É uma daquelas histórias que, não sendo das mais terrivelmente urgentes e dramáticas, nem por isso deixam de configurar uma realidade de vida difícil e complicada, à qual só os mais empedernidos se podem mostrar insensíveis. Isidro Freitas foi bombeiro durante trinta e um anos. Ajudou os outros, numa profissão mal paga e geralmente só reconhecida quando as catástrofes acontecem. Profissional nos BVM durante décadas, vê-se ainda hoje, apesar de tolhido pela doença, que foi um homem vigoroso.
Habituado à movimentação e à acção, encontra-se hoje confinado a uma cadeira de rodas, atormentado por uma série de doenças. E é aqui que está o busílis da questão. É residente num apartamento do primeiro andar do bairro do Hospital, mas para si, sair à rua é extremamente difícil. Estivemos no local e pudemos comprovar porquê: há três lanços de escadas até à casa de Isidro Freitas – e nenhum elevador. Aparentemente, o elevador não era obrigatório na construção de habitação social com menos de determinado número de andares, à data da criação deste complexo habitacional.

Só vendo se acredita na complicação que é, para este ex-bombeiro, simplesmente deslocar-se à rua para tomar um café, conversar com alguém ou deslocar-se a uma consulta ou um tratamento de reabilitação, quando precisa. Está dependente da boa vontade de vizinhos em carregá-lo, ou de determinados serviços do SESARAM, que “nem sempre vêm”.

As barreiras arquitectónicas e a impossibilidade de sair de casa afectam-no bastante psicologicamente, diz-nos. “É muito difícil, para mim. Eu era uma pessoa activa, e agora estou reduzido a isto”.
Isidro diz-nos que veio morar com a mulher para o T4 que ocupa no bairro do Hospital há uma década, depois de uma expropriação da habitação em que o casal residia anteriormente. A sua condição física, entretanto, degradou-se. Sofre da coluna, à qual já fez várias operações. Magoou-se na explosão de uma garrafa de gás no caminho de Santo António, anos atrás. Na altura deixou passar. Mais tarde sentiu as mazelas. Tem também problemas cardíacos, tem um pacemaker, é hipertenso e diabético. Gasta imenso dinheiro em medicamentos, mas a sua reforma cifra-se em pouco mais de trezentos euros. A esposa, cabeleireira, ganha o ordenado mínimo. De vez em quando leva para casa mais algum dinheiro que os clientes lhe dão.

Isidro passa os dias preso no apartamento, enquanto a mulher trabalha. As suas únicas companhias são a televisão e o computador.
Não se lamenta da sua situação, apenas nos dá conhecimento de ter pedido à Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM) para trocar o seu apartamento T4 por um outro no andar térreo, de modo a poder sair mais facilmente de casa. “Até podia ser um T2”, afirma, uma vez que as suas duas filhas já saíram de casa e fazem a sua própria vida. Mas o caso, que já expôs para aí há um ano, afigura-se sem solução. Os dias vão passando e aumenta o desespero do bombeiro Isidro, no seu confinamento.

Mostra-nos uma recente carta do IHM, dizendo que o assunto lhes mereceu a melhor atenção mas que, “tendo em conta a falta de disponibilidade de fogos devolutos, que contemple as suas necessidades habitacionais, não é possível satisfazer de imediato o seu pedido”.
O IHM informou-o de que “ficou inscrito na lista de trocas de apartamento, para tipologia T3, R/C”, devendo aguardar um posterior contacto.
António Isidro de Freitas agradece a resposta, mas esta não o satisfaz. As pessoas com quem tem falado apenas lhe dizem para ir tendo paciência. Mas o antigo bombeiro garante ter conhecimento de que existem apartamentos “vazios” que facilmente poderiam ser trocados com o seu, necessitando um deles apenas de uma pequena rampa para poder entrar de cadeira de rodas. Bastavam pequenas recuperações.
Um deles, acusa, até está a ser ocupado “por um senhor que não paga renda e está em tribunal por isso, não estando sequer inscrito como parte do agregado familiar”.

O bombeiro Isidro é bastante conhecido no bairro. “Penso que ninguém deve dizer de mim que fui gatuno, matei alguém. Talvez até tenha ajudado outras pessoas e nunca tenha pensado em mim… por isso é que se calhar estou neste estado”, comenta.
O nosso interlocutor salienta que não quer um apartamento “de mão beijada”, e que não se trata de uma exigência absurda: “Ficavam com o meu apartamento T4. Eu não quero dois apartamentos, nem quero fazer negócio. Só queria poder entrar e sair!”
Sem criticar a atribuição de instalações no bairro do Hospital a associações como a Acreditar ou outras, Isidro Freitas considera que os serviços governamentais deviam colocar em primeiro lugar as necessidades dos moradores, fazendo o possível por beneficiar aqueles que, como ele, por motivo de doença ou velhice, se vêem duplamente incapacitados, por causa das barreiras arquitectónicas.
Sabemos que há, certamente, casos mais graves do que este, mas consideramos justo prestar atenção à história de Isidro. No preciso momento em que escrevemos esta nota, lá está ele confinado entre quatro paredes. Foi durante décadas um homem que ajudou os outros. E agora, alguém o ajuda?
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