, partindo desta avaliação, diz que, neste domínio, promete “dar continuidade a essas medidas” se for eleito presidente da Câmara, como espera, a 1 de outubro. “Não se pode negar a evidência de um bom trabalho, não podemos dizer à população que está mal feito quando está bem feito. O que vamos dizer é que pretendemos dar continuidade, aperfeiçoando se for possível”.

Sabe que o seu forte é a natureza, é um homem de montanha, de veredas, de passeios a pé. Sabe muito disso e quer tirar partido da mais valia para compensar eventuais pontos fracos. Começa a discorrer sobre os terrenos do concelho para dizer que “estão cheios de mato, substituídos por canas vieiras, principalmente nos Lamaceiros e Santa. Temos ali um barril de pólvora, em caso de incêndio é mesmo um grande problema. Por isso é que é importante voltar à agricultura, embora não seja fácil. Só com palavras não vai lá”.

Reinventar a agricultura com produção biológica

Rui Nelson quer “reinventar a agricultura”, apostando nos produtos biológicos, cujo método de produção é particamente idêntico ao tradicional, mas a receita é quatro vezes mais. “Há uma senhora no Santo, que fez essa opção e está muito satisfeita com os resultados. Mas é claro que este é um caso e a verdade é que nunca conseguimos passar na ilha a mensagem da evolução para a agricultura biológica, talvez por uma questão cultural, não sei. Mas futuramente, temos que tentar ir por esse caminho”.

O candidato do PSD diz ter um projeto para “uma estação zootécnica do Porto Moniz, ligada ao vale da Ribeira da Janela, que juntamente com a Escola Agrícola de São Vicente, possa funcionar como um veículo de promoção deste reinventar da agricultura. A partir daí, a estação terá uma produção inovadora, das tais vacas “limousin”, juntamente com o adubo que pode ser fornecido para uso nos terrenos. Tudo isto tendo um ponto estratégico de visualização do trabalho, que é a Feira do Porto Moniz”.

Madeira com 4 mil pessoas por dia a fazer pedestrianismo

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Depois do social, quer a felicidade às pessoas dando corpo ao seu lema “Porto Moniz feliz”. Promete uma campanha de “amor e paz” sem atacar outros candidatos. Foto Rui Marote

Um homem da natureza tem números muito presentes naquela que é a estratégia que gostaria de ver implementada no concelho. Diz que “a Madeira tem, por dia, cerca de 4 mil pessoas a fazer pedestrianismo, aproximadamente 300 no concelho do Porto Moniz. Isto está identificado e a atividade mais praticada na Região é o passeio a pé”.

Defende uma descentralização do turismo, diz que, por exemplo, quem vai para o Rabaçal regressa no mesmo percurso e “devemos encontrar alternativa. A agricultura tem que ser o motor do Turismo do concelho, com autenticidade, preservando os poios e dando produtos locais que são importantes e determinantes para a valorização da gastronomia”. Tem a certeza que que o turista autêntico quer turismo autêntico, não quer que se faça coisas para eles, mas sim quer “encontrar coisas feitas e bem integradas, dando autenticidade ao local”.

Fomentar alojamento local através das casas vazias

É neste sentido do autêntico que surge uma outra ideia que pretende colocar em prática: “Por exemplo, há mais casas vazias (180) do que pessoas (120) a morar nas Achadas da Cruz. E temos que apostar numa mudança, através do alojamento local, em que as casas vazias do concelho funcionem como “eco resort”.

É aqui, que Rui Nelson tem uma confissão a fazer neste binómio serra-mar que o Porto Moniz oferece: “Estive vinte anos no Clube Naval do Seixal e demorei esse tempo a perceber que em primeiro lugar temos que apostar na montanha e o mar é um complemento. Demorei mas cheguei a essa conclusão. Temos a zona de mar desenvolvida, mas as condições climatéricas nem sempre permitem atividade, enquanto a montanha até com chuva podemos fazer, dado que a temperatura é amena todo o ano”.

Porto Moniz paraíso das energias limpas

Fala, numa outra vertente, da parte energética para afirmar, sem reservas, que “o Porto Moniz é o paraíso das energias limpas da Madeira. As levadas que saem do Porto Moniz fornecem água a quatro centrais hidroelétricas, na Ribeira da Janela, Serra D’Água e Calheta com duas. Isto é muito bom para a sustentabilidade. Em energia hídrica, temos muita água e também temos muito potencial em energia das ondas. Queremos apostar na investigação, trazer massa crítica e criar um núcleo científico”.

Rui Nelson empolga-se com as questões da natureza, é uma coisa que se vê facilmente. Sabe que para o desenvolvimento do concelho a componente técnica e do conhecimento é importante e diz estar preparado para contribuir para o “salto” que a esse nível considera faltar ao Porto Moniz. Só que o candidato tem que fazer política. Estará preparado para essa realidade de quem se coloca no conjunto de escolhas para a presidência da Câmara em que, por vezes, é preciso “descer da natureza” para os gabinetes?

Se fosse para desistir não conseguia

Entende o objetivo da pergunta e responde sem hesitar: “No início estava assustado. E questionava-me sobre o facto de ter sido sempre uma pessoa da natureza e agora me meter agora na política. Só que cheguei rapidamente à conclusão que a política está a precisar de pessoas como eu. Estou com uma vontade enorme de trabalhar e se fosse para desistir já não conseguia. Vejo aqui um potencial.

Estamos a precisar de “ecopolíticos”, com amor à sua terra, à Madeira e com a visão global do Planeta. Hoje, com as tecnologias de informação, sabemos o que está acontecer em qualquer parte do mundo. E algumas das coisas boas que se fazem lá fora, podem ser aplicadas aqui. Veja lá que o ano de 2017 é o ano internacional da sustentabilidade virada para o turismo e ainda não vi uma única autarquia a utilizar essa situação para promover as suas terras”.

Madeira jardim dos europeus

E Rui Nelson lança um “aviso à navegação” para a promoção turística, não só do Porto Moniz, mas na globalidade do destino: “A Madeira tem que ser vendida como o jardim dos europeus. Temos flores o ano todo. E os madeirenses têm que viver num jardim”.

Já em final de entrevista, falando de eleições, que é no fundo do que se trata, Rui Nelson é confrontado com a existência de uma candidatura, de Gabriel Farinha, que pode conquistar votos no espaço social democrata, uma vez que, recorde-se, Farinha já foi presidente da Câmara do Porto Moniz eleito pelo PSD. Diz que já fez contas e chegou à conclusão que “o eleitorado está dividido. E tanto tira votos ao PS como tira ao PSD. Estou apenas focado no meu projeto. Digo sempre que estou a fazer uma campanha de amor e paz, apresentando as minhas ideias e as pessoas estão a gostar desta postura. Não vou atacar os outros candidatos”.