A visita do Papa Francisco a Fátima

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Parece que o Papa virá a Fátima no próximo ano para a celebração do centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima. Começou o negócio. As notícias dão conta que há hotéis a venderem dormidas por noite a 1500,00 euros. Dizem também que há hotéis em construção a mais de 30 Km em fase de acabamento esgotados. É este o negócio inevitável que ninguém controla, faz parte da lógica desenfreada do mercado. É a tal economia que o presumível ilustre visitante não se cansa de denunciar com a célebre expressão: «A economia que mata».

Porém, pressupomos que haverá outro negócio a ser preparado convenientemente, o negócio religioso. Casas religiosas em Fátima que alugam quartos é coisa que não falta. O santuário tem uma máquina impressionante de faturação que faz inveja aos mais afoitos empresários deste país. As imagens de santinhos, as velas, os terços, paramentos e todas as comodidades para a enorme claque de eclesiásticos, que uma visita do Papa a qualquer país, especialmente, europeu implica, onde as hierarquias eclesiásticas vivem no melhor dos mundos. Não deve ser por acaso que dizem para aí que o Papa Francisco gosta de visitar países pobres, tem feito jus a essa predileção.

Seria bem feita se o Papa Francisco não viesse, não resisto a dizer isto. Que me perdoem as pessoas simples que não se dão conta de nada disto, mas que alimentam a sua fé em Nossa Senhora de Fátima e todos os anos sobem o Santuário da Cova da Iria debaixo de sol ou de chuva para pagar as suas promessas, fazer a sua oração e encontrar-se ao seu modo com Mistério de Deus. Mau, muito mau é haver quem se aproveita dessa simplicidade e faz negócio com isso.

Todos os que andam a fazer negócio com a anunciada visita do Papa, ainda não confirmada, não merecem a presença do Papa Francisco em Portugal. A Igreja portuguesa não merece a presença deste Papa junto de si, porque não o sabe ouvir, não segue o seu exemplo, não acordou na letargia em que tem vivido mergulhada. Não fala sobre as desigualdades, sobre a pobreza, sobre a injustiça, sobre a corrupção que mina a vida política, não há um espernear, um grito que seja quando o povo é espoliado com impostos, quando as famílias são votadas à fome, porque as empresas despediram assim sem mais nem menos ou, pior ainda, não pagaram o justo valor pelo trabalho. Há uma serie de situações que mereciam melhor atenção, melhor dedicação, mais desprendimento das hierarquias agarradas a costumes anacrónicos e a bens votados ao abandono sem que os ponham ao serviço das pessoas.

Há um estado de coisas que mergulhou a Igreja Portuguesa num sono profundo. Apenas desperta quando os seus interesses económicos são beliscados (lembram-se dos contratos com a escolas privadas e da possibilidade de algumas coisitas terem que pagar IMI?). No tempo do cardeal D. José Policarpo, lá de vez em quando, tínhamos um posicionamento, uma palavra que denunciava, que alertava… Agora, zero. É como se Portugal não tivesse cardeal nem bispos, adormeceram.

Por tudo isto, a minha vontade está dividida, por um lado, que o Papa não venha, para que muitos dos negócios não passem de um bluff, por outro lado, desejo que venha, para que deixe uma mensagem de alerta, faça despertar consciências, especialmente, a da hierarquia eclesiástica acomodada no anacronismo bacoco e nos negócios mundanos. Nessa ocasião, o Papa podia ser uma voz e mostrar a diferença no discurso, destoando dos discursos redondos, muito iguais que são proclamados nas ocasiões das grandes peregrinações no Santuário de Fátima.

As multidões vindas de tantas partes mereciam que a palavra ecoasse vibrante no Santuário da Mãe de Nazaré, a mulher da vida para os famintos, da voz dos injustiçados e da libertação dos pobres. Aí no «altar do mundo», as multidões mereciam ouvir com linguagem clara palavras sobre a vida e sobre o mundo, onde reina tanta coisa bela, mas também tanta coisa ruim que precisa de um apelo e de uma denúncia que faça despertar as gentes para a construção de mundo mais digno para todos.

Em todo o caso, aguardemos serenamente e que seja feita a vontade Deus, que sempre escapa às espertezas mundanas.