
Rui Marote (texto e fotos)
Pus a fasquia muito alta no planeamento da viagem, colocando à prova a validade da minha “garantia”… Esta última etapa de autocarro foi violenta: nove horas para percorrer 377 km ligando a cidade de Madurai a Ernakulam – Cochim.
Bem cedo fui para a central de autocarros, mas era domingo e os horários estavam alterados. Pensei que a saída fosse às 7 horas, e as 9 horas era o horário previsto.
Durante esse tempo de espera, interroguei-me sobre qual o motivo porque a Madeira não tem uma rodoviária. Simplesmente uma opção política. Local tínhamos, central, ideal como hoje dentro da área do Funchal já não é fácil encontrar .

Na época, os governantes deram prioridade à construção de parques de estacionamento, que iriam resolver o problema do trânsito na cidade do Funchal. Esqueceram que uma das causas era os Horários do Funchal estacionados na Avenida do Mar, outra as duas companhias Rodoeste e SAM terem os seus parques, propriedade da Câmara, em sentidos opostos, cruzando-se os veículos em faixas opostas na Avenida do Mar.
Durante a governação do ex edil João Dantas, a Câmara construiu o parque de estacionamento do Almirante Reis, onde existia uma lagoa e um jardim de infância. Local ideal junto ao Mercado dos Lavradores e à rua mais movimentada, a Fernão de Ornelas. Recorde-se que a maioria das câmaras eram de uma só cor política e inauguravam obras às custas do Governo, cumprimentando com o chapéu do vizinho. Quando se fala de dívida ninguém se recorda de obras efectuadas que eram da alçada das câmaras e nas quais o empresário era o Governo, que as entregava em vésperas de eleições para cortar a fita. Como por exemplo a cota 40… etc.

Vejam os nossos vizinhos canários que nesta matéria estão bem apetrechados.
Cafôfo tem uma oportunidade para colocar no seu programa eleitoral este assunto, uma vez que a câmara também é sócia da Horários do Funchal. Podiam combinar a construção dessa rodoviária com o governo e outros parceiros, entendendo-se.

Chegou o autocarro para Cochim. O número de passageiros não chega a uma dúzia. Música a bordo, preparado para a maratona. As estradas estão mais libertas, a velocidade é maior e os 233 Km que vi no Google são na realidade 377 km, com troços de auto-estrada óptimos, entradas em pequenas aldeias em péssimas condições, duas serras para galgar muito serpenteadas com paisagens de hectares e hectares com plantações de chá.
Cheguei a Cochim já o sol se punha no horizonte, as luzes da cidade já brilhavam e com nove horas e dez minutos de estrada. Cheguei a Ernalkulam, onde proliferam os centros comerciais e os prédios de betão .

Mas o meu hotel não está nesta zona. Tracei um plano para visitar tudo o que esteve ligado aos portugueses. Uma nova condução como sempre de Tuk Tuk, oito quilómetros já noite cerrada, com destino a Santa Cruz, zona velha da cidade. Tinha como referêcia a catedral de Santa Cruz. Os becos são estreitos e neles só cabia mesmo o Tuk Tuk à procura do Maison Casero Home Stay.
É um hotel familiar: fui recebido por um casal na sua sala, com café e uns biscoitinhos.
Enquanto preenchia a documentação o radar da minha cabeça fazia um scan das paredes e descobri que esta família era católica pelos quadros exibidos e os santinhos iguais aos da Sé do Funchal.

O segundo andar deste edifício era totalmente independente. Um banho e mudança de vestuário e de seguida um jantar num restaurante a curta distância do meu quartel general para estes cinco dias. De regresso, seguiu-se o sono dos justos.

Ao deixar a região Tamil Nadu não resisti a voltar a Cochim para conhecer a cidade com maior profundidade, uma vez que já cá tinha estado por algumas horas numa viagem de cruzeiro com destino a Singapura, há alguns anos.

