Curso de Medicina na Madeira: da polémica ao sucesso

(Foto Rui Marote)

Numa altura em que se perspetiva a vinda do terceiro ano de Medicina para a Madeira, Isabel Torres, uma das figuras centrais no processo de instalação do curso na UMa, quer avivar memórias. A ex-vice reitora recorda o percurso de um projeto de interesse regional e nacional, sem margem para falhas nem concessões em matéria de exigência e qualidade.

Os dois primeiros anos do curso de Medicina com mestrado integrado são ministrados na Região, desde 2004, fruto de um protocolo entre a Universidade da Madeira (UMa) e a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Correspondem ao chamado ciclo básico, no qual se integra a componente pré-clínica da formação.

Passados doze anos, a possibilidade de a UMa vir a lecionar os três primeiros anos de curso volta a estar em cima da mesa. Uma oportunidade para conhecer protagonistas, episódios e factos que acompanharam a implementação do curso na ilha.

Os mentores

A ideia de trazer os quatro semestres iniciais para a Madeira surgiu em 2002, numa conversa informal entre Rúben Capela, o então reitor da UMa, e João Lobo Antunes, na altura o presidente do conselho científico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. São eles os mentores do projeto e apoiantes incondicionais de um modelo que previa a evolução até ao terceiro ano e, eventualmente, algumas componentes dos últimos semestres do curso no Hospital do Funchal, de forma a permitir a chancela das duas instituições na atribuição do título académico.

João Lobo Antunes

O ciclo básico de Medicina teve o seu arranque inaugural a 15 de outubro de 2004, após dois anos de negociações intensas entre a UMa, o Ministério da Ciência e Ensino Superior de então e a FMUL, recebendo total apoio do Governo Regional e aprovação unânime no seio da instituição de ensino superior madeirense.

Mas houve também vozes discordantes. Cá e lá, fazendo recair sobre a instituição regional uma visibilidade e pressão enormes.

A ex-vice reitora da Universidade da Madeira conta ao FN como foi acompanhar o projeto desde o início, na qualidade de coordenadora geral e de professora associada do Departamento de Ciências da Saúde da UMa, cargos que desempenhou até 2011, altura em que se afasta da instituição e do projeto. “Foi a fase de maior realização pessoal e profissional da minha vida”.

Os objetivos

A conversa de Rúben Capela e Lobo Antunes marca a viragem. Logo após esse primeiro contacto, em 2002, é realizada na Madeira uma reunião entre os representantes das duas universidades e o Governo Regional. Um encontro ao mais alto nível, em que participam os reitores e a responsável pela pasta da Saúde, Conceição Estudante. O encontro, que teve lugar na então Secretaria Regional dos Assuntos Sociais, contou ainda com a presença do diretor clínico à data, Filomeno Paulo.

Estava assim dado o pontapé de saída. Feita uma primeira análise às instalações e aos recursos existentes no complexo universitário do Tecnopolo, nomeadamente em matéria de laboratórios vocacionados para as valências dos dois primeiros anos do curso, a FMUL dá luz verde para avançar, reconhecendo capacidade e qualidade à sua parceira madeirense.

A partir desse ano, começa a ser estudada a viabilidade do projeto que teve sempre na sua génese consolidar uma parceria académica entre duas instituições de ensino superior, visando cumprir três objetivos: aumentar o número de vagas para medicina a nível nacional e consequentemente colmatar a falta de médicos, reforçar o acesso dos alunos madeirenses ao curso, que até então era apenas ministrado no continente, e afirmar o prestígio da Região, através da sua universidade. Definir o número de vagas, regulamento do concurso e o financiamento eram, numa primeira fase, os desafios a ultrapassar.

Vagas e financiamento

Isabel Torres, que era já nessa altura vice-reitora da UMa, é então nomeada por Rúben Capela para coordenadora geral para a área da Saúde da universidade, passando a reunir amiúde com os responsáveis do Ministério do Ensino Superior, na altura tutelado pela ministra Graça Carvalho. Foram dois anos muito trabalhosos, que culminaram naquilo que avalia como “resultado muito bom”: 35 vagas anuais, metade das quais destinadas aos madeirenses ao abrigo do contingente regional.

No seguimento do processo, a UMa consegue igualmente um financiamento de 3,8 milhões de euros através de um contrato-programa assinado com o ministério de Graça Carvalho, para o período entre 2004 e 2007. “O que poucas pessoas sabem é que estas verbas acabaram por beneficiar toda a universidade, não apenas a Medicina”, explica Isabel Torres. “Este dinheiro serviu efetivamente para a contratação de docentes externos e para a criação da Unidade de Ciências da Saúde, mas foi também distribuído por outros cursos, na aquisição de equipamentos, no apoio à mobilidade de professores entre universidades parceiras e adequação da UMa ao espaço europeu, ao nível do ensino superior. Ou seja, a chegada do ciclo básico de Medicina acaba por trazer benefícios importantes para toda a instituição.”

