Artes marciais: Taekwondo ganha nova visibilidade na Região com as campeãs nacionais de Poomsae Kup em trio

Isabel Laranjeiras: uma flexibilidade notável…

São três raparigas como as outras, na faixa dos 15, 16 anos. Possuem o mesmo à-vontade, o mesmo gosto em estar com amigos, em telemóveis, em ouvir música, em ler, a mesma feminilidade, as mesmas preocupações escolares e com o futuro. Todas ambicionam estudar na universidade, de preferência para lá das “fronteiras” da ilha. Mariana Fernandes, Sara Camacho e Isabel Laranjeiras  só se tornam verdadeiramente distintas quando vestem o dobok. É o fato utilizado para o Taekwondo, a arte marcial que todas praticam. E praticam-na já num grau algo avançado de aprendizagem, uma vez que todas detêm o cinto vermelho, uma etapa importante antes do seguinte – o negro.

Da esquerda para a direita: Sara Camacho e Isabel Laranjeiras, ambas com 16 anos e a estudar na Escola Secundária de Jaime Moniz; Mariana Fernandes, 15 anos, estuda na Escola Secundária Francisco Franco.

Enquanto a maioria das adolescentes da sua idade prefere praticar outro tipo de desportos, reputando-os talvez de mais femininos, Mariana, Sara e Isabel optaram, já há anos, por vestir uma roupa branca tradicional atada à cintura por uma faixa cuja cor vai mudando à medida que se vai evoluindo na modalidade. A mesma é exigente, que disso não restem dúvidas: é muito o suor vertido nos treinos, o cansaço, as repetições sistemáticas das técnicas com vista a aperfeiçoá-las, a aplicação necessária para ganhar a força e, sobretudo, a flexibilidade exigidas pelos pontapés que caracterizam o Taekwondo.

Muita disciplina se exige também nos combates, onde, munidos das protecções adequadas, os praticantes se defrontam num curioso e ultra-rápido bailado feito de pontapés (muitos) e alguns socos. Essa é a altura em que a vontade do Taekwondo-In, o praticante de Taekwondo, tem de se sobrepor ao sofrimento físico, ao cansaço, aos impactos dos golpes do adversário, sobretudo à falta de fôlego. É preciso vergar o corpo à própria vontade, fazê-lo obedecer. Afinal de contas, a essência desta arte marcial coreana é isso mesmo: lutar.

Não é, no entanto, uma prática violenta, ao contrário do que se possa pensar. O mestre Mário Rodrigues, cinturão negro 4º Dan, que lecciona no Marítimo e no Clube Unidos da Camacha, professor de Mariana, Sara e Isabel, considera que o Taekwondo “é especial por ser uma arte marcial completa para todas as idades e sexos”. E acrescenta que, “para quem gosta de competir e de grandes desafios, tem a vantagem de ser um desporto olímpico em constante evolução”, que permite “a cada um alcançar o equilíbrio físico e mental”, contribuindo para aumentar a auto-estima de quem o pratica.

As alunas concordam. Todas já passaram pelos combates (designados Kyorugi), mas foi nas Poomsaes, uma competição em demonstração técnica que pode ser feita individualmente ou colectivamente com colegas de equipa, que se sagraram, recentemente, campeãs nacionais de Poomsae Kups (ou seja, abaixo de cinto negro). Trouxeram o título para a Madeira ao serem as melhores a realizar, em trio, uma sequência coreografada de técnicas. Este tipo de competição exige muita disciplina e busca da perfeição, pois cada erro ou gesto menos perfeito é sancionado pelos árbitros.

Mariana Fernandes considera: “O que conseguimos alcançar nos nacionais foi importante para todas, tendo sido também algo inédito para a história do Taekwondo na Madeira. Isso é algo que definitivamente nos motiva muito mais para todos os outros campeonatos. Acho que esta medalha mostrou-nos acima de tudo que com esforço e dedicação podemos alcançar tudo, e obviamente tentaremos manter o título para o próximo ano”. Isabel Laranjeiras dá também conta de “uma vontade de continuar a participar neste tipo de torneios” e de “evoluir cada vez mais na arte marcial”. “Dá-nos vontade de tentar superar as nossas adversárias nas próximas competições”, sublinha Sara Camacho.

