É tudo uma questão de água! (Artigo escrito em homenagem a todas as vítimas do 20 de Fevereiro de 2010 e…)

icon-jose-marques-opiniao-forum-fn

 

Artigo escrito em homenagem a todas as vítimas do 20 de Fevereiro de 2010 e sobretudo para que o mesmo não volte a acontecer.

Na Natureza tudo está interligado, sendo que a complexidade dos ecossistemas e as relações existentes entre essa imensa quantidade de vida e o meio onde se insere obriga-nos a um esforço, empenhado e permanente se pretendermos aproximar-nos e compreender a realidade.

Para que uma reflorestação ou qualquer outra regeneração do ecossistema ocorra com sucesso é necessário entender como acontecem e se estabelecem os processos vitais, os ciclos biogeoquímicos, as relações ecológicas, identificando como potenciar o aumento da fertilidade, da produtividade e da biodiversidade no ecossistema que pretendemos regenerar. Mais importante que a intervenção em si, mesmo que a intenção seja plantar árvores e recuperar as serras da Madeira, é a criação de uma estratégica cujo objetivo consista na melhoria das condições ambientais básicas, para a regeneração da vida, favorecendo a Natureza e a sua evolução natural com a transformação rápida do carbono em nutrientes disponíveis para as plantas.

Por outro lado, as alterações climáticas forçam uma remodelação nos objetivos de conservação que, nos últimos tempos, têm-se concentrado sobretudo na manutenção das condições existentes ou na recuperação de algum estado histórico, mas atualmente, face às ameaças com que somos confrontados, impõe-se uma mudança de foco para a reativação das funções ecológicas básicas dos ecossistemas ao invés de uma mera preservação de comunidades de plantas e/ou animais.

Este entendimento deve recorrer, obrigatoriamente, ao uso de conhecimentos acumulados, tanto a partir da prática académica quanto a partir da prática produtiva, ou seja, ao uso do conhecimento científico e do saber ecológico local. Mas, esse entendimento obriga-nos também a perguntar e imitar sistematicamente a natureza rumo ao incremento da fertilidade e biodiversidade

Segundo John Dennis Liu (2016), Pesquisador Sénior da União Internacional para a Conservação da Natureza e Embaixador do Ecossistema para a Fundação Commonland,  “Se pretendemos direcionar uma estratégia de adaptação e mitigação das alterações climáticas provocadas pelo Homem temos que incrementar a biodiversidade, a biomassa e a matéria orgânica nos solos, pois estes são os elementos que determinam quanto carbono podemos sequestrar da atmosfera, este é o método que permite reciclar nutrientes a partir da rocha mãe (materiais geológicos) e reciclar nutrientes da matéria orgânica em putrefação.” É assim que a humidade é infiltrada e retida no sistema, permitindo a regulação natural do ciclo hidrológico e do clima. “Nós não precisamos de mais estudos, precisamos monitorizar e ver o que está a acontecer para que não tenhamos resultados não pretendidos”.

Não é novidade que o ambiente necessário para o desenvolvimento da vida implica água, matéria orgânica como fonte de carbono e solo como suporte físico e fornecedor de minerais. Nesta perspetiva, e se o objetivo for a reflorestação com espécies da Laurissilva, então a falta de água será sempre o fator limitante, pois o seu habitat natural caracteriza-se por uma permanência contínua de humidades relativas elevadas e ininterruptas, verão e inverno, pelo que a regeneração do sistema hidrológico assume um papel crucial e fundamental.

Regeneração do sistema hidrológico

Antes de mais é necessário ter uma perceção mínima da distribuição da água na Terra e saber que tal como os mares e oceanos têm a chave para a função termorreguladora global para o nosso planeta, a água na atmosfera tem um papel fundamental na regulação térmica local. O volume de água na atmosfera (nos três estados: sólido, líquido e gasoso) é aproximadamente dez vezes maior do que o volume de toda a água dos rios. Teoricamente, se toda a água da atmosfera caísse de repente sob a forma de precipitação, cobriria a superfície da terra com uma camada imaginária de 25 mm de profundidade.

Tabela 1: “Stocks de água na Terra - Agua durante a sua circulação na natureza”. Adaptado do livro “Novo paradigma da água”
Tabela 1: “Stocks de água na Terra – Agua durante a sua circulação na natureza”. Adaptado do livro “Novo paradigma da água”

As águas subterrâneas e a humidade dos solos representam 0,685% do total, excedendo muitas vezes o volume de água de todos os rios e lagos do mundo juntos (0,0101), pelo que a água presente nos solos é, em termos de volume e utilidade, mais importante que a água dos rios e dos lagos. Este misterioso e mal interpretado tesouro é, muitas vezes, negligenciado e como resultado, destruído.

