Especialistas debatem pintura flamenga no Museu de Arte Sacra, porque “a cultura é um bem precioso que só eleva e se enriquece quando se partilha”

Fotos: Rui Marote

Decorre hoje no Museu de Arte Sacra uma conferência promovida por esta instituição museológica, que reúne no Funchal académicos, investigadores e professores em torno do tema “A Pintura Flamenga dos séculos XV e XVI – Arte e Ciência”. Intervenientes nesta acção, aliás creditada como formação para docentes das escolas da Região, estão doze investigadores regionais, nacionais e internacionais que produziram trabalho relacionadop com a pintura flamenga em diversos domínios, na História, História da Arte, Química, Ciências da Arte, Arte e Património e Conservação e Restauro.

O Museu destaca particularmente a presença da investigadora Christina Anderson, doutorada pela Universidade de Oxford, e com vários livros publicados sobre as temáticas do mercado e da diáspora flamenga, e de Fernando António Baptista Pereira, especialista com obra publicada em História da Arte e Museologia, que proferiu a conferência de abertura, intitulada “Pintura flamenga importada para a Madeira, dos finais do séc. XV a meados do séc. XVI: oficinas, mecenas, devoções”.

Segundo a direcção do Museu, nestas conferências “procura-se (…) sobre o fundo histórico-cultural de referência e a partir da matriz temática e artística do museu, promover um encontro anual de debate e partilha de conhecimentos, ao nível da investigação científica desenvolvida em torno da arte e da museologia, podendo, igualmente, as diversas palestras e abordagens virem a tocar temas que se cruzam, directa ou indirectamente, com a herança artística e patrimonial que fazem parte da Cultura da Região Autónoma da Madeira”.

Hoje de manhã, na sessão de abertura desta iniciativa, o director do Museu de Arte Sacra do Funchal, João Henrique Silva, salientou o modo como a criação deste evento anual pretende “congregar e partilhar um conjunto de saberes especializados” sobre a arte flamenga, escolhida como vector da reflexão e do debate por ser “o núcleo mais identitário deste museu e por ser, em termos patrimoniais, aquele que mais concita a atenção dos investigadores e as preferências dos visitantes”.

O director referiu que se pretende com estas conferências “fazer uma afirmação – audível e visível – de uma estratégia de programação que, centrada na singularidade única desta colecção, quer incentivar mais conhecimento, mais divulgação, mais atractividade e mais visitantes”. João Henrique Silva sublinhou a perspectiva de que “a cultura é um bem precioso que só eleva e se enriquece quando se partilha” e insistiu em que “a compreensão e a valorização da extraordinária beleza das peças de arte que integram os museus de arte sacra não obrigam a adoptar uma hermenêutica da exclusão face ao postulado de fé que está na origem desses bens”.

“Descontextualizados que foram os objectos e as peças de arte religiosa pela progressão da história, é agora ao museu que cabe explicar e compreender, recuperar a semântica fundadora, evocar a matriz cristã para a iluminação destes santuários onde a beleza e o sentido da grande arte podem configurar, talvez, um vislumbre de transcendência (…)”.

Hoje, além de Fernando António Baptista Pereira, falou também Isabel Santa Clara, sobre ‘Importações flamengas na segunda metade do século XVI – o exemplo das pinturas de Michiel Cocxie na Sé do Funchal’; Christina Anderson, sobre a diáspora mercantil flamenga e o seu legado artístico na Madeira e através da Europa, no período compreendido entre 1450 e 1650 e Alberto Vieira, sobre a temática da gestão de excedentes e da riqueza da economia açucareira madeirense dos sécs. XV e XVII. Também António Candeias, abordou o contributo dos métodos de exame e análise no estudo do património, nomeadamente nas pintura do MASF e da Sé do Funchal, Sara Valadas falou sobre “Novas Perspectivas sobre a obra atribuída a Frei Carlos’ e Alexandra Lauw e Helena Pereira comentaram “O estudo dendrocronológico na colecção de pintura flamenga do MASF”. Regina Andrade Pereira comentou, finalmente, a pintura flamenga ‘Fons Vitae’ da Misericórdia do Porto e o contributo das ciências da arte para o seu estudo.

Amanhã estão previstas intervenções de Teresa Desterro, do Instituto Politécnico de Tomar, sobre ‘Os ecos madeirenses na obra pictórica de Francisco de Campos’; de Carolina Ferreira, do Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes/FBA-UL, sobre o estudo das intervenções de Fernando Mardel nas pinturas do MASF; de Mercês Lorena, do Laboratório José de Figueiredo, sobre a pintura flamenga em Portugal – os retábulos de Metsys, Morrison e Ancede; estudo técnico e material; e Alice Nogueira Alves, do Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes/ FBA-UL, sobre ‘A Virgem Maria nas representações do Calvário e da Descida da Cruz – Uma história secular de pinturas, de repintes e de restauros’.