À pala da solidariedade

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Há já alguns anos, na recta final do longo consulado jardinista, o auto-intitulado “único importante” saiu-se com esta pérola: “temos de ser uma máfia”.
Muito embora tenha acrescentado “máfia, no bom sentido”, mesmo que se desconheça o que é que isso possa significar ou ser, atendendo ao que caracteriza historicamente a máfia como organização, a declaração constitui, por si só, um autêntico programa político.
Ora, como é sobejamente conhecido, uma das principais características da governação regional presidida pelo dito cujo assentava no férreo controle sobre tudo e todos. De resto, não era por acaso que o seu partido se comportava como uma espécie de partido único, à imagem e semelhança da União Nacional e da Acção Nacional Popular, no tempo do designado “Estado Novo”.
Um partido que fazia questão em dominar e controlar toda e qualquer organização, qualquer que fosse a sua área de intervenção, social, cultural ou desportiva. Um poder que era exercido pelos respectivos homens-de-mão colocados estrategicamente nas mais diversas associações e colectividades e que, em última instância, obedeciam às ordens do aludido chefe todo poderoso. A demonstrar qual era o modelo adoptado, a fonte de inspiração, basta referir que nem sequer houve qualquer prurido em denominar o período como de “Madeira Nova”. Logo, qualquer semelhança, não era apenas pura coincidência.
Não houve, aliás, qualquer preocupação em disfarçar a coisa. Basta recordar a forma discriminatória como foram tratadas, por exemplo, as autarquias locais, designadamente as Câmaras Municipais de Machico e do Porto Santo, durante os mandatos em que foram governadas pela oposição.
Com a saída de cena do dito cujo, houve, há, quem ache que o ar que se respira tornou-se mais puro, que o “polvo laranja” perdeu parte do poder de que dispunha.
Sendo certo que há sempre quem se contente com aparências ou que goste de alimentar ilusões, há marcas do ADN que não são geneticamente manipuláveis por muito que se queira ou deseje. Afinal, a organização é a mesma, mudaram foram alguns figurantes ou protagonistas que, mesmo que o quisessem, não poderiam assumir-se como portadores de outros valores ou não contaminados pelos “vírus” que a máquina partidária foi expelindo ao longo dos tempos e que os próprios ajudaram também a disseminar.
A comprovar que no fundamental a mudança na governação regional é mais aparente do que real, nem é necessário recordar o tratamento que as propostas da oposição continuam a ter no parlamento, sistematicamente chumbadas ou mais tarde reutilizadas com a chancela laranja.
Basta, com efeito, aludir ao aproveitamento político-partidário decorrente de um denominado jantar de solidariedade com as vitimas dos incêndios do passado mês de Agosto que teve lugar na Quinta Magnólia, no Funchal e que foi apresentado como sendo uma iniciativa da responsabilidade de diversas IPSS e associações de solidariedade social. É que, se se tratava de uma iniciativa proveniente da designada sociedade civil, a que título é que membros do governo regional assumem no evento tão elevado protagonismo, desde logo quem detém a tutela da área social e acabando no presidente do governo regional que até teve direito a discurso?!
Bem sabemos que, entre nós, e ao longo dos tempos, tudo foi possível confundir numa única entidade, o governo ou o partido. E pelo que se constata nesse particular também nada mudou.
Ou acham que é por acaso que um presidente de um clube faz questão de proclamar ser “mais PSD do que eles” para reclamar mais dinheiro e mais apoios?! Ou que foi por mero acaso que na organização do aludido repasto pontificaram elementos que já detiveram responsabilidades públicas e políticas, a diversos níveis, debaixo do emblema da tal “máfia”?!
Argumentarão alguns que tal acontece porque são eles que lideram as tais organizações. Conhecido o contexto regional, o histórico dos últimos 40 anos, poderia ser de outra maneira? Ou, por outras palavras, se fossem outros, de outro ou outros quadrantes teriam direito a palco?!
Há muito que perdi a ingenuidade. Por isso já não vou em cantigas, muito menos gosto de ser arrebanhado e de assistir impávido e sereno a tanto descaramento, a tanto aproveitamento da desgraça alheia.
A solidariedade é um valor fundamental. Ainda bem que há quem se dedique a esta nobre causa de alma e coração, pensando única e exclusivamente em servir quem mais precisa, sem olhar a distinções de cor de pele ou de qualquer outra natureza.
Mas, numa área tão importante e sensível, como esta da solidariedade, as pessoas também contam. Aos olhos de uma opinião pública, atenta e preocupada com o bem comum, não é despiciendo saber quem é responsável por tais organizações. Mais a mais numa terra em que todos ou quase todos se conhecem.
Convenhamos que não é recomendável saber-se que há quem mistura tudo, não gere responsavelmente as contribuições que os cidadãos individual ou colectivamente lhes concedem, ou se dedica agora a esta causa depois de comportamentos nada abonatórios praticados em anteriores funções desempenhadas.
Digamos que é um pouco por tudo isto que pessoalmente quando resolvo contribuir solidariamente escolho previamente a organização a quem conceder o meu modesto apoio. E sinceramente prefiro conceder donativos a organizações, consideradas acima de qualquer suspeita, como, por exemplo, passe a publicidade, a Unicef, a Amnistia Internacional, os Médicos do Mundo ou a Oikos. Ou então, apoio directamente quem sei que necessita ou precisa.
Mais do que uma opção. É uma questão de confiança.

Texto escrito, por opção, de acordo com a antiga ortografia.