Crónica de viagem: nas remotas ilhas Andaman, descobrindo a sabedoria dum povo

 

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Bazar de Aberdeen, Port Blair

Rui Marote (texto e fotos)

Quando programei esta nova viagem à Índia, país que já visitei três vezes, incluí no programa as ilhas Andaman, uma vez que estão próximas do roteiro que tracei para visitar as gorupas do território sul da Índia.

Tenho por princípio, quando viajo, não visitar só um país ou um lugar… vejo no mapa o que está à volta, e também lá vou. Não me tenho dado mal com esta opção, que além do mais é mais económica em tempo e dinheiro. Exemplo disto é o que se passa quando se viaja para a Austrália. São 26 horas de avião, doze horas de diferença no fuso horário… Ir aos antípodas é um esforço que pode ser duplamente compensado se quem visitar a Austrália também der um pulo à Nova Zelândia, que se encontra apenas a duas horas de avião. É que se quem for à Austrália não for também à terra dos Maori… dificilmente o fará noutra oportunidade. É muito longe, viagem muito dispendiosa, etc. Por isso, quando viajo procuro sempre juntar o “dois em um”. É que no final, e no nosso mapa mental, acaba por ser mais enriquecedor e positivo.

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Estátua de Ghandi

Pois, por isso aqui fica a sugestão. Ilhas Andaman. Visitando o subcontinente indiano, comecei por um arquipélago… O ilhéu, quando sai da sua terra, muitas vezes gosta de ir para outra ilha. Queremos ver o mar todos os dias. J

Quando o embaixador da Índia esteve no Funchal por alturas da Festa da Flor,
perguntei-lhe se era necessário um visto especial para visitar as ilhas Andaman. Respondeu que não, a Índia é um país, só é necessário um visto. Aceitei a informação, mas tinha a ideia de que não era bem assim.  Ao dar entrada no aeroporto de Port Blair, capital das ilhas Andaman e Nicobar, verifiquei que existia um posto de fronteira… Mas como desembarquei no meio de dezenas de indianos e o meu bronzeado era quase igual ao tom da pele dos indígenas, o guarda limitou-se a dar seguimento… “andar, andar”.

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Os sapateiros de Aberdeen

Levantei a mala e fui de imediato para o hotel. Precisava de um banho tipo “escalda pés”, uma vez que já iniciara a maratona no Funchal, com paragens em Lisboa, Munique, e Bombaim, porta de entrada da Índia e lugar de controlo de visto, e mudança para aeroporto de vôos domésticos com destino a Porto Blair.
Ao chegar ao hotel de Tuk-Tuk, preenchi um questionário muito alargado que levou algum tempo a completar. O funcionário pediu o passaporte e o ‘Rap’, um papel de entrada no aeroporto disse-lhe que não tinha e que não tinha sido abordado pela policia de emigração.

O complexo penal 'Celular Jail'
O complexo penal ‘Celular Jail’

Ficaram todos muito admirados: como era possível isso ter acontecido? Teria obrigatoriamente de voltar ao aeroporto para dar entrada… O proprietário do hotel amavelmente ofereceu-se para levar-me ao aeroporto.
Mais uma vez, grande admiração nos serviços de emigração pelo acontecimento. Lá iniciei o preenchimento da identificação de duas folhas de tamanho A4, de seguida fui fotografado, e recebi o tal ‘Rap’ com um número de registo que à saída terei de entregar.

Memorial às vítimas do tsunami
Memorial às vítimas do tsunami

Por último foi-me entregue um desdobrável alertando-me sobre o que posso visitar e quais as proibições.
Estou numa zona protegida e as regras cumprem-se. Tenho este desdobrável bem guardadinho para oferecer ao meu amigo Paulo Oliveira, responsável pelo Parque Natural…

Interior do presídio, com uma representação das torturas na parada
Interior do presídio, com uma representação das torturas na parada

O arquipélago das Ilhas Andaman, no golfo de Bengala, a cerca de mil quilómetros do continente, inclui também as vizinhas Nicobar. Corresponde aos picos de uma cordilheira submersa que se estende de Myanmar (antiga Birmânia) à Indonésia. Com florestas tropicais, mangais e recifes de coral, a espécie mais protegida nas Andaman e Nicobar acaba, curiosamente, por ser o próprio Homem… Há vários grupos tribais, alguns dos quais ainda algo hostis… pelo menos, no mínimo, muito ciosos da sua autonomia e liberdade. Antigamente acreditava-se mesmo que seriam canibais, principalmente na ilha Sentinela do Norte, entre Andaman e Nicobar. A União Indiana procura preservar o seu modo de vida e respeitá-lo dentro do possível.

