À memória do meu avô Jorge

Há já muito tempo que teria querido dedicar uma minha escrita à memória do meu avô Jorge, pessoa que desde cedo marcou a minha existência, enriqueceu o meu universo de criança, influenciou o meu património cultural e marcou de forma indelével a minha personalidade e carácter.

Recordo com muita saudade as terças-feiras da minha curta existência por mais de uma década, em que, com as minhas irmãs, passávamos essas tardes e o jantar em casa dos avós, na rua do Lazareto, nº 15.

Brincávamos no quintal depois da escola até à hora da janta, em que cada semana usufruíamos de um cardápio sempre delicioso preparado pela nossa avó, um dos meus maiores amores de toda uma vida. Algo que também sempre partilhei com ele. E que bem que ela cozinhava! Linda de morrer e um encanto de pessoa. Até um mero ovo estrelado, acompanhado de uma salsicha e puré de batata era um menu de chorar por mais…

Terminado o manjar, chegava o avô do trabalho, víamo-lo passar pela janela do quarto de jantar e logo crescia em nós uma alegria imensa! Ele chegava, vinha falar connosco com um sorriso enorme, sacava do bolso o chaveiro infindo, abria o armário sempre trancado e, assegurando-se de que já tínhamos terminado a refeição, tirava três chocolates com que infalivelmente nos presenteava. Uma barra de chocolate Regina!

Era um momento tão especial que nós, ainda hoje, recordamos com muito amor e carinho. Acabado o jantar, o avô sentava-se na sua poltrona e chamava-nos para ocupar o nosso cantinho, cada uma das manas assaltava uma perna do avô e eu, um dos braços da cadeira. Aí começava o encanto: então meninos, que conto querem hoje? Fadas, duendes?  Lá começava uma nova história sempre inundada de paisagens deliciosas e sonhos deslumbrantes, era uma vez…. Eram sempre histórias empolgantes em que os maus sofriam um castigo e os bons ganhavam sempre no final! Nunca esquecia a moral da história. A fantasia era um ingrediente essencial e tudo era uma delícia. Aquela árvore no jardim encantado onde se descobria um buraco e se escorregava deliciosamente para um mundo por baixo da terra, com salas imensas, palácios mirabolantes e gente bonita! Que imaginação prodigiosa tinha o avô Jorge! Se tivesse passado para o papel tudo o que nos contava em cada terça-feira da nossa infância e muitas outras crianças teriam partilhado aquele dom tão seu! Éramos os seus primeiros netos e via-se o quanto gostava de nós! O Avô maravilha!

Desde pequeno que me achavam parecido com ele e isso enchia-me a alma! Ser parecido com uma pessoa assim tão especial, honrava-me tanto e era para mim um sincero elogio. Um verdadeiro Senhor o meu Avô, com um coração do tamanho do mundo, princípios inabaláveis e uma educação irrepreensível. Que sorte a nossa.

Os fins-de-semana, passávamo-los na casa do Caniçal, entre a piscina e o mar, passeios de bicicleta ou a pé pelas serras da cercania e a Prainha! Quando a Mãe nos anunciava que nesse fim-de-semana vinham também os avós ficar connosco, a alegria não tinha limites e, de binóculos, ficávamos à coca para ver quando o ânglia azulinho saía do túnel. Parecia que durava uma eternidade! Lá íamos abrir o portão, depois o porta-bagagem para sacar a manta com os lençóis que os avós sempre carregavam consigo nessas andanças. Como recordo com saudade esses momentos deliciosos tão nossos! Á noite lá vinha a batota, o Mahjong que a avó trazia do Funchal, o King, a bisca, o cassino…

Aos domingos, depois da missa na igreja do Caniçal, íamos comprar o pão de batata caseiro delicioso, as lapas e as verduras para a sopa e rumávamos depois a casa para vestir os fatos de banho e mergulhar na piscina. O Avô que adorava nadar, vestia o seu calção azul, descia os primeiros degraus da piscina e lá ia de cabeça gargarejando ruidosamente de uma forma muito sua! Quando aparecia à tona, passava as mãos pela cabeça como para pentear os cabelos que quase não tinha e agarrava-se à borda da piscina. Era chegada a hora de ir ao mar e lá íamos os três netos maiores com os avós rampa abaixo até ao cais! Não esquecíamos as bóias de apoio, não que as precisássemos mas por segurança, pois lá íamos mar a dentro agarrados aos pés da avó. Que maravilha! Foi ela que, desde pequeninos, nos ensinou a nadar na barreirinha.

Uma das coisas boas que tínhamos por sermos os netos mais velhos era podermos gozar da juventude dos nossos avós, dos seus tempos de lazer, dos passeios com eles pela ilha e tanto mais…

Quase me esquecia do livro do gato, pertença do Avô: um livro em banda desenhada destinado à aprendizagem da língua de Shakespeare. Nas famosas terças-feiras e às vezes nos fins-de semana, lá vinha o Avô com o seu livro e era mais uma lição deliciosa. Não sei se terá sido por isso que passei a dominar relativamente bem esse idioma, mas facto é que o gosto por línguas estrangeiras terá sido despertado aí por ele! Acho que esse livro era eterno, até porque creio que terá também acompanhado a infância dos nossos irmãos mais novos e de todos os nossos primos que se nos seguiram. O livro do Avô!

Hoje em dia, passados tantos anos, chegou a minha hora de ser eu o Avô Jorge! Só espero poder estar à altura do meu querido Avô e, em seu tempo, poder presentear a minha netinha de igual modo. Que bom que seria se um dia, daqui a trinta anos ou mais, a minha Maria dedicasse com grado prazer um pequeno texto em memória do seu Avô! Bem-haja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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