Um olhar sobre o Festival Aqui Acolá

Importa e de que maneira, termos um olhar crítico sobre o, pertinente, conceito do Festival Aqui Acolá, numa acertada organização do Município da Ponta do Sol e da Retoiça – Associação Cultural, Desportiva e Recreativa. Uma iniciativa que tem vindo a deixar uma marca positiva, desde a primeira edição, junto da comunidade pontassolense e não só.

Trata-se realmente de um evento multifacetado através de uma verdadeira simbiose de arte, cultura e tradição. Preenchido com uma panóplia de diferentes vertentes artísticas, como música, dança, teatro, apontamentos etnográficos, artes plásticas, literatura, cinema, fotografia, documentários, animação de rua, gastronomia e ainda alguns workshops que tornam a zona histórica da Ponta do Sol, num autêntico palco ao dispor dos vários gostos e públicos. A oferta é tanta – e em simultâneo – que por vezes, não sabemos bem por onde optar.

Na edição de 2017, foram tantas as ofertas artísticas e culturais, em quatro dias, a acontecer em nove palcos, que até parecia que estavam a meter tudo no mesmo saco, mas na verdade não, pois afirmam os responsáveis que há público interessado e reconhece-se que a organização tem melhorado o programa, a olhos vistos.

Isto só significa que onde há arte e cultura – mesmo que a grande maioria das iniciativas sejam de forma gratuita – as pessoas aparecem e dão um novo ânimo à pequena economia local, como acontece durante o Festival na baixa pontassolense. Pois a constatar pelo movimento estável e o preenchimento das esplanadas dos bares que estão na zona histórica da Ponta do Sol, durante os quatro dias do Festival Aqui Acolá, a arte e cultura, casam bem com a economia. Julgo até que sem a existência dos eventos culturais que acontecem ali, e no auditório do Centro Cultural John dos Passos, ao longo do ano, seria impossível a viabilidade de tantos bares naquela zona.

Obviamente que também é sempre legítimo questionarmos se justifica-se o investimento financeiro feito pelo Município da Ponta do Sol neste evento? Pois pior do que questionar, é mesmo não questionarmos sobre o bom uso – ou não – dos dinheiros públicos. Investir na cultura e na arte é sempre uma boa medida, desde que se sinta efetivamente que ficam sinais positivos na vida das pessoas e que se note que a arte e a cultura contribuem para o alavancar de outras áreas como o turismo e a pequena economia local, por exemplo. Na verdade todos temos sensibilidade para perceber a prioridade de investirmos na área social, por exemplo, e não pode ser sempre a área da cultura sofrer cortes, para colmatar falhas de outras.

Voltando ao festival, louva-se o interesse de muitos jovens pontassolenses quererem participar ativamente no evento, seja nas intervenções artísticas, seja como voluntários no apoio às diversas tarefas do mesmo. Isto também mostra que a organização deste evento tem um olhar atento à comunidade, ao procurar envolver os seus habitantes na dinâmica do Festival, de forma que se sintam parte integrante do projeto. Nesta edição de 2017, foi um bom exemplo dessa envolvência da comunidade, com a participação de, aproximadamente, 40 voluntários; dos grupos artísticos do município e de alunos da Escola Básica e Secundária da Ponta do Sol, que apresentaram o espetáculo de Teatro “Electra” de Tiago Rodrigues, no dia de abertura do Festival.

Pois um Festival com esta dimensão deve ser orientado cada vez mais para a sua comunidade e claro sem esquecer os forasteiros que além de consumirem, levam uma ideia positiva do evento e das gentes da Ponta do Sol.

Na realidade, todas as pessoas devem ter interesses culturais e juntarem-se em torno da arte como um verdadeiro exercício de cidadania.

No entanto, nem tudo são rosas, pois há que ter, muito cuidado com algumas intervenções de arte urbana, que este Festival tem trazido para as proximidades da zona histórica da Ponta do Sol, que na minha opinião podem descaracterizarem a sua pitoresca e genuína qualidade. Há que ter muita cautela, para mais tarde não se vir a chorar sobre o leite derramado. Porque há poucas vilas na Região Autónoma da Madeira com as características tão únicas e castiças como a Ponta do Sol. E isso é uma mais valia. E quando se intervém artisticamente na face de uma vila histórica, há que se ter uma grande responsabilidade pelo património cultural e paisagístico da mesma. Daí ser importante procurar ouvir atentamente e em primeiro lugar os habitantes residentes. Apostar sim na arte urbana nas preferias, nas suas imediações próximas da zona mais antiga, mas não pretermitir que entre, de qualquer maneira, no núcleo histórico, que na minha opinião, deve ser é recuperado, a sua traça original e salvaguardado como um bem para as atuais e as próximas gerações.

Os centros históricos, são assim denominados por serem exclusivos. E não será a arte pública contemporânea que vai afirmar e valorizar os centros históricos. Pois “defender e valorizar os legados físicos do passado representa um imperativo para as sociedades contemporâneas e um desafio para os territórios” Henriques (2003, p. 7).

Esta observação crítica não tem nada contra a qualidade dos artistas ou obras em questão. Não passa de uma opinião livre e cada qual opina de acordo com a sua formação, perceção, experiência, percurso, ou, simplesmente, gosto ou não, pelo Centro Histórico da Ponta do Sol – neste caso. Um genuíno centro histórico que se prese, não pode ser um misto de qualquer coisa ou mesmo uma “salada” de tudo. Ou é um centro histórico ou não é.

Algumas cidades e vilas por esse país fora, já se arrependeram por não tomar, mais cedo, algumas medidas em relação à entrada desenfreada de intervenções de arte pública  nos seus centros históricos. É sempre questionável e pertinente saber com que critérios se elegem determinados lugares de um centro histórico para acolher arte pública?

Mas reconhece-se que o Festival Aqui Acolá como iniciativa cultural veio mexer com as pessoas. Desde a sua primeira edição, oferece-nos um programa holístico, com diversas manifestações artísticas, clássicas e contemporâneas, através da dança, música, teatro, pintura, escultura, teatro, poesia  e exposições fotográficas, entre outras vertentes, que nos fazem viajar por este essencial mundo da cultura e da arte. Com artistas a criarem ”in loco” e onde somos também surpreendidos por uma série de apontamentos de animação espontânea que acontecem na principal rua da zona histórica.

A arte não se faz, ou melhor, não se completa sem o poder do diálogo e o encontro das pessoas. A arte tem realmente este poder de envolvimento da população e de contribuir para a criação de um ambiente criativo e inovador. E esta 3.ª edição do Festival demarcou-se, também, como um dos melhores exemplos no que toca à produção e à excelente capacidade de divulgação de um evento, feita de todas as formas possíveis e imaginárias.

Assim, oxalá que o Festival Aqui Acolá continue a melhorar, por muitos e muitos anos, porque a arte e a cultura são sem dúvidas dois fatores essenciais para o desenvolvimento e progresso de qualquer comunidade.


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