Madre Teresa é amanhã canonizada: santa… ou pecadora?

madre teresa

Fotos: Rui Marote, em Skopje, Macedónia

É considerada por muitos como um dos supremos exemplos de caridade cristã e recebeu inúmeras honrarias, entre as quais se destaca o Prémio Nobel da Paz em 1979. Receberá da Igreja Católica, no seio da qual fundou a congregação das Missionárias da Caridade na década de 1950, a canonização amanhã, dia 4 de Setembro. O papa Francisco cumprirá aquele que já era um desígnio de João Paulo II, que a beatificou em 2003. Passará a ser considerada santa.

Interior da Casa Memorial de Madre Teresa
Interior da Casa Memorial de Madre Teresa

Nascida Anjezë Gonxha Bojaxhiu a 26 de Agosto de 1910 em Usküp, a actual Skopje, hoje capital da Macedónia (então capital do Vilayet do Kosovo, uma subdivisão do Império Otomano) aquela que viria a ser conhecida como Madre Teresa de Calcutá foi conhecida durante toda a sua vida como albanesa, quando de facto o correcto seria dizer-se que é de etnia albanesa. Na realidade, é na Macedónia que hoje encontramos as maiores referências à sua vida e obra. Exemplo disso é a Casa Memorial de Madre Teresa, em Skopje, situada no local onde noutros tempos existia um templo católico, chamado “do Sagrado Coração de Jesus”, onde Gonxha Bojaxhiu foi baptizada, apenas um dia depois do seu nascimento.

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A Casa Memorial de Madre Teresa, em Skopje, Macedónia

Os jesuítas que dirigiram a Igreja Católica em Skopje no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, especialmente o padre Jambrekovic, tiveram um papel preponderante na escolha de Gonxha em deixar a sua cidade natal, os seus pais, a sua irmã e o seu irmão e ir servir como missionária.

Na capital da Macedónia podem ver-se citações de Madre Teresa nas ruas
Na capital da Macedónia podem ver-se citações de Madre Teresa nas ruas

Hoje, a Casa Memorial no local do seu baptismo celebra esta famosa personalidade nascida em Skopje, e inclui uma galeria que representa o interior de uma casa na capital macedónia no princípio do século XX, incluindo numerosas fotos, documentos e objectos que permitem seguir o percurso de vida de Madre Teresa desde a infância até à sua morte e beatificação. Lá podem ser observados objectos pessoais como o seu certificado de baptismo, o seu sari, o seu livro de orações e o seu rosário e crucifixo. Há também uma pequena capela onde são rezadas missas e um anfiteatro desenhado como um centro multimédia que apresenta diversas exposições, projectos educacionais e projecções relacionados com a vida e o trabalho humanitário que desempenhou.

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Madre Teresa nasceu filha de Nikola e Drana Bojaxhiu. Recebeu a primeira comunhão em 1916, e, durante uma estadia no Mosteiro de Letnica, encontrou a sua vocação. Juntou-se em 1928 às Irmãs do Loreto – Instituto da Abençoada Virgem Maria em Dublin, na Irlanda. Pouco mais de dois meses depois de chegar, partiu para a Índia como missionária e chegou a Calcutá em 1929. Dois anos depois fez os seus primeiros votos em Darjeeling. Era então catequista e ensinava Geografia na St. Mary’s School.

Foi em 1946 que, viajando de Calcutá para Darjeeling, recebeu inspiração para abandonar o convento das missionárias do Loreto e começar a tratar dos doentes e dos pobres nas ruas de Calcutá. Em 1950, conseguia que a congregação das Irmãs Missionárias da Caridade fosse aceite pela Igreja. No ano seguinte, naturalizou-se indiana. A partir daí, o seu trabalho foi-se tornando progressivamente conhecido.

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E é também a partir daí que começa a polémica em torno da verdadeira natureza do mesmo, e da verdadeira natureza de Madre Teresa. De facto, esta personalidade, de fama mundial e considerada por muitos como um exemplo de bondade, é também alvo de múltiplas e fundamentadas críticas, por parte de jornalistas e escritores como Christopher Hitchens ou médicos como Aroup Chatterjee, que hoje reside na Inglaterra mas que foi nascido e criado em Calcutá, durante o período de actividade de Madre Teresa. Autor do livro ‘Madre Teresa: Veredicto Final’, criticou duramente no mesmo a forma como a missionária exagerava o trabalho que fazia entre os pobres, que não soube gerir adequadamente as grandes quantias que lhe foram doadas para os ajudar e que os tratamentos médicos que as Irmãs da Caridade lhes proporcionavam eram de baixíssima qualidade.

Fotos patentes na Casa Memorial em Skopje

Christopher Hitchens, por seu lado, foi um severo crítico de Madre Teresa, a quem acusou de funcionar como uma espécie de ‘superstar’ da Igreja Católica, gastando muito tempo a viajar e a privar com ricos e poderosos, entre os quais algumas das famílias mais influentes da América do Norte. Hitchens postulou que o “mito” da caridade de Madre Teresa e a sua fama global começou com um documentário do jornalista britânico Malcolm Muggeridge em 1969, intitulado ‘Algo bonito por Deus’. Muggeridge, que passara grande parte da sua vida como agnóstico, convertera-se recentemente ao cristianismo. Terá ficado maravilhado com a suposta obra de Madre Teresa, ao ponto de se dedicar a partir de então a popularizá-la no mundo inteiro. Uma história curiosa contada por Christopher Hitchens num documentário que realizou desmistificando Madre Teresa é referida pelo próprio director de imagem do documentário que Muggeridge dirigiu em 1971.

Familiares de Madre Teresa
Familiares de Madre Teresa

O mesmo conta que levaram para a Índia vários rolos de um novo filme da Kodak, ainda não experimentado. Malcolm Muggeridge e a sua equipa andaram a filmar as casas onde as Missionárias da Caridade tratavam os muito doentes e moribundos. A luz era fraca e difusa. Mas quando foram ver o que tinham filmado, verificaram que a luz estava óptima. O director de imagem conta: “Eu estava prestes a dizer: três vivas à Kodak, mas Malcolm Muggeridge começou a gritar que se tratava de luz celestial, insinuando que era alguma espécie de milagre”. A partir daí, Muggeridge nunca desistiria de defender a insuspeita bondade de Madre Teresa, considerando-a como uma santa na Terra.

Com Ted Kennedy

Hitchens e outros críticos, como Robin Fox, contam outra história, que tem vindo a granjear cada vez mais atenção dos media. Segundo eles, Madre Teresa na realidade não se preocupava muito em prestar cuidados médicos aos pobres e doentes de Calcutá: estava mais preocupada em fazer com que se convertessem ao Catolicismo antes que morressem. As casas onde os mesmos eram tratados só poderiam ser consideradas “hospitais” ou “casa de saúde” com muito boa vontade: eram, na verdade, apenas albergues para moribundos. Mesmo jovens doentes com infecções que seriam curadas com antibióticos eram deixados morrer, sendo-lhes prestada praticamente apenas ajuda “espiritual” do tipo cristão. Enfermeiras que trabalharam com Madre Teresa depuseram também neste sentido em público, dizendo-se chocadas com a falta de cuidados médicos básicos, limpeza e mesmo esterilização de agulhas de seringas por parte das Missionárias da Caridade. Para estas, eram as almas, ganhas para o Catolicismo, que importavam mais que os corpos.

Com Hillary Clinton

Os críticos não deixaram de ser levados em consideração pela própria Igreja Católica. Christopher Hitchens foi mesmo chamado pelo Vaticano para ser testemunha contra Madre Teresa no processo que, mau grado o seu testemunho, conduziria à beatificação, em 2003. Uma beatificação que resultou de um suposto milagre muito polémico. Monica Besra, uma indiana, ter-se-ia curado de um tumor no estômago de um modo aparentemente inexplicável. O “milagre”foi atribuída a Madre Teresa, mas Ranjan Mustafi, o médico que tratou de Monica Besra, disse ao jornal norte-americano “New York Times” que a doente tinha um cisto e não cancro. “Não foi um milagre”, insistiu o clínico. “Ela tomou medicamentos durante nove meses a um ano”. O próprio marido de Monica Besra afirmou que a sua esposa “foi curada pelos médicos e não por um milagre”.

Com o casal Bush...
Com o casal Reagan

Amanhã, Madre Teresa será canonizada por outro suposto milagre, ocorrido com um brasileiro, Marcilio Haddad Andrino, um engenheiro que foi diagnosticado com hidrocefalia e com uma infecção rara no cérebro. A mulher de Andrino começou a rezar para Deus e Madre Teresa, pois uma “ex-superior dela tinha-se curado de um aneurisma cerebral rezando para ela”. Os médicos decidiram operá-lo, apesar de a intervenção ser perigosa, mas Andrino acordou bem disposto, com “paz interior” e sem dores de cabeça, e a operação acabou por ser adiada. Terão descoberto depois que os abcessos se tinham reduzido em 70 por cento e a hidrocefalia desaparecido. Algo aparentemente inexplicável pela ciência.

Com João Paulo II, que a beatificou.

Andrino e a família estarão no Vaticano aquando da cerimónia de canonização que decorrerá amanhã. Madre Teresa, que morreu em 1997 em Calcutá, aos 87 anos, de ataque cardíaco, ascenderá ao título de santa pelas mãos do papa Francisco. Mas é certo que as polémicas em torno da sua suposta bondade e santidade não deixarão de se avolumar. Entre as críticas que lhe foram movidas por Hitchens e outros, estava a sua tendência para se relacionar (e aceitar verbas e honrarias) de personalidades de grande destaque como Lady Diana