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La La Land
… é um filme que passaria bem, num sábado à tarde, na televisão lá de casa, um sofá confortável e uma manta bem quentinha, num dia de inverno. Talvez até pudesse chover, lá fora, um certo tom de cinza natural que contrastasse com o colorido da atmosfera inicial do filme.
Levei algum tempo a decidir se tinha, realmente, visto ou filme ou se me tinha limitado a olhar o Ryan Gosling. É todo um acerto de casting, dada a natureza do filme, mas muito longe de um desempenho que, além da qualidade do seu ADN, nos recorde arte cinematográfica.
Passado o assombro inicial, não foi sem algum outro espanto que “dei por mim” a pensar que La La Land é um tremendo déjà vu, um qualquer mosaico de tantos e tantos filmes – esses sim musicais – que atravessaram a história do Cinema, que não descolaram da retina de algumas gerações e que levarão dois tipos de público às salas: os “cotas” porque os recordarão, com algum romantismo e os mais jovens, porque estarão a ver um filme “novo”.
Mas então os Globos e as 14 nomeações para os Óscares? Não serão, com certeza, à toa. Em primeiro lugar, o filme não será assim tão “despretensioso” como parece. Em tempos de “trumpistas” incertezas, de medo e de perda de qualidade de vida de tantos milhões de cidadãos, a frescura deste filme transporta o espectador para uma América dos dilemas amorosos de antes e de agora, das escolhas mas, também, de uma cumplicidade que talvez se tenha perdido nas relações interpessoais. A música, a dança e os cenários idílicos para onde nos transporta o par romântico, recordam-nos uma joie de vivre de outros tempos que, ao invés da Primavera, não sabemos “se volta mais”. As referências meta-cinematográficas são significativas e prolixas. Desde a janela onde foi filmada uma cena de “Casablanca”, à evocação (implícita) de “I had the time of my life”, passando por uma quase profética e até mesmo “ingrata” referência à filmografia de Scorcese, no início, sabendo agora que o seu filme foi o grande derrotado das nomeações, “La La” é uma melodia para a qual converge uma atriz cujos poros são feitos da Sétima Arte: Emma Stone. Os seus desempenhos são pura paixão cinematográfica. Qualquer que seja o papel, a personagem ou o “boneco”, esta jovem actriz brilha com uma tal intensidade, no écran, que acaba por imprimir um profundo contraste com o desempenho (em minha opinião, sofrível) de Ryan Gosling.
O filme atravessa múltiplos tempos – o das estações do ano e os musicais – e faz-nos percorrer com um sorriso cúmplice ou uma emocionada lágrima, um romance que não nos pertence mas que queremos, quase à força, agarrar. Implica o espectador de um tal modo, arrasta-o para o fio da/s história/s que pretende contar que, por pouco, não nos faz entrar écran adentro e participar, resolver, cantar e dançar.
O pianista acompanha os tempos, agora os teatrais, dos monólogos da peça da protagonista e tudo acaba por ser um tempo só: o das lânguidas notas jazzísticas que ecoam numa taberna qualquer.
Continuo sem saber se será um filme digno dos 14 óscares para os quais está nomeado. Mas recordá-lo-ei com a palavra saudade que, não podendo integrar o elenco linguístico do filme, o diz tão bem.
À parte isso, “yes, still got the blues” “and all that jazz”.
A ver, num cinema perto de si, assinado por Damien Chazelle com Ryan Gosling, Emma Stone e um bonus track por John Legend.
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