Até a precariedade já é encarada como natural e a luta é vista como uma coisa de gente velha

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Guida Vieira é uma mulher de lutas e no espaço Paulo Martins mantém viva a memória de um homem, também ele, de causas. Foto Rui Marote

Que é feito de…” pretende constituir um espaço onde a escrita discorre pela vida de figuras que, em diversas atividades, marcaram a vivência da sociedade madeirense ao longo dos tempos, através de ações que, em diferentes e muitas vezes difíceis conjunturas, acabaram por constituir momentos que ficaram gravados no processo de construção da Madeira em contexto autonómico. Muitos ainda assumem um papel ativo na Região de hoje, com um olhar interventivo no presente, com uma fórmula pensada para o futuro, mas sempre com o conhecimento que transportam de um passado preenchido com verdades e mentiras, com alegrias e tristezas, com gente à volta ou com o peso da solidão.

Se há pessoas que marcaram a vida madeirense e atravessaram, com essa marca, diversas gerações, num misto de vitórias e derrotas, mas sempre com o querer acima do triunfo e com os ideais do coletivo à cabeça, Guida Vieira é uma delas, indiscutivelmente um dos pilares de várias lutas, em momentos muito diferentes daqueles que hoje vivemos, onde a defesa pelas liberdades e os pensamentos distintos, bem como a conquista de pequenos direitos, que se tornaram grandes com o tempo, eram suficientemente gratificantes para que os ódios de estimação passassem ao lado de um processo.

Sabor amargo dos tempos de crise

Hoje, provavelmente com um sabor amargo dos tempos de crise, Guida Vieira não desiste de intervir. Da forma que sabe, falando do que sabe e lutando por aquilo que considera importante para que os tais pequenos direitos se tornem tão grandes quanto o seu propósito de continuar. Mesmo que o “golpe” mais profundo da sua vida, a perda do marido, Paulo Martins, (líder da União Democrática Popular, deputado na Assembleia Regional, outra figura de grande relevo na política madeirense, respeitado por todas as forças políticas, da direita à esquerda, o que, como se sabe, não era fácil), fosse um momento de apelo à desistência, ao baixar de braços. Reergueu-se, com a mesma força de sempre e começou a fazer coisas e a dizer coisas.

Neste Dia da Mulher, “Que é feito de…”, um novo espaço do FN, faz todo o sentido que esteja apontado a Guida Vieira, uma força do processo sindical madeirense, uma defesa intransigente dos direitos das mulheres, em casa, no trabalho, na sociedade. E com um facto relevante na sua história política: pela primeira vez, enquanto deputada municipal, no Funchal, pelo Bloco de Esquerda, integra um projeto de poder. Para uma mulher de oposição, que começou a fazer política em 74, é um desafio quase 43 anos depois.

Livro sobre Paulo Martins sem memórias pesadas

À pergunta “onde tem andado Guida Vieira”, responde com um “tenho andado sempre por aqui. Passei por tempos difíceis, com a doença e a partida do meu marido, mas tento fazer o meu luto fazendo coisas, particularmente aquelas que me dão mais prazer e realização”.

Gosto muito de escrever e já a algum tempo que estou a trabalhar para a edição de um livro dedicado ao Paulo. Um livro que queremos, eu e a minha filha, que não seja de memórias pesadas ou de transcrições de textos seus. Se fosse para fazer isso nunca mais ficava pronto e seriam necessários vários volumes. Talvez um dia alguém se interesse por essa parte da história. Queremos um livro, que mostre o Paulo como um grande homem que foi, e explique o seu pensamento político, enquanto foi líder político nesta Terra difícil, de fazer política e oposição a sério”.

Para além disso, hoje, tem uma participação na UMAR, Associação de Mulheres que “em 2014 abriu uma sede na Madeira, e o ano passado comemorou 40 anos de existência, e da qual sou fundadora. Atualmente sou sua dirigente nacional.

Sempre gostei de trabalhar com as questões das mulheres e da importância que tem continuar a trabalhar para que exista uma nova mentalidade, que encare a igualdade de género, como fundamental para se construir uma sociedade mais igualitária e mais justa. Contacto com muitas pessoas, associações e instituições que comungam dos mesmos interesses e está a ser uma experiência fantástica. Sou também a Conselheira Municipal para a Igualdade de Género no Município do Funchal, que tem desenvolvido um trabalho único nesta área na Madeira. Sou Deputada Municipal do Bloco de Esquerda, integrada no Grupo Municipal Mudança, que governa a cidade do Funchal. Tenho passado por uma experiência muito interessante, porque pela primeira vez, faço parte de um projeto de poder, o que nunca tinha acontecido no meu percurso político”.

Reconhece que os tempos são diferentes, “tendo em conta que entrei para a atividade associativa e política a partir de Outubro de 1974, mas em outras condições. Os desafios são sempre aliciantes, para quem gosta de intervir e desenvolver atividade militante”.