Local de execuções dos presos políticos
Local de execuções dos presos políticos

A Índia foi o terceiro país mais atingido, a 26 de Dezembro de 2004, pelo terramoto conhecido pela comunidade cientifica como terramoto de Sumatra-Andaman . Nos arquipélagos de Andaman e Nicobar algumas ilhas ficaram submersas e morreram 10.749 pessoas confirmadas, 16413 estimadas e houve 5640 pessoas desaparecidas.

Memorial aos prisioneiros
Memorial aos prisioneiros
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As celas onde tantos estiveram detidos pelos britânicos

Os nativos das Andaman são habitualmente chamados “negritos” por causa da cor da sua pele. São relativamente baixos, mais altos porém dos que os pigmeus da África Central. Recusam o contacto com o mundo, desde os tempos da colonização britânica, que os tratou de forma violenta.

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Ruínas da antiga casa do governador, na ilha Ross

Chegou-se a pensar que com o tsunami várias tribos teriam sido varridas da face da terra, pois as ilhas sao baixas. Mas enquanto as pessoas civilizadas morriam aos milhares, os primitivos “negritos” de Andaman aparentemente souberam prever a vinda do tsunami, graças aos seus conhecimentos das correntes marítimas, dos ventos, do comportamento das aves e dos peixes, da ondulação do mar… Sentindo sinais de perigo, estes homens e mulheres “da idade da Pedra” puseram -se a salvo no interior das suas ilhas, protegidos pelas florestas, antes que o tsunami chegasse. Uma lição que nos ensina que nunca devemos menosprezar a sabedoria de um povo por mais “atrasado” ou primitivo que ele nos pareça. (Abrimos um parêntesis para lembrar a Marina do Lugar de Baixo, na Madeira, na qual os pescadores desta localidade se opunham à construção neste local por o mar ser demasiado violento no Inverno. Orgulhosamente sós, os engenheiros e os políticos foram avante e as consequências são bem visíveis.)

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Fotos da ilha Ross
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Pavões e impalas circulam livremente…

Após o tsunami que varreu aquela região a Índia mandou um helicóptero de apoio para a ilha Sentinela do Norte, a fim de socorrer algumas vítimas e levar alimentos. Nada de bom saiu dessas boas intenções, uma vez que o helicóptero foi recebido com uma chuva de setas e os militares não puderam cumprir a sua missão. Isto faz que a Ilha Sentinela do Norte seja a menos acessível e mais difícil de conhecer do mundo…

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Bunker japonês da Segunda Guerra Mundial
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Antigo cemitério britânico

Bem mais acessível é a capital, Port Blair, cujo centro se assemelha mais à generalidade das localidades indianas…  Hoje está equipada com bancos, agências turísticas e complexos desportivos. Os britânicos tentaram ali criar uma colónia em 1789, mas sem bons resultados. A colónia acabou por ser, isso sim, uma colónia penal, estabelecida em 1858, onde os presos políticos que reclamavam autonomia do jugo britânico na Índia eram torturados, maltratados, sujeitos a trabalhos forçados, cumpriam penas de prisão perpétua ou eram executados. Tudo isto depois dos próprios cidadãos britânicos terem sido alvo de morticínio indiscriminado durante a revolta dos Sipaios, em 1857, e nas décadas que se seguiram e já no séc. XX. O recinto penal designado ‘Celular Jail’ cumpria este triste fim. Também era conhecido pelos indianos como Kala Pani, ou ‘Águas Negras do Tempo ou da Morte’, expressões que vêm originalmente do sânscrito.

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Antiga capela inglesa na ilha Ross

Perto de Port Blair, apenas a três quilómetros, situa-se a ilha Ross, onde se situou o centro administrativo britânico das Andaman durante 85 anos, antes de um tremor de terra a ter afectado em 1941. Hoje é um museu, explorado pela Marinha Indiana, onde apenas restam ruínas, as quais testemunham, no entanto, o passado opulento do ‘Raj’ britânico na Índia, com bazares, lojas, campos de ténis, igrejas, padarias, hospitais, piscinas… Hoje apenas meras memórias. Durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha esteve sob ocupação japonesa. Ainda hoje podem ver-se alguns bunkers nipónicos. Estas são ilhas fascinantes mas com um passado bastante negro.