José Santos (à esq.) e o mestre Mário Rodrigues

Impõe-se, a esta altura, um ligeiro interlúdio. O que será, concretamente, o Taekwondo, perguntar-se-á o leitor? Muitos confundem-no com o Karaté, e a maior parte tem dificuldade até em pronunciar o nome. De facto, o coreano não será a mais fácil das línguas, e o Taekwondo, originário da Coreia, significa “A via dos pés e das mãos”. Ou seja, o modo de se defender eficazmente com o recurso aos membros superiores e inferiores. Mais com os inferiores, para sermos honestos. Esta arte marcial utiliza golpes de punhos, com a mão aberta e de muitas outras maneiras. Inclusive com os cotovelos e os joelhos (estes últimos são interditos em competição). Mas, na realidade, uma grande percentagem dos seus golpes é feita com os pés; é, por excelência, a arte do pontapé, e são estes golpes que mais frequentemente são utilizados, e que a distinguem. A um nível superior, a flexibilidade e a velocidade dos melhores mestres de Taekwondo produz demonstrações simplesmente estonteantes. A um nível mais básico, pode afirmar-se que dentro de alguns anos de prática desta arte marcial/desporto, as pernas se tornam muito mais velozes, fortes e flexíveis. E que movimentos que antes pareciam impossíveis, ficam ao nosso alcance…

Gonçalo Sousa concilia os estudos no Seminário com as artes marciais

“Um taekwondista usa os pés como um pugilista usa os punhos”, salienta Gonçalo Sousa, também cinto vermelho do Marítimo, um rapaz de 17 anos que se trouxe também para a Região a medalha de bronze na competição de Poomsae Kups individual, na sua categoria.

Curiosamente, Gonçalo Sousa frequenta o Colégio Missionário do Sagrado Coração. É ali que reside durante a semana. Vai a casa aos fins-de-semana, salvo excepções. É uma opção sua, apesar de não saber verdadeiramente o que quer ser no futuro. Ali procura aquilo a que chama “a sua vocação” e que poderá, ou não, passar pelo sacerdócio católico. Em todo o caso, é uma caminhada espiritual e não se incompatibiliza com o Taekwondo, como se vê. “Acho que as pessoas ainda têm um pouco essa ideia de que as artes marciais são violentas”, comenta. Mas, na sua perspectiva, ali encontra “bases morais e de valores que não se aplicam somente no dojang, o local de treino, mas na vida”. Independentemente de ser sem dúvida “um desporto de combate que exige bastante do praticante”, refere, o certo é que “as artes marciais orientais têm, na sua génese, uma filosofia própria que, para além da parte física, visa conceder ao praticante uma nova mentalidade, que deve sempre procurar a calma e a paz ao invés da violência”. Isto, diz Gonçalo, “ao contrário do espectáculo de sangue e dinheiro que algumas indústrias fomentam, como é o caso do UFC, MMA, etc., que se assemelham aos espectáculos de violência que havia na Antiguidade Clássica, entre gladiadores”. O Taekwondo é outra coisa.

Gonçalo Sousa num combate (à esq.) esquivando um pontapé dum adversário

Não quer isto dizer que não possa ser violento. Mas sê-lo-á apenas em caso de absoluta necessidade, de autodefesa. Sara Camacho conta que começou a praticar o TKD (abreviatura) por sua própria vontade, com apoio dos pais e refere que uma das principais razões porque o escolheu foi para poder obter algumas bases de defesa pessoal. “Nos dias que correm, deveríamos todos saber como nos defendermos”, considera.

O praticante que pela primeira vez sente o impacto dos pontapés pode ficar impressionado ou desnorteado. O Taekwondo, em competição, é um desporto de contacto total, embora o mesmo só seja permitido acima da cintura e as protecções sejam obrigatórias. Mas há muitos pontapés à cabeça e há muito que aprender esquivas e defesas, porque senão… Outros, no entanto, desvalorizá-lo-ão em autodefesa porque para eles todos os golpes devem ser permitidos, inclusive de cotovelos e joelhos. O TKD não permite ataques com os punhos à cabeça em competição, apenas ao centro do tronco, e, como já dissemos, joelhadas e cotoveladas não são permitidas. Uma coisa é certa: quem pensa que as artes marciais conferem invulnerabilidade ao seu praticante em autodefesa está equivocado. As variáveis são muitas, numa situação real. Mas quem pratique regularmente e aplicadamente uma arte marcial ou desporto de combate, seja ele qual for, sem dúvida ficará melhor apetrechado para se defender. Quem gostar mesmo de dar pontapés, então no TKD tem um destino certo…

Mário Rodrigues, 4º Dan (cinto negro) com José Santos, 1º Kup (cinto vermelho)

O mestre Mário Rodrigues, de 48 anos, ensina também natação e adora exercício físico em geral. Natural de Lisboa e a residir na Madeira desde 2011, entende que o TKD “é uma das artes marciais mais completas que existe, porque, além das técnicas de impacto, de braços e de pernas, temos também a vertente de defesa pessoal pura, que envolve projecções, imobilizações, luxações (chaves de braço), e também golpes com os joelhos e os cotovelos”. Mas, mais importante do que isso, é o treino do autodomínio. E é curioso que é esse o aspecto que mais enfatizam muitos praticantes, entre as quais o nosso “trio maravilha” feminino.

