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Onde os pés pousam é pouca área para o sonho humano. Evadir-se, rasgar o espaço, ir para além dos horizontes possíveis do planeta sempre esteve no desejo dos sonhadores e visionários. Mover-se – tudo se move na Natureza, – o movimento é uma constante do Universo, sonhadores e visionários não só atravessaram os mares, mas cruzaram também o espaço. Contudo, isto não seria suficiente para quem sentia, por dentro do desejo dos olhos, o movimento da alma. A alma que seria o centro da vida, ou mesmo a própria vida, segundo conceitos classicistas, sem a qual nenhum ser vivo existiria. Mas nada se move sem a presença impulsionadora duma energia. Em termos físicos é possível verificar a intensidade das forças que agem sobre os corpos. No caso das forças da alma, reconhecidas pela exteriorização dos sentimentos, essa observação pode ser feita através da composição de roteiros específicos de movimentos, que levam os humanos a imitar a cinestesia da Natureza. Voar será viver uma experiência de pássaro, ou simplesmente de insecto, um sonho de altura e asas livres, suspensas, numa espécie de fuga à atávica determinação da gravidade.
Pairar acima da terra, flutuar no etéreo azul era um sonho concreto e permitiu que grandes asas mecânicas se cruzassem agora dum lado a outro do céu aproximando os países. Mas há um vertente corporal do sonho que se compraz num movimento sedutor capaz de alçar os humanos aos prazeres do devaneio, às fronteiras do paraíso: Assim é a Dança. Levantando os braços, postos em pontas de pés, os humanos libertam-se da tensão gravitacional que os prende às profundezas da terra, elevam-se à altura dos velhos deuses, rendem-lhes louvores e homenagens.
Nos dias de hoje a Dança envolve-se de cenários propícios à criação de ambientes estimulantes, onde, a par da expressão do corpo, se salienta todo um processo inserido num território, na música, na narrativa, convite aos olhos e à inteligência, apelo à fruição estética e às emoções. A Dança é então uma arte do corpo e do seu ritmo transformados em primordial expressão. A partir de Isadora Duncan esta arte toma um elance diferente, despe-se de algumas fórmulas clássicas, serve-se do intuitivo, socorre-se de mecanismos de afecto, de tendências espontâneas, age sobre vários síndromes, os do medo ou da violência, ou outros transtornos. A Natureza oferece-lhe numerosos exemplos repousantes através da sua cinestesia original: a ondulação do mar, a flutuação da nuvem, o impulso do vento, a vibração das árvores. A própria tempestade é uma espécie de necessária catarse que a Natureza experimenta através da qual se liberta de intrínsecas tensões e provém ao próprio equilíbrio.
Isadora Duncan deixou aos bailarinos do nosso tempo essa vontade, de se identificarem com os elementos e os seus sortilégios. Andar, correr, saltar, respirar, conduzem a novas possibilidades performativas, sempre valorizadas por engenhosas coreografias.
O motivo que me levou a escrever esta crónica, não partiu alheatoriamente dum pensamento avulso, um gesto anódino de acusar o gosto por esta forma de expressão artística, mesmo sendo isso legítimo. Muito mais do que apenas animar os ócios, a arte da dança é capaz de agitar uma certa forma de sentir o mundo, de perceber essa espécie de força que acciona a energia anímica, revulsiva e criadora, parceira da Natureza e dos seus sortilégios, revolucionária também, no sentido da superação de certos reveses que algumas tempestades interiores possam causar.
A dança, como a poesia, não são nem excessos, nem contradições. São formas de viver realidades sentidas. São partes da alma, da vida universal. Os colibris, quando sugam o néctar das flores, fazem vibrar as asas numa bela vertigem; as abelhas dançam quando encontram uma fonte de alimento; são conhecidas as espectaculares danças de enamoramento de algumas aves; os cães pulam e rodopiam quando querem manifestar alegria e afecto. A Natureza é um gigantesco Poema para quem quiser entender.
Esta crónica nasceu porque eu vi os bailarinos dum grupo de gente especial, porque cada ser é, ele próprio, especial, porque a unidade na diferença é apanágio da Natureza e lei do Universo.
Eu vi os bailarinos do grupo Dançando com a Diferença.
Acordaram em mim valores nossos, de todos, adormecidos pelo efeito nocivo da indiferença ou da distracção. Por isso recomendo: Procurem vê-los… Conheçam a sua história. Se puderem, deem-lhes as mãos !
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