Numa leitura atenta das obras de Jared Diamond, reputado biólogo evolucionário, fisiologista, biogeógrafo do qual o “Colapso” de 2007, é o livro que melhor aborda esta temática, ou da magnífica obra “Water for the Recovery of the Climate – A New Water Paradigm”, “Água para a Recuperação do Clima – Um Novo Paradigma da Água ” de Kravcík et al podemos apurar que a má gestão/utilização do solo, com consequências graves ao nível da infiltração, foram a razão basilar do colapso de todas as civilizações e que, nunca na nossa história, existiu tamanha rutura do ciclo curto da água á escala planetária

Estas obras, não só nos ajudam a perceber o ciclo de incêndios e enxurradas que nos atingem de perto, como também constituem uma fonte de inspiração, pois para além de nos proporem soluções, alimentam-nos de esperança, de que um novo futuro é possível.

O atual modelo hidrológico, o velho paradigma, que considerou a água como um recurso eternamente renovável, falhou e a verdade é que a água só é um recurso renovável, desde que o seu ciclo seja plenamente funcional, Fig. 3.

Nos últimos anos, e conforme as doutrinas do domínio do homem sobre a natureza, fomos construindo infraestruturas desde estradas, parques de zonas urbanas, estacionamentos, ribeiras e muitas outras de maneira a causar um aceleramento e rápido escoamento das águas pluviais, que fazem com que estas cheguem mais depressa ao mar, Fig.1.

Fig. 1 - Estrada construída recentemente nas Serras de S. António onde é visível o encaminhamento e aceleramento das águas para as ribeiras.
Fig. 1 – Estrada construída recentemente nas Serras de S. António onde é visível o encaminhamento e aceleramento das águas para as ribeiras.

Por outro lado, as zonas de montanha sobranceiras à cidade do Funchal encontram-se com graves problemas de infiltração devido ao ciclo de incêndios, ao tipo de coberto vegetal e à falta de vida no solo, tema já abordado nos artigos anteriores, Fig. 2.

Fig. 2 - Teste de infiltração efectuado no âmbito do projecto de avaliação das Serras de Santo António para implementação das novas metodologias de regeneração rápida dos ecossistemas, com o registo de 2 horas, 14 minutos e 39 segundos para infiltração de uma coluna de água de 140 mm.
Fig. 2 – Teste de infiltração efectuado no âmbito do projecto de avaliação das Serras de Santo António para implementação das novas metodologias de regeneração rápida dos ecossistemas, com o registo de 2 horas, 14 minutos e 39 segundos para infiltração de uma coluna de água de 140 mm.

A orografia existente, associado à falta de capacidade de infiltração da água nos solos de montanha, favorece um aceleramento das águas das linhas de cume para os vales e o que se verifica mesmo após grandes chuvas é que as zonas de cumeeira permanecem secas, fig. 4. As zonas cumeeiras são também mais desertificadas e desprovidas de vegetação o que as torna mais quentes, pois a radiação reflectida depende do seu comprimento de onda, do ângulo de incidência e das características da superfície do solo. Se existir vegetação há uma reflecção aproximada de 5-15% da radiação solar de ondas curtas e ocorre um processo de evaporação, sendo que o ar quente carregado de humidade sobe e dissipa o calor na atmosfera. Numa superfície seca e sem vegetação é refletida até 35% da radiação, mas não havendo humidade, o calor é dissipado ao nível do solo o que contribui para ficar mais ainda seco. Este facto, só por si, explica as taxas de insucesso nas plantações efetuadas bem como um lento crescimento das que conseguem sobreviver.

Fig. 3 Representação do ciclo da água retirado do livro “Novo paradigma da água”
Fig. 3 Representação do ciclo da água retirado do livro “Novo paradigma da água”

Verifica-se portanto, uma rutura total no ciclo curto da água em muitas encostas a sul da Madeira, não só, por não haver infiltração, mas também por não existir evaporação, consequência das baixas humidades junto ao solo e por falta de um coberto vegetal adequado para manter essa mesma humidade ao longo do ano. A noção de redução da humidade do solo nos ecossistemas é referida como a seca ecológica comumente descrita como um “défice prolongado e generalizado de acréscimos de água naturalmente disponíveis, que criam múltiplos stresses nos ecossistemas” (US Geological Survey, US Climate Science Centers e Science for Nature and People Partnership)

Um novo modelo é urgente e necessário para recuperar o ciclo curto da água, que começa obviamente com a recuperação do solo para que este retome rapidamente as suas funções. O pastoreio holístico é a forma mais rápida e eficaz de o fazer a par de outras metodologias como a modelagem da paisagem, com a tecnologia da regeneração do sistema hidrológico apoiada nas teorias do desenho de linhas chave de Alan J. Yeomans. Esta técnica foca essencialmente os processos que se destinam a aumentar substancialmente a fertilidade dos solos. A ênfase é colocada sobre a criação de um ambiente de solo que acelera rapidamente a actividade biológica, aumentando assim, consideravelmente, o teor de matéria orgânica total. Esta metodologia tem como principal objectivo impedir que as águas pluviais cheguem ao mar. De grosso modo são identificados pontos-chave de acumulação de água em pequenos vales secundários e abertos pequenos sulcos ou linhas chave paralelas às curvas de nível com inclinações mínimas que fazem deslocar a água dos vales para as linhas de cume. Estas “levadas permeáveis” desviam a água do percurso normal impedindo a chegada às ribeiras, Fig.4.