Mariana Fernandes realça sempre ter gostado de artes marciais. A primeira vez que tomou conhecimento da modalidade foi quando viu o padrinho a treinar em casa (José Santos, 48 anos, que, como o filho Alexis, 21, é também cinto vermelho). Mas logo as primeiras impressões que formou foram as da “família que se forma no Taekwondo, apesar de todas as competições e de todas as adversidades. Ver pessoas preocupadas connosco mesmo durante os combates e a puxar por nós é uma sensação fantástica e acho que isso é uma das coisas que nos mantém neste desporto. É óbvio que o Taekwondo puxa muito por nós e por isso temos de superar muitos dos nossos limites, mas isso é algo que ‘faz parte’”, testemunha.

Isabel Laranjeiras acrescenta que antes praticava voleibol, mas acabou por optar pelo Taekwondo porque achou que levaria deste último mais ensinamentos para a vida. E confessa que o que a atraiu foi não só o facto de se tratar de uma arte marcial, mas de uma menos conhecida como, por exemplo, o Karaté.

“Esse facto fez com que os praticantes de Taekwondo da Madeira se unissem com o objectivo de expandir a modalidade na ilha e por isso chegamos mesmo a criar laços de amizade com atletas de outras escolas e muito mais à vontade nos torneios regionais, o que é reconfortante quando se pratica um desporto de combate que pode envolver lesões, e exige muita resistência, fair-play entre adversários, integridade e humildade”, aponta. Confessa que o seu interesse em outras artes marciais também se desenvolveu a partir daqui. E espera vir a praticar outras. Gonçalo já o faz, dividindo o seu interesse pelo Taekwondo pelo Hapkido, também uma técnica de auto-defesa coreana, e pela Capoeira.

O risco de lesões nas artes marciais, na realidade, não é maior do que em muitos outros desportos, e em muitos casos será mesmo menor, já que se utiliza, na maior parte dos casos, os cuidados e as protecções adequadas. Isabel Laranjeiras diz que tenta sempre interessar a maior parte das pessoas nesta prática mas nem sempre com sucesso. “Muitos pais acham-na perigosa”, admite. Outras pessoas “acham que já são muito velhas para praticar Taekwondo, ou que esta, no caso das raparigas, é uma arte marcial apenas para homens, o que é mentira, porque o TKD não visa idades nem géneros”.

Mariana Fernandes adora um certo tipo de acrobático pontapé giratório

Mariana salienta que desde que entrou para a modalidade, começou a ver as coisas de outra perspectiva e a tentar compreender melhor outras pessoas. A tolerância com os outros faz parte do espírito da modalidade, mas também “o esforço para ultrapassar os limites e atingir os meus objectivos”. Recomenda que toda a gente experimente artes marciais, mais que não seja para verificar que “aprendemos muito ao longo do tempo, coisas para o dia-a-dia… Arranjamos um novo conjunto de valores que vamos levar para o resto da vida”.

“O Taekwondo”, refere, “é exigente ao puxar por nós”, mas essa exigência fê-la lidar melhor com os nervos e a pressão de termos alguém a avaliar-nos. A nível físico, demonstra que com perseverança e com empenho é possível atingir qualquer objectivo”. Uma das coisas que diz ter aprendido é a aceitar as críticas dos outros, e usá-las “para nosso proveito, de modo a melhorarmos as nossas técnicas”. Essa aprendizagem, enfatiza, foi essencial para o seu crescimento pessoal.

Sara Camacho também aponta as artes marciais em geral como escolas para ganhar autodomínio e aprender a respeitar o outro. “No princípio”, admite, “achei que o Taekwondo era um pouco violento e que era apenas “bater nos outros”. Com o passar do tempo, compreendi que apenas aprendemos a nos defendermos ou a submeter o adversário a diversas técnicas de ataque, para nossa própria protecção”. Por vezes, tenta interessar colegas, mas, apesar do entusiasmo com que todos estes jovens praticantes falam da modalidade, recebe respostas desanimadoras: “Não iria aguentar, é muito violento…”, dizem. E admite que ela própria também em tempos pensou assim. Mas salienta que não é verdade. Mariana refere, por seu turno, que os colegas “dizem que é fixe mas não experimentam”.