As conquistas das bordadeiras

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A luta pelos direitos das bordadeiras foi uma das “bandeiras” ganhas por Guida Vieira. Foto Rui Marote

Valeu a pena dedicar todo o seu tempo à política e à defesa dos trabalhadores, nas funções sindicais que desempenhou, num quadro bastante difícil, nada favorável à luta pelos direitos das mulheres, em todas as suas vertentes?

Guida Vieira diz que sim: “Valeu bem a pena todos os anos dedicados à luta sindical na defesa de direitos, particularmente para quem nada tinha como foi o caso do setor dos Bordados de onde sou operária reformada. Ainda hoje quando ando pela Ilha, e as pessoas me chamam pelo nome, e me saúdam pelas conquistas, particularmente a reforma aos 60 anos para as bordadeiras, acho que realmente a minha missão foi cumprida, como explico no livro que publiquei em 2010 com este título. Foram para mim tempos mágicos em que lutar dava prazer. Em que a solidariedade fazia parte do nosso vocabulário, em que participar nas lutas, reuniões e manifestações eram momentos solenes e importantes.

Em Outubro do ano passado, a UMAR editou um livro, coordenado por mim e pela Assunção Bacanhim, cujo título é “AS IMAGENS FALAM POR ELAS” onde ficou registado para a história essa grande participação das mulheres nas lutas. Acho que realizamos um trabalho, que ocupou 26 anos, a tempo inteiro, da minha vida, mas que deixou marcas, que jamais serão esquecidas. Na conquista de direitos e na afirmação das mulheres enquanto seres humanos capazes, em todos os sentidos para dirigir, propor, negociar, reivindicar, lutar e conseguir”

Jovens acham que não precisam lutar

Ao lado de Paulo Martins, uma figura de relevo na política madeirense, e não só, que nunca abdicou de princípios em defesa das liberdades, quando poderia ter seguido percursos mais fáceis, lutou também por algumas conquistas que entretanto foram alcançadas. Mas face ao retrocesso que algumas delas sofreram, como vê essas lutas à luz do que se passa hoje? “Hoje a situação é diferente porque muitas conquistas começaram a ser dadas como adquiridas por toda a gente”, responde Guida Vieira, que logo de imediato toca num ponto sensível do ponto de vista da forma como as novas gerações se posicionam perante as causas: “Muitas pessoas, particularmente as mais jovens, acham que não precisam lutar. Quando se fala da palavra luta a mesma é vista como uma coisa de gente velha, antiga. Hoje é tudo mais moderno até a precariedade já é encarada como natural. Lutamos tanto para que o trabalho fosse exercido com direitos. Foi uma alegria reduzir o horário de trabalho, receber subsídio de férias e de Natal, entre outros. Há trabalhadores/as que hoje ainda não têm acesso a estes direitos e isso é muito triste e um recuo inadmissível”.

Lutar com persistência é e será sempre moderno

Na perspetiva da nossa entrevistada, “há muita coisa que tem que ser atualizada, e se calhar as formas de luta também. 42 anos depois do 25 de Abril, é natural que algumas alterações tenham que ser feitas, para chamar à participação quem ainda não tem direitos. O que não podemos fazer, é desistir dos direitos alcançados, em nome de falsas modernidades, ou então não lutar, porque isso é coisa do passado.

Tem que haver mais inovação, mais articulação com as novas tecnologias. Mas continuar a lutar com persistência, é, e será, sempre moderno, se soubermos o que queremos, e não desistir até conseguirmos”

Falta mais democracia nas eleições sindicais

Num quadro de crise, o movimento sindical perde força. Num ambiente político como o da Madeira, acentuou-se ainda mais ao longo dos anos. Acha que o sindicalismo perdeu força? Como classifica esse movimento, hoje, no país e na Região?  

Preocupa-me muito, o facto dos sindicatos, estarem com tantas dificuldades em acertar o passo com a maioria dos/as trabalhadores/as. É visível, as dificuldades de mobilização, e isso reflete-se no conseguir as reivindicações.

Acho que faz falta mais debate de ideias, mais democracia nas eleições sindicais, abrindo os estatutos, de maneira que, quem quiser, possa, não só concorrer com mais listas, como as mesmas poderem ficar representadas nos órgãos dos sindicatos, como acontece já hoje em muitos outros coletivos”.

Democracia sindical não pode ser uma fraude

Para Guida Vieira, a imagem que passa dos sindicatos “é muito gasta e fraca e é preciso mudar isto para atrair mais gente nova. Para isso os mais velhos têm que saber recuar para outros avançar. É a lei da vida e isso é urgente. Também considero, que pessoas não eleitas democraticamente, não se deveriam apresentar, publicamente, como dirigentes sindicais. A democracia sindical não pode ser uma fraude”.

