Isabel Torres: Madeira não tem dimensão demográfica para garantir os seis anos do curso de Medicina

A questão gerou controvérsia nas redes sociais. O anúncio da vinda do terceiro ano do curso de Medicina para a Madeira trouxe para a ribalta um assunto que tanto tem de adeptos como de críticos.

Isabel Torres, uma das figuras responsáveis pela instalação e consolidação do ciclo básico na Região, a partir de 2004, vem esclarecer que este passo já estava garantido há 10 anos, não sendo portanto uma novidade, mas antes o resultado de um trabalho de qualidade, que só não avançou na altura porque a instituição universitária madeirense, durante o mandato de Castanheira da Costa, “perdeu algum gás” e o interesse no processo de alargamento.

A investigadora, que esteve ligada ao curso de Medicina na UMa até 2011, como coordenadora e professora associada, destaca o salto científico e social registado com a chegada dos dois primeiros anos à Região, um projeto marcante em termos de prestígio para a universidade e de grande valia para muitos alunos madeirenses, que de outra forma não teriam tido a oportunidade de seguir o seu sonho.

(Foto Rui Marote)

Apesar de o projeto ser a sua “menina dos olhos” e de estar satisfeita com o anúncio de mais dois semestres, Isabel Torres receia que se criem falsas expectativas quando se fala em lecionar integralmente os seis anos de licenciatura e mestrado na Madeira, conforme perspetivou recentemente o secretário da Saúde.

A razão não tem a ver com idoneidade e qualidade do curso, já reconhecidas aliás pelas autoridades, mas prende-se com a dimensão do arquipélago: 250 mil habitantes não garantem o contacto suficiente com casos clínicos complexos, como acontece nos grandes centros hospitalares do país, o que limita os alunos na sua formação. “Esta foi sempre a minha opinião e o dr. Pedro Ramos sabe-o”, sublinha Isabel Torres, que no entanto encontra no atual titular da pasta da Saúde, de quem foi colega, um profissional “dedicado e pragmático”.

Com o alargamento ao terceiro ano, o curso vai exigir mais meios humanos e materiais. O novo hospital, na ordem do dia, será peça central, pelo que a ex-vice reitora da UMa estranha que a questão do ensino universitário não tenha sido falada aquando da apresentação da fase final do projeto de execução. Daí o alerta: esta é a altura para assegurar as necessidades de formação dos futuros médicos na nova unidade hospitalar da Madeira.

Funchal Notícias – O secretário regional da Saúde anunciou recentemente que o terceiro ano do curso de Medicina poderá vir a ser lecionado na Região, num horizonte máximo de dois anos. Como analisa estas declarações? Está a Região apta para dar este salto?

Isabel Torres – A Unidade de Ciências Médicas da Universidade da Madeira foi a estrutura que começou a ministrar o ciclo básico. Foi alvo de um processo de investimento profundo na altura em que montámos o projeto, com vista a dotá-la de equipamentos necessários a um ensino de qualidade, nomeadamente, em sistemas de viodeoconferência, modelos anatómicos, bibliografia, entre outros.

O próprio Centro Hospitalar do Funchal dispõe de um centro de simulação clínica, um dos três existentes no país e talvez o melhor apetrechado, com ferramentas importantes que permitem aos alunos desenvolverem algumas cadeiras que integram o currículo, sobretudo na etapa pré-clínica, ou seja, até ao terceiro ano.

Além disso, o corpo docente, composto por doutorados da Universidade da Madeira e do Instituto Gulbenkian e por médicos assistentes locais, em cooperação com a equipa da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, é de grande qualidade.

Face a estas condições, admito que a lecionação até este patamar seja possível na Região, mantendo os mesmos padrões de qualidade. Aliás, as premissas de qualidade e exigência que nortearam o projeto, desde o seu início em 2004, foram cabalmente consolidadas e reconhecidas dois anos depois pelas entidades parceiras e pelas autoridades que avaliam o ensino superior. Em finais de 2006, havia já luz verde para avançar para o terceiro ano, tanto que instalámos um laboratório adicional, com apoios comunitários, através do IDE.

(Foto Rui Marote)

FN – O que impediu então o processo de avançar?