Uma inovação chamada videoconferência

À nova oferta formativa são alocados cerca de 850 mil euros, um investimento que recai sobretudo no sistema de videoconferência, uma das pedras basilares do modelo a seguir. A ideia era avançar com uma abordagem inovadora. “Eu não queria que os alunos tivessem aulas só aos fins de semana, como até então tinha acontecido com as chamadas extensões”, recorda Isabel Torres. “Para mim, tinham de ter aulas ao longo da semana, nos mesmos moldes e em simultâneo com os seus colegas em Lisboa. Era um ponto fundamental”.

Com recurso à videoconferência, os alunos na Madeira acompanhariam as aulas teóricas de anatomia e de fisiologia ministradas pelos docentes doutorados da área clínica, em tempo real, cumprindo assim um dos principais requisitos impostos pela autoridade de acreditação dos cursos de ensino superior. Esta abordagem permitia aos alunos não só assistirem às aulas em simultâneo, como também interagirem e participarem ativamente no processo de ensino-aprendizagem.

Foi uma aposta ganha, garante a docente e investigadora, na medida em que os alunos eram depois orientados localmente, na vertente prática, pelos médicos que trabalhavam no projeto como assistentes, e pelos professores doutorados da UMa, nas restantes áreas não médicas (bioquímica, bioestatística, psicologia).

Foram 19 os médicos que, na Região, integraram a equipa inicial de docentes dos dois primeiros anos do curso, entre eles o atual secretário regional da Saúde, Pedro Ramos. Isabel Torres, professora associada dos quadros da UMa, lecionando a cadeira de bioquímica, fez parte do júri que selecionou os profissionais de saúde. Faz questão de referir os restantes nomes: António Brazão, António Quintal, Aires Teixeira, Celso Silva, Fernando Baptista, Filipa Capelinha, Gil Bebiano, Gil Silva, Graça Silva, Herberto Jesus, Ibraim Coelho, João Pedro Mendonça, José Duarte Saunders, Luís Miguel Resende, Luís Rufino Nascimento, Michelle Santos, Pedro Lima e Rosa Henriques.

Do corpo docente inicial fizeram ainda parte docentes doutorados da UMa e especialistas em genética e imunologia dos quadros do Instituto Gulbenkian, contratados pela instituição madeirense. “Foi um processo de seleção fundamentado unicamente em critérios de competência”, sublinha a ex-coordenadora do curso. “A pressão e as expectativas eram muito grandes. O projeto não tinha margem para falhas”.

Os ataques de bastonário e ministro

Com efeito, ao contrário do Governo Regional que apoiou a vinda do curso para a Madeira desde a primeira hora, disponibilizando os recursos do sistema regional de saúde necessários à formação dos alunos, outras entidades manifestaram-se contra. “Apesar de todas as garantias de financiamento, de idoneidade do quadro docente e do apoio institucional, assim que é anunciada a abertura do curso surgem as contestações da parte de alguns sectores da sociedade e de muitos profissionais. O bastonário da Ordem dos Médicos, Germano de Sousa, vem a público alegar que o curso na Madeira desprestigia o ensino da Medicina em Portugal; o presidente da secção regional da OM, França Gomes, insurge-se contra o que chama de médicos de segunda; o próprio ministro da Saúde Correia de Campos considera um atentado. Foram críticas arrasadoras. O curso estava muito exposto e havia uma grande pressão, pelo que tínhamos de fazer bem, no sentido de ganhar confiança e credibilidade”.

(Foto Rui Marote)

Os resultados e os prémios

E foi o que veio a acontecer. As resistências iniciais foram ultrapassadas graças ao trabalho de sensibilização de Lobo Antunes e aos resultados que foram sendo consolidados ao longo do tempo.

Todos os anos, entram para o ciclo básico, na Madeira, entre 35 a 40 alunos, jovens motivados e bem preparados que têm conseguido completar o seu percurso académico em Lisboa com sucesso, tornando-se médicos nas mesmas condições e com competências idênticas às dos restantes colegas. “Nunca houve diferenças entre os nossos alunos e os seus colegas da FMUL”, garante a professora universitária. “Os alunos da Madeira sempre fizeram os mesmos exames, no mesmo dia e hora, que os colegas em Lisboa, sendo submetidos aos mesmos processos e critérios de avaliação. A equidade e transparência estiveram sempre garantidas. Chegamos a ter alunos com as notas mais altas do seu ano em algumas disciplinas e que receberam prémios na Faculdade de Medicina de Lisboa”.

Para a história fica Inácio Reis, o jovem madeirense que, em 2006, veio a conquistar o Prémio Medinfar de Fisiologia Moniz Bettencourt, graças à nota de 19 valores obtida nesta disciplina, no segundo ano de curso.

No ano anterior, também Daniel Caldeira obtivera a classificação mais alta (19 valores) na disciplina de Anatomia.

Os dois jovens integraram a primeira turma do ciclo básico de Medicina da Universidade da Madeira, fazendo parte dos primeiros 33 alunos que rumaram para Lisboa, no terceiro ano, para concluírem a licenciatura.