Tradicionalmente, caraterizou-se o sindicalismo como um espaço/direito da esquerda. E ainda hoje é muito assim. Não será um pouco redutor o facto de estarmos perante um movimento com estas caraterísticas? “A função sindical pode ser exercida por qualquer pessoa, desde que tenha o apoio de quem a elegeu, que são os/as trabalhadores/as. Acontece que são sobretudo pessoas de esquerda, que mostram mais apetência para exercer essas funções. Raramente gente ligada à direita quer ser dirigente sindical, tirando, algumas exceções, em alguns sectores específicos, em que isso acontece”.

A Madeira é boa, o problema são os bichos que a roem”

Nos contactos que faz, no seu dia a dia e nas funções que desempenha, além do conhecimento que tem do mundo da política e do mundo do trabalho, Guida Vieira considera que, em termos de retrato que se possa fazer, da Região, é o de que “começa a ser vista um pouco melhor nos últimos tempos. Eu sou suspeita ao falar da Madeira, porque embora me sinta uma cidadã deste mundo, adoro a minha Terra e não quero outro lugar para viver. Um dia tive um camarada que disse uma frase que nunca mais esqueci “a Madeira é boa o problema são os bichos que a roem”. E é isso mesmo. Não somos, nem melhores, nem piores que os outros. Temos coisas boas e também problemas que se encontram em qualquer lugar do País, excetuando o poder absoluto de um partido que nos governa há mais 40 anos. Felizmente que o facto de termos Municípios dirigidos por vários partidos, ajudou a desbloquear algumas mentes, que nos viam como “aves raras” numa Ilha rodeada de mar por todos os lados”.

Se não houvesse oposição, a democracia seria mais fraca

E o novo enquadramento político na Madeira? Diz-se que a oposição, na Região, sempre teve fragilidades e, por isso, o poder instalou-se mais facilmente sempre do mesmo partido. É por ser difícil o desempenho da oposição?

Guida Vieira é de opinião que este “novo enquadramento prende-se sobretudo com o poder autárquico não ter sido do mesmo partido, como era antes. O Funchal tem tido um papel fundamental para uma política mais arejada, mais democrática, mais popular e mais igualitária. Os outros Municípios também têm feito um bom trabalho e acho que as populações locais têm beneficiado muito com isso. Espero sinceramente que este caminho, se consolide e alargue, com muitos êxitos, para as pessoas.

E relativamente à oposição, afirma que assumir esse papel “nunca é fácil porque as armas são muito diferentes. Para além da dispersão da oposição, por demasiados partidos, o que fragmenta ainda mais, mesmo assim o balanço que faço é que se não existisse oposição nesta Terra, a democracia era muito mais fraca e a vivência política muito mais pobre”.

Está a ser provado no País que existe outro caminho

No País, bem pelo contrário, a oposição vive um dos seus melhores momentos, integrando funções de poder, o que não era habitual. Como avalia o papel da esquerda nesta governação a que chamam “Geringonça”?

Não tem sido tarefa fácil, mas o momento que estamos a viver em Portugal é inédito, e, orgulho-me muito, do Bloco de Esquerda, ter tido um papel fundamental, com o desafio que a Catarina Martins colocou a António Costa, no debate televisivo, ainda antes dos resultados eleitorais. Nem tudo é fácil.

Mas está, lentamente, a ser provado que existe outro caminho para vencer as situações difíceis que o País atravessa, que não seja o de tirar direitos, a quem trabalhou, ou trabalha, como fez o governo de Passos Coelho”.

O maior problema da igualdade de género é de educação

Estamos a viver, hoje, o Dia da Mulher. Mais um em que há reflexão e festa, onde a mulher é o centro das atenções e tem o protagonismo nem sempre sentido no dia a dia, ao longo do ano. Guida Vieira, neste final de entrevista mas nem por isso num tempo menos importante, considera que “o maior problema na questão feminina é na educação. Acho que enquanto na escola não se introduzir, como obrigatório, o ensino sobre as questões da igualdade de género, vamos continuar a ter os problemas que hoje acontecem como a violência doméstica, que já levou ao assassinato de centenas de mulheres em Portugal”.

A violência no namoro, por exemplo, é outro dos problemas que a nossa entrevistada considera importante ter intervenção da escola: “Para prevenir a existência da violência no namoro, em que raparigas e rapazes, de 13, 14 e 15 anos acham natural forçar relações sexuais e violar a correspondência um do outro, a escola tem que exercer um papel.

Toda a comunidade educativa deve ser envolvida nesta grandiosa batalha. Os pais, e outros/as encarregados/as de educação, funcionários/as de apoio, entidades públicas, etc… Esta é a grande tarefa do futuro para conseguirmos ter uma sociedade mais igualitária e mais justa”.