IT – A partir de 2007, o projeto entra numa fase de algum impasse. A Faculdade de Medicina de Lisboa tinha toda vontade, mas foram criados vários obstáculos aqui na Madeira. Na UMa, muda-se a reitoria, entra em funções o professor Castanheira da Costa, e aí o projeto começa a perder algum gás. Houve algum desinteresse da parte da Universidade de Madeira, posição que desagradou a Faculdade de Medicina, na altura. Entendo que houve falta de atenção da reitoria, no sentido de alargar a parceria que já existia e que, no fundo, era consensual e previsível. A FMUL sempre assumiu que, caso o curso corresse bem, poderíamos avançar até ao terceiro ano, sendo o título académico partilhado pelas duas universidades.

Fico satisfeita, no entanto, por saber que o atual reitor é a favor do alargamento. Sei que o projeto vai ganhar uma nova dinâmica, que estão a ser feitas diligências. Mas não será ainda para o próximo ano, porque, como é óbvio, terá de ser autorizado pela Agência de Avaliação e Acreditação.

FN – Foi esse impasse o motivo do seu afastamento, em 2011? Saiu por vontade própria ou por incompatibilidade?

IT – Sempre me identifiquei com o projeto, mas senti que aquilo que tinha sido um sucesso, que podia continuar a ser bom para a Madeira, estava a ser objeto de um conjunto de entraves. Preferi sair.

FN – O que justifica esse desinteresse da reitoria? Razões políticas, pessoais…

IT – Não sei.

FN – O financiamento é sempre uma questão importante. Tem ideia de quanto custará a vinda do terceiro ano de Medicina para a Madeira?

IT – Não sei precisar, mas lembro-me que, na altura, não era um grande investimento. Desde que o centro hospitalar proporcione os espaços necessários, será necessário apenas contratar mais médicos. O grande investimento já está feito.

FN – Mas, aquando da apresentação da nova versão do projeto do futuro hospital, ninguém falou desse pormenor do ensino universitário.

IT – No anterior projeto do novo hospital, estava contemplada uma área destinada ao ensino da medicina. Espero que se mantenha. Acho que é importante e oportuno, nesta fase em que se discute o projeto de arquitetura, contemplar esta vertente, até porque não exige uma grande área, atendendo ao número de alunos.

FN – Sabendo que a formação dos futuros médicos assenta também na parceria com o sistema regional de saúde, não lhe causa preocupação o clima de instabilidade que se vive no sector, com mudanças de secretários, saídas de profissionais para a privada e perda de idoneidade formativa em alguns serviços?

IT – Entendo que não. Os problemas colocam-se ao nível do financiamento e dos recursos para o sector e não na qualidade e competência dos médicos e enfermeiros. Agora, se me pergunta se o atual hospital Dr. Nélio Mendonça e os centros de saúde têm condições, eu não sei dizer. Caberá a quem ficar com a responsabilidade de implementar o terceiro ano avaliar quais as melhores estruturas.

FN- E sobre a perspetiva de o curso ser ministrado integralmente na Madeira?

IT – Nessa matéria, tenho as minhas reservas. Acho que não é uma opção acertada, isto por duas razões. A primeira tem a ver com a Agência de Avaliação e Acreditação (AAA), a entidade responsável pela validação dos cursos universitários. Trata-se de uma estrutura que é muito exigente no que toca ao corpo docente, cuja qualidade se mede pelo número de doutorados, entre eles, catedráticos, associados e auxiliares. Ora, a UMa tem docentes doutorados, que estiveram no projeto desde a primeira hora, como é o meu caso, mas que não são da área médica, pertencendo sim às áreas da Bioquímica, da Imunologia e da Bioquímica Fisiológica. As ditas cadeiras médicas, como as Anatomias, Fisiologia e Introdução à Medicina, são ministradas por médicos locais que, diga-se de passagem, têm realizado um trabalho excecional na consolidação do projeto. No entanto, têm de ser doutorados. Acontece que, atualmente, na área médica, temos apenas um doutorado na Madeira que é o doutor Celso Silva.

Sei que o SESARAM tem feito um grande esforço para que os médicos, sobretudo os mais jovens, possam prosseguir a sua carreira académica paralelamente à clínica, para se doutorarem, mas isto leva algum tempo, até que se forme um corpo docente e uma massa crítica acompanhada de investigação.

A segunda questão é bem mais complexa. Prende-se com a dimensão da Região. Somos só 250 mil habitantes. O número de patologias é muito inferior àquele que um aluno encontrará num dos grandes hospitais do país, como o Santa Maria, em Lisboa, ou o São João, no Porto, onde contactam com meios de diagnóstico e tratamentos cada vez mais diferenciados. Creio que essa experiência, durante a fase de formação, é fundamental para que no futuro os médicos possam ter capacidade para lidar com a diversidade e complexidade de casos e possam prestar cuidados de saúde de qualidade.