O que mais anseia, como as suas colegas, é conseguir motivar entidades públicas e privadas para conseguir mais apoios para a modalidade. “Se tivéssemos mais apoios, conseguiríamos expandi-la mais”, aponta. As companheiras concordam.

Helder Silva, cinto negro que lecciona em Santana, sob a supervisão de Mário Rodrigues, e que muitos mais alunos devia ter; é dono de uma agilidade e destreza notáveis em combate.

“O nosso mestre”, refere Sara, “foi quem nos ensinou tudo o que sabemos. Ele puxa por nós, até fazermos as técnicas o melhor possível. Nos treinos, por vezes reclamamos, mas no fundo sabemos que ele só quer que façamos o nosso melhor”. Também Isabel Laranjeiras diz que é a ele que “devemos este ouro, por apostar e  acreditar nos seus atletas, e ter sempre objectivos para além das expectativas”. Gonçalo considera-o “um treinador dinâmico”, inclusive pela preocupação em realizar demonstrações e procurar desenvolver o conhecimento da população da ilha acerca do TKD, por exemplo, indo a escolas. Mariana concorre: Mário Rodrigues, diz, “acredita muito nas nossas capacidades e por isso apoia-nos e incentiva-nos a participar em competições fora da Região”.

Sara Camacho: os pontapés altos são uma das mais notáveis características do Taekwondo

O Taekwondo, refira-se, deve muito ao Karaté japonês e à artes marciais chinesas. Herdeiro das tradições de luta da própria Coreia, de técnicas ancestrais como o Taekkyon, incorporou muito das artes marciais dos países seus vizinhos, fundindo-as num “melting pot” do qual resultou, em meados do século XX, a assumpção de uma arte marcial designada Taekwondo como uma espécie de “bandeira” nacional, uma modalidade cem por cento coreana, apoiada pelo Estado. Com as habituais dissensões, cedo se criou um cisma principal; hoje o Taekwondo divide-se entre duas grandes organizações, o Kukkiwon, na Coreia do Sul, e o respectivo braço para competições internacionais, a World Taekwondo Federation (WTF); a “concorrente” é a International Taekwondo Federation (ITF), com mais prevalência nos países anglo-saxónicos e na América do Sul, e que segue regras ligeiramente diferentes em competição. A WTF é, todavia, a entidade que organiza as competições que conduzem, em última análise, aos Jogos Olímpicos.

A identidade própria do Taekwondo, mais que qualquer outra coisa, fez-se sobretudo através da técnica do pontapé; poucas outras artes marciais utilizá-lo-ão com tanta frequência e variedade, e em golpes tão altos, frequentemente ao nível da cabeça, e rotativos. A arte marcial é explosiva e dinâmica, e envolve passar de uma imobilidade a uma sequência estonteante de pontapés em menos de um instante, num difícil exercício anaeróbico que exige saber respirar muito bem e uma excelente forma física. Os combates são disputados em três rounds de dois minutos (ou menos) intervalados por um minuto de descanso. O suor é muito, o esforço intenso, a eficácia dos golpes, inesperada.

“No Taekwondo, os meus golpes favoritos são sem dúvida os pontapés, na medida em que são estes que diferenciam o Taekwondo das restantes artes marciais. Para além da sua variedade, a sua precisão, flexibilidade e força, faz com que todos os que os vêem fiquem de boca aberta e cheios de vontade de experimentar. É o que mais chama a atenção na arte marcial”, reconhece Isabel Laranjeiras. São também os golpes favoritos das suas companheiras de percurso e campeãs nacionais de Poomsae Kups em trio.

O passo seguinte, para estes atletas do Marítimo, é o cinto negro. “Não é fácil obter um, sublinha Gonçalo Sousa, que seja válido. “Não me refiro aos que se podem obter nas lojas desportivas, que não têm valor nenhum. Para se evoluir nestas graduações é necessário um tempo mínimo de prática da modalidade, saber ser capaz de executar o programa que cada cinto exige. Costuma-se dizer que o cinturão negro é o início do caminho marcial, pois o atleta já aprendeu as bases (nas graduações anteriores, e pode, agora, começar realmente a aprender Taekwondo. É também importante referir que as graduações não são o principal na modalidade, mas sim as aprendizagens e o convívio com os outros”.

Actualmente o Taekwondo é regido na RAM pela Associação de Taekwondo da Madeira, presidida pelo mestre Mário Rodrigues. Os atletas que praticam nos clubes pertencentes estão devidamente federados a nível nacional. O Taekwondo pratica-se no Club Sport Marítimo, nos Unidos da Camacha, onde também lecciona Mário Rodrigues (assessorado pela também cinto negro Guida Gouveia), e na União Desportiva de Santana, onde lecciona Hélder Silva, um cinto negro com uma técnica de combate notável.

