Sonhar que se está a voar

 

Rui Marote

Era esta a imagem, esta manhã no Dia do Trabalhador, quando o teleférico iniciava a sua primeira viagem.
No relvado do ex-campo do Almirante  Reis, alguém.que provavelmente já foi trabalhador e que hoje faz da rua a sua casa, dorme. Nem os foguetes que rebentaram a anunciar a procissão do voto fez despertar o homem que vive no “hotel estrela”.
Ao fundo, correm para a montanha as cabines do teleférico. Será que este homem sonha voar? Por milhares de anos, as pessoas acreditaram que os sonhos tinham sido criados por seres sobrenaturais e que poderiam ser usados para prever o futuro. Os antigos egípcios, gregos e romanos também entendiam que os sonhos eram divinamente inspirados. Aliás, foram os egípcios que produziram o mais antigo dicionário sobre sonhos de que se tem conhecimento. Foi escrito há quatro mil anos. As interpretações basearam-se na ideia de que os sonhos prevêem o futuro.
Os egípcios tinham um sistema de interpretação de sonhos contrário. Se sonhou com alguma coisa boa a acontecer, significava que algo de mau iria acontecer na vida consciente. Ter um pesadelo, portanto, era um sinal de boa sorte.

Esta imagem com a cabine ao fundo inspira-nos que a personagem em questão, cujas circunstâncias de vida só podemos adivinhar, sonha que está a voar –  é um sonho muito comum, na categoria dos sonhos lúcidos… Temos a consciência do nosso sonho e sentimo-lo como algo real. Obviamente não temos a capacidade de voar, e estes sonhos simbolizam eventos de que estão acima de nossa capacidade. Como, quem sabe, obter trabalho, ter uma vida normal e uma família… Quem pode imaginar os pensamentos deste não-trabalhador, no Dia do Trabalhador? Sabendo-se que, por muito árduo que seja o trabalho, confere dignidade?