Concluindo, as minhas reservas à vinda do curso integral para a Madeira não têm a ver com a idoneidade e competência dos médicos de cá para lecionarem, mas sim com os condicionalismos, na complexidade e diferenciação dos casos clínicos, que possam registar-se numa população com a nossa dimensão.

FN – Mas os restantes cursos ministrados pela Universidade da Madeira estão também confrontados com essa contingência e, no entanto, são integralmente cumpridos na Região.

IT – Repare, não estou a menosprezar os outros cursos em relação à Medicina e até estou à vontade para falar por que sou farmacêutica – aliás, esse curso até podia ser ministrado cá -, mas estar a comparar a formação de médicos com outras áreas não é correto. Porque não têm as especificidades de formação que o curso de medicina impõe, e que passa pelo treino no terreno, em contacto direto com doentes, quer nos hospitais, quer nos centros de saúde.

(Foto Rui Marote)

FN – O próprio secretário regional da Saúde, sendo médico e tendo integrado a equipa docente do curso, na Região, deverá estar ciente dessa realidade. Como explica então as suas declarações, quando preconiza o aprofundamento do protocolo entre a UMa, a Faculdade de Medicina de Lisboa e o hospital do Funchal, no sentido de os restantes anos virem a ser lecionados aqui “num futuro muito próximo”?

IT – Eu percebo a vontade do dr. Pedro Ramos, em avançar com o processo. Conheço-o muito bem, é um profissional pragmático, que sempre acreditou e se dedicou muito ao projeto. Mas, entendo ser prematura – e até corre-se o risco de criar falsas expectativas – esta ideia de um curso de Medicina totalmente ministrado na Madeira.

Mesmo que seja ultrapassada a questão do corpo docente formado por médicos doutorados e da tal massa crítica necessária, haverá sempre a contingência estrutural que é a nossa dimensão. Esta é a minha visão, de quem trabalhou desde o início neste projeto.

FN – Acredita neste secretário regional da Saúde, nas questões do curso de Medicina e do novo hospital?

IT – Trabalhei com ele entre 2004 e 2011 e tenho a melhor das impressões do dr. Pedro Ramos. Conheço-o como uma pessoa muito objetiva e dinâmica, que gosta de passar à ação. Numa análise à sua prestação como titular da pasta da Saúde, ele tem tido a preocupação de mostrar que está a fazer coisas, concordemos ou não.

FN – Sendo uma pessoa conhecedora, que recomendações faria aos responsáveis do Governo Regional e da UMa, no sentido de garantir o sucesso desta nova etapa do curso?

IT – Que tenham muita prudência e sejam exigentes com a qualidade, garantindo os meios necessários para que os nossos alunos fiquem tão bem preparados como os seus colegas que estão no continente. Os processos e critérios de avaliação, em linha com os procedimentos da FMUL, devem igualmente ser mantidos ao longo do terceiro ano, que tem já uma vertente mais clínica, de avaliação de casos em contacto com o doente ou em situação de simulação.

Os dois primeiros anos foram um sucesso porque fomos exigentes e não tivemos medo de ser avaliados. Neste momento, há muito menos pressão, porque o processo conta com um capital de confiança que não tivemos no início.

FN – Aceitaria regressar ao projeto do curso de Medicina na Região?

IT – Não nego que é um trabalho de que me orgulho muito. Foi a minha maior realização profissional. Sinto que fiz algo de útil à sociedade, ajudando muitos alunos a terem acesso à medicina, promovendo um salto qualitativo no prestígio da universidade e contribuindo assim para a melhoria dos níveis da qualidade de saúde na Região.

Eu gosto muito de lecionar e tenho já saudades desse desafio, que nos obriga a estudar e atualizar os conhecimentos. Se tivesse de dar uma aula outra, não havia problema nenhum.

Nota: Isabel Torres é licenciada em Farmácia pela Faculdade de Farmácia de Lisboa e doutorou-se em Bioquímica Clínica, em 2000, na Universidade da Madeira, com um estudo comparativo sobre os efeitos benéficos dos ácidos gordos Ómega 3 nas doenças cardiovasculares, nas populações de Câmara de Lobos e do Curral das Freiras.

Aposentada das funções de docente universitária, é atualmente deputada pelo CDS-PP e uma das três vice-presidentes da Assembleia Legislativa Regional.