Recolhimento do Bom Jesus ao abandono: mais assessores na Cultura mas património por salvar

Quem acode ao Recolhimento do Bom Jesus e respetiva Igreja? Fotos FN.

Discreto mas praticamente a ocupar um quarteirão da rua, ergue-se o histórico imóvel de seiscentos com o nome de Recolhimento do Bom Jesus, com a sua não menos emblemática Capela do Bom Jesus da Ribeira.

Rico em história, o número três da Rua do Bom Jesus há muito que clama por urgentes obras de recuperação da tutela, em primeiro lugar da titular do imóvel, a Diocese do Funchal, e também pela entidade que coordena a Cultura nesta terra, a Direção Regional de Cultura. A Câmara Municipal do Funchal também não está isenta de intervenção, já que o imóvel degradado não abona em favor de uma cidade cosmopolita mas também cultural. Todos remetem-se ao silêncio, até prova em contrário, privilegiando as ocorrências mediáticas para posarem no retrato.

O imóvel não está abandonado porque lá habitam mulheres em situação de manifesta indigência, também elas a viverem, há anos, em condições muito precárias. É que o estado físico do imóvel continua a degradar-se e o aspeto exterior desta edificação, com remendos na parede que dá para a via pública são indisfarçáveis.

O silêncio que cobre esta construção de outras eras caminha a par da contínua degradação. Quem toca à campainha, demoradamente encontra uma resposta que pouca ou nada orienta o interlocutor. Quem lá vive, com a sua chave, entra e sai, e de vez em quando partilha com alguém muito chegado o estado de abandono do imóvel e a falta de uma orientação capaz de ocupar e dinamizar os seus habitantes, cada uma delas com um percurso de vida madrasta. Acabam os seus dias ali, debaixo de uma construção cada vez mais húmida e vulnerável ao tempo rebelde e agreste de inverno. Alguém dá por elas?

Com alguma paciência da nossa parte, lá conseguimos falar com quem entra no Recolhimento mas para partilhar uma expressão de resignação porque “as coisas são como são” e “há muito que nos vamos habituando a isto”. Afinal, ter este teto é sempre melhor do que dormir na rua ou ficar num corredor do hospital a engrossar a lista das altas problemáticas. Mas, apesar das poucas palavras que muito dizem, acrescentam que, de vez em quando, a Direção Regional da Cultural promove o Festival de Órgão na Igreja que integra o conjunto arquitectónico. Por lá sobrevive um pequeno mas importante órgão que ainda canta apesar de decorar um templo a necessitar de obras de recuperação. Mas deixam-nos um alerta: “As manchas de humidade são visíveis no exterior e, sem nenhuma intervenção de restauro, ninguém está livre de incidentes…”

Depois, sem mais delongas, até porque “as paredes têm ouvidos”, o retorno ao recolhimento. Entretanto, na rua, não há tréguas para o trânsito e para a multidão que por ali circula diariamente, a maioria indiferente à rica história do seu património edificado e classificado como é apenas um exemplo o Recolhimento do Bom Jesus.

A Direção Regional de Cultura, que habitualmente vai chamando ao seu serviço figuras conhecidas para zelar e promover  estes imóveis classificados, parecem passar pelas instituições com o mesmo silêncio deste imóvel assaz degradado. Quase que se não dá conta do que fazem e como justificam os lugares de consultores ou de assessores ou até de outro léxico que tudo enquadra.

Da parte da Igreja, esta continua a braços com uma diversidade de imóveis históricos, até mesmo no centro da cidade, de que o Seminário da Encarnação é apenas um exemplo, mas sem recursos económicos e até humanos para uma intervenção mais do que justificada. Também não se conhecem movimentações firmes e publicamente assumidas do clero para apelar a este restauro, ou então, eventuais candidatura a fundos nacionais  e comunitários para recuperar tanto património degradado.

De nada valem os pergaminhos deste edifício, um exemplar da estética barroca, do século XVII, que guardará algumas peças valiosas de seiscentos, destacando-se um pequeno mas valioso presépio em caixa de vidro.

Há largos anos que os defensores do património madeirense, normalmente figuras ligadas à História, vêm alertando para a necessidade de haver uma política concertada de recuperação dos edifícios classificados, de valor incontestável. Estes são normalmente encarados pelo poder político como os arautos da desgraça ou vítimas de ressabiamento ou ainda gente comprometida com os conflitos ou a política do “bota abaixo”. Silencia-se, à velocidade cruzeiro, quem percebe do assunto porque incomodam. E são vários os nomes que se remetem a um silêncio sofrido porque sofrem com estes “atentados” à memória histórica de um povo. Resultado: entrega-se a defesa do património ao senhor ou à senhora que se segue para ir gerindo a crise. Enquanto se faz de conta que algo se está a fazer, para além das importantíssimas aparições públicas para a fotografia, os símbolos arquitectónicos da nossa cultura madeirense degradam-se a passos largos, à mercê de prioridades de um povo que poderia valorizar estes ícones e mostrar ao turismo que tanto procura a Madeira.