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Já sabemos que o livro é, para a esmagadora maioria dos leitores, um objeto de culto. Quem gosta de livros, não gosta apenas de os ler. Aprecia manuseá-los, o cheiro, o virar das páginas e o colorido das lombadas na estante lá de casa ou das livrarias e bibliotecas. Também gosto de tudo isso. Mas também gostava por vezes que fossem mais leves. Gostava também de poder comprar livros que não encontro nas livrarias físicas no lugar onde vivo. E gostava, claro, de ter acesso a muitos e mais variados títulos. Curiosamente existe uma solução. Os ereaders como são conhecidos são já de uso corrente em muitos países. Em Portugal o aparecimento desta tecnologia parece ser tímido. De resto as vendas de livros em Portugal são tímidas, excetuando um punhado de best sellers. Mas a acompanhar essa timidez dos ereaders suspeito que exista alguma resistência dos leitores. Fará ela sentido? Sim e não. Há muitas razões subjetivas (aquelas que começo por indicar logo no início deste texto) para que o leitor não aprecie a tecnologia dos ereaders. E existem também algumas razões que me parecem mais objetivas, tal como o facto de termos toda uma cultura do livro e os livros eletrónicas requererem muita habituação. Certo. Partilho então a minha experiência com os ereaders ao mesmo tempo que divulgo aos leitores desconhecedores como funciona tal tecnologia. Vou começar pela segunda parte.
Hoje em dia quase todas as pessoas sabem bem como é a experiência de ler num tablet. Para leitores assíduos a leitura em tablets tem um problema bastante acentuado. Uma vez que os ecrãs de tablets funcionam com luz interna, o reflexo dessa luz na retina cansa a vista rapidamente e ler um livro num tablet é uma experiência que acaba por ser bastante desconfortável. Daí a razão da existência de aparelhos dedicados para a leitura. Mesmo que ofereçam outras funcionalidades, como navegar na internet, estes dispositivos são pensados exclusivamente para a leitura e para um comércio de livros mais eficiente. Passo a explicar. Os ereaders são contruídos com uma tecnologia chamada e-ink. Basicamente esta tecnologia reproduz o efeito de uma folha de papel sem emitir qualquer luz. Ou seja, não cansa a vista como os tablets e tem exatamente o mesmo efeito de ler um livro em papel. Isto é uma óbvia vantagem. Mas há mais vantagens. Um dispositivo destes só gasta bateria praticamente no movimento com os dedos para virar as páginas. Significa isto que nos ereaders mais modernos a bateria chega a durar 1 mês (como o caso do meu atual ereader, o Kobo Aura 2 Edition, 2016). Os ereaders não são apropriados para ler pdf já que este formato é fechado, tecnologicamente falando. Isto significa que o formato não se altera. E como os pdfs são quase todos pensados para ler em ecrãs de pc, não se adaptam facilmente aos pequenos ecrãs do ereaders. Se é para ler pdfs que pensa num ereader, então vai desiludir-se na certa.
Os ereaders são pensados para ler formatos como o epub ou mobi. Os famosos kindle da Amazon são pensados para ler primariamente o formato AZW que é um formato exclusivo da loja. Sei que se pode converter facilmente epubs e mobi para ler no Kindle com um software muito simples que é o calibre, mas não posso atestar do êxito dos resultados já que nunca tive um kindle. Aqui temos de contar com as opções de cada um. Se a ideia é comprar livros em inglês na loja Amazon, o kindle é a opção mais correta a fazer, até porque a relação preço qualidade dos dispositivos é das melhores do mercado. Mas se a opção é conseguir epubs gratuitos (há muitos sites para isso que o fazem de forma legal) e usar um ereader para ler esses livros, então há outras opções certas a fazer em alternativa ao kindle. O problema aqui é que os principais livreiros portugueses não comercializam ereaders nem publicam ebooks (eletronic books) pelo menos como seria desejável. Exceção para a Fnac que tem uma parceria com o fabricante canadiano Kobo e que vende muitos livros em português neste formato. Caso não goste da Kobo, a alternativa é comprar na internet. Recomendo que analise bem as propostas de duas empresas espanholas, A BQ, com o seu BQ Cervantes 3 e o leitor da Energy Systems, que me parece muito bom na relação preço qualidade. Cada um dos leitores tem as suas vantagens e desvantagens. Se preferir comprar numa loja física, então, em Portugal, excetuando lojas mais locais, o Kobo parece a alternativa mais adequada. E não se intimide com o tamanho. Os modelos mais recentes da Kobo alguns possuem ecrãs semelhantes aos dos tablets, mas para um ereader consegue perfeitamente uma leitura confortável num ecrã de 6”.
Mas há mais vantagens nos ereaders. Sendo que é certo que a construção de dispositivos tecnológicos implica a utilização de recursos químicos e naturais, é também certo que para os mais ecologistas os ereaders vão poupar algumas árvores, já que podem ter milhares de páginas metidas num pequeno aparelho de cerca de 100€ (para o caso do Kobo Aura 2 Edition). Outra vantagem são os dicionários embutidos. Podem não ser os melhores que existem, mas são muito úteis. Por exemplo, o Kobo vem já com o dicionário de sinónimos Pt-Pt, En-En e de tradução PT-En ou En-Pt. São muito úteis na hora de leitura. Basta carregar com o dedo sobre a palavra e a magia acontece, com uma pequena janela a indicar o sinónimo ou tradução. Prático e dispensa que nos levantemos do lugar de leitura para pegar no dicionário. Além disso podemos usar marcadores de leitura, inserir notas e procurar pelo índice. Após alguns dias de experiência já não largamos mais o pequeno leitor. Praticamente não vislumbro desvantagens a não ser as questões subjetivas. Os modelos mais recentes emitem, se desejarmos, alguma luz a partir dos lados do ecrã, uma luz que não fere o olho, regulável e que é muitíssimo útil para ler na cama sem incomodar o parceiro ou parceira de quarto. E é adequado para ler na praia ou com exposição solar já que o ecrã não tem qualquer brilho (ao contrário do que acontece com os ecrãs IPS e LCD dos smartphones e tablets). Existem alguns modelos que são resistentes à água, exatamente para que a leitura possa ser feita no verão na praia ou em ambientes propícios a salpicos de água sem preocupação de que o leitor se estrague. Os livros carregam-se para o dispositivo exatamente como se fosse uma pen drive. Depois do carregamento, que é muito rápido dada a leveza dos ficheiros, pode-se organizar os livros por coleções e podemos procurar os títulos ou navegar entre eles. No meu Kobo neste momento tenho cerca de 500 livros, desde literatura, economia, biografias, ciência e, claro, a minha coleção favorita, de filosofia. A esmagadora maioria são livros que não estão disponíveis nas livrarias portuguesas, muitos dos quais em Pt-Br já que o formato ebook é mais popular no Brasil que em Portugal. E alguns comprados como a edição da Leya dos Maias de Eça de Queiroz que comprei por 0.98€ (nem todos os ebooks são tão baratos).
Se este formato se tornar mais popular entre nós, é certo que os editores começam a publicar neste formato.
Esta apresentação dos ereaders não é exaustiva. Muitas mais coisas se poderia acrescentar, mas o espaço disponível não o permite. Em todo o caso o leitor pode deixar as questões que desejar na caixa de comentários que eu respondo.

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