Guida Gouveia: cinto negro 2º Dan, actualmente a responsável pela classe infantil nos Unidos da Camacha, a atleta federada na Madeira mais graduada depois de Mário Rodrigues e uma docente preciosa nas aulas de TKD também no Marítimo

Mário Rodrigues diz que, para ele, ser mestre (Sambunim) de Taekwondo foi o culminar de muitos anos de treino e de respeito pelos princípios da arte, vivendo de acordo com os mesmos. “Foi precisa muita perseverança, muita prática e nunca utilizar as palavras ‘não consigo’. Nunca desistir de tentar ser sempre melhor. No meu caso, as exigências são treinar todos os dias para conseguir manter uma forma física que me permita exemplificar as técnicas da melhor maneira possível aos meus alunos e de forma a que também eu continue a evoluir o meu Taekwondo, na procura de uma ‘perfeição’ difícil de alcançar”.

Para tal, e desde que o TKD passou a ser uma modalidade olímpica, é necessário ter o curso de treinador, o que obriga a ter formações para poder renovar a cédula. No seu caso, tem o grau 2 do Instituto Português do Desporto e Juventude, que lhe exige formação geral e específica. No último caso, costuma participar no maior seminário que se faz em Portugal do género, ministrado pelo mestre Paulo Martins, 7º Dan, que convida sempre vários grãos-mestres de todo o mundo. Isso permite aos participantes manterem-se actualizados sobre o Taekwondo e as constantes evoluções do mesmo.

O mestre Mário praticou ginástica, futebol, natação. O Taekwondo, iniciou-o no Sporting Clube de Portugal, clube com tradição na modalidade. Confessa, mais uma vez, que o que o atraiu foram “os pontapés espectaculares”. Curiosamente, tem um irmão que é cinto negro de outra modalidade (essa com maior implantação na Madeira), o Karaté.

As praticantes femininas demonstram que este não é apenas um desporto para homens. Aqui, as campeãs nacionais de Poomasae com o mestre e com Margarida Gouveia, da Camacha, também uma jovem taekwondista de garra e que se distingue nos combates, a nível nacional e regional

O que são as graduações para ele? A evolução natural dos conhecimentos adquiridos nos treinos. “São obtidas através do empenho nos treinos e dos requisitos necessários, que passam pelo tempo de treino e número de aulas, que aumentam consoante a cor do cinturão. No meu caso, até chegar a 4º Dan, cumpri sempre com todos os requisitos necessários, e é isso que tento fazer sempre com os meus alunos”. A humildade será, provavelmente, o melhor atributo que se tem, melhor que qualquer graduação. Até porque um cinto… não passa de um cinto. Para a vida, diz Mário Rodrigues, fica do Taekwondo “a disciplina, a humildade, o respeito, a autoconfiança, e os princípio do TKD, que são: Cortesia; Integridade; Perseverança; Autodomínio; e Espírito Indomável”.

“Seguindo todos estes princípios”, conclui, “tornamo-nos pessoas melhores e mais completa. E ensinamos o sentido da defesa pessoal – e nunca do ataque gratuito e sem sentido. Para mim, o TKD é um modo de vida, de estar, de me sentir bem física e psicologicamente. E é muito gratificante ver os meus atletas crescerem a nível marcial, desportivo e pessoal”.

Mário Rodrigues não foi o primeiro mestre de Taekwondo a vir para a RAM; mas foi o primeiro a permanecer definitivamente, a solidificar a implantação de uma Associação, com atletas federados, capazes de competir a nível nacional. Sente-se recompensado por, apesar de alguns acidentes de percurso, ter sempre conseguido dignificar a Região com a obtenção de boas classificações e medalhas para a Madeira, e agora já com o primeiro título nacional.

O que mais era preciso? “Mais atletas, mais instrutores, mais clubes federados e mais reportagens destas para divulgar melhor a modalidade”.

Fica, pois, o desafio… O jovem Gonçalo Sousa não deixa de fazer uma achega, pertinente: reforçar a necessidade de aquisição de coletes electrónicos, usados nas competições nacionais mas inexistentes na RAM, ou de apoios para deslocações para fora da ilha para torneios e formações.

Numa demonstração recente com José Santos

Entretanto, quem quiser praticar Taekwondo (para manter a forma, aprender a defender-se, competir, evoluir tecnicamente, divertir-se… Não deve hesitar. É, assumidamente, uma arte marcial absorvente e fascinante.