Ao longo do seu percurso e em pontos devidamente identificados são abertos pequenos lagos de 1,5 a 2 metros de profundidade para acumulação/expansão da água, sempre que se verifiquem precipitações extremas. Estas “levadas permeáveis” são fundamentais para reter água em profundidade sendo que, na plantação, as árvores devem ser colocadas imediatamente abaixo dessas linhas, para obterem água por gravidade, Fig.5. Estes pequenos lagos se forem impermeabilizados e colocados em lugares estratégicos, podem ainda ser utilizados no combate aos incêndios ou servirem de reservatório para abastecer as manadas e ou rebanhos de passagem.

Este foi o raciocínio que esteve na base da construção das levadas e dos poios na Madeira, desde a ocupação da Ilha. Infelizmente não soubemos evoluir ou dar continuidade ao exercício do pensamento dos nossos antepassados, talvez porque não fomos ensinados a respeitar o saber e cultura tradicionais.

Fig. 4 - Representação da função das linhas chave, fundamentais para transporte de água para as zonas secas de cumeeira
Fig. 4 – Representação da função das linhas chave, fundamentais para transporte de água para as zonas secas de cumeeira

Aumentar a capacidade de retenção de água do solo e conter a precipitação nos lugares onde cai são medidas eficazes contra as enxurradas. Os desastres naturais, obviamente, não deixarão de ocorrer, mas excluindo fatores externos, o número de ocorrências e o nível de danos causados poderá ser bastante reduzido e muitas vezes evitado.

Fig. 5 - Representação a 3 dimensões da modelagem de paisagem com a tecnologia da regeneração do sistema hidrológico de Alan J. Yeomans.
Fig. 5 – Representação a 3 dimensões da modelagem de paisagem com a tecnologia da regeneração do sistema hidrológico de Alan J. Yeomans.

Existem razões para estarmos otimistas. O novo paradigma da água foi abordado na última cimeira de alterações climáticas (COP 22) que ocorreu este ano, em Marrocos e foram vários os projetos apresentados e alguns já concretizados nesta área. Em todo o mundo, surgem como cogumelos, perto de nós nomeadamente no Alentejo e em Espanha, mas também na China, Áustria, Califórnia, Austrália, Zâmbia, Brasil, entre outros.

Os trabalhos de pesquisa de infiltração que temos realizado desde há 2 anos na Madeira, para testar as metodologias de regeneração de ecossistemas são promissores. Registaram-se em simulações/aproximações de pastoreio holístico valores de 4 minutos e 51 segundos para a infiltração de uma coluna de água com a altura de 140 mm Apesar do pequeno número de amostras, existe já algum otimismo e esperança por parte da equipa técnica que apoia a Associação de Pastores das Serras de Santo António e São Roque e Arieiro.

No entanto, trabalhos antigos e mais recentes confirmam já estas pesquisas. É atualmente assumido pela comunidade científica que as minhocas são as grandes responsáveis pelo aumento das taxas de infiltração da água no solo. Nos trabalhos  desenvolvidos na extinta Direcção de Serviços de Agricultura e Pecuária Biológica foi possível compreender a importância destas brilhantes escavadoras. Westerningh (1972) referiu que a ausência total de minhocas pode conduzir a uma rutura drástica da estrutura do solo. Stockli (1949) afirmou que à medida que a minhoca se desloca pelo solo vai construindo uma ramificada rede de galerias com um efeito positivo sobre a circulação de ar e de água, bem como sobre a capacidade de retenção de água no solo. No caso de uma vegetação perene, como é o caso das pastagens, o volume de ar das galerias pode representar 50% do ar do solo.

O exercício aqui apresentado vem mais uma vez questionar a necessidade das recentes e polémicas obras nas ribeiras do Funchal, numa óptica ainda não abordada. Diríamos que foi um erro grave de perspetiva, pois simbolizam a visão do homem da cidade sobre a montanha, quando deviam esboçar a perspetiva do homem da montanha sobre a cidade. A História tem vários exemplos destes erros e, felizmente, também de sucessos. A lenda do rio Amarelo sobre Yu, o Grande, imperador da China no ano 2200 a.c. é um exemplo de sucesso, depois do erro cometido pelo seu pai, com a construção de uma enorme barragem e concentração das águas e que o levou a ser executado por decapitação. Esta lenda deu origem ao provérbio chinês “Não somos peixes graças a Yu” porque foi Yu que resolveu o problema de enxurradas na China Antiga, precisamente por ter compreendido os fluxos de água e ter providenciado a sua distribuição, surgindo a típica paisagem agrícola chinesa, tal como a conhecemos hoje. A este propósito Sir Isaac Newton uma vez, modestamente, declarou: “Se eu vi mais foi apenas por estar sobre os ombros de gigantes”. Neste caso, observamos no topo das montanhas e junto do saber local tal como Yu.

No próximo artigo pretendemos esclarecer porque não faz sentido falar de adaptação a fenómenos climáticos extremos sem falar em mitigação de gases com efeito de estufa e aproveitaremos para desmistificar as emissões de gases pelos animais.