Estou no estado de Kerala, escondida entre a cordilheira dos gates ocidentais e o Mar da Arábia. Um encantador mosaico de campos de arroz e plantações de coqueiros, com extensas praias, lagoas labirínticas e florestas tropicais luxuriantes. A cultura local é enriquecida pelas três grandes religiões, que aqui tem raízes ancestrais. A religião maioritária é o hinduísmo, praticada com tal rigor que proíbe os não hindus de entrarem nos templos. O Cristianismo é seguido por um quarto da população, e terá sido trazido pelo apóstolo Tomé. Finalmente, o Islamismo foi introduzido pelos mercadores árabes no século VII. Entre os tesouros arquitectónicos destacam-se Padmanabhaburam, edifícios coloniais e uma sinagoga do século XVI em Cochim. É a cidade mais cosmopolita de Kerala, bem como o seu principal centro de comércio de especiarias e pescado. Construída ao redor de uma laguna salgada, junto ao mar da Arábia, é um aglomerado de pequenas ilhas e penínsulas cuja parte continental se chama Ernakulam enquanto o Mattancherry e o forte de Cochim mantém o seu charme antigo, onde se fundam as marcas deixadas por holandeses, portugueses e ingleses. Cochim é hoje mais visitada por viajantes de todas partes do Globo.

No bairro judaico visitámos o palácio de Mattancherry, erguido pelos portugueses em meados de 1550. Foi oferecido ao rei de Cochim em sinal de agradecimento pelos direitos mercantis por ele concedidos. Chamou-nos atenção na parte central, onde se realizavam as cerimónias de coroação, e onde fica a galeria de retratos dos reis de Cochim, exibindo também os palanquins e têxteis. É proibido fotografar e a entrada é paga.
Continuando no bairro judaico, visitamos a Sinagoga Paradesi, escondida num beco sem saída no coração do bairro. É a sinagoga mais antiga da Índia. Devido à sua perseguição pelos portugueses, os judeus foram forcados a emigrar para Cochim, onde se estabeleceram em terras doadas pelo Rajá , erguendo a sinagoga em 1558.

A nossa curiosidade aumentava neste bairro ao descobrirmos a Bolsa internacional de Pimenta de Cochim – este edifício encerrado há três anos e transferido para Nova Delhi vibrava logo à entrada com as vozes nervosas de compradores e vendedores. O salão estava cheio de cabinas com homens que falavam compenetradamente ao telefone, e todos os dias se vivia a emoção dos leilões de pimenta, acompanhados de sons estridentes e de gestos teatrais.

A igreja de São Francisco, fundada pelos portugueses, com o nome de Santo António, contém varias pedras tumulares com inscrições. O epitáfio mais antigo está datado de 1562. Vasco da Gama foi aqui sepultado em 1524, antes de ser trasladado para Portugal, Esta igreja chamou-nos a atenção por ter nas alas em todo o comprimento da igreja umas retrancas com umas velas que se movimentam e refrescam o calor húmido. É um autêntico leque gigante.

Os vestígios mais concretos da presença holandesa em Cochim encontram-se no cemitério holandês, situado em vasta área junto a praia. A transformação ocorrida nos costumes de enterramento manifesta-se no estabelecimento desse cemitério, a mais antiga necrópole cristã da Índia. A data fixada no muro do portão de entrada indica o ano 1724. Continuou a ser usado após a chegada dos ingleses. As 104 campas sem cruzes testemunham a implantação da Reforma no Malabar.

Este cemitério transforma-se assim no monumento de uma história colonial que sucedeu à época portuguesa, adquirindo significado para toda a Índia, tão marcada pela posterior presença britânica. O cemitério esta encerrado, exibindo na porta um cartaz informando da sua restauração. Não resistimos em registar fotograficamente este pormenor: a importância da acção europeia no Oriente representa uma das preocupações patrimoniais locais.
Percorrendo Cochim rua a rua, visitámos a Catedral de Santa Cruz, edificada em 1887. Outra atracção são as redes de pesca chinesas que nos dão excelentes fotos. Este tipo de redes de pesca usadas pela primeira vez em 1350-1450 revela laços comerciais entre a Índia e a China.

Amanhã deixamos Cochim com destino ao norte do país, Nova Delhi, em trânsito para Amritsar. Mudança de ponto cardeal para conhecer o Templo Dourado centro espiritual da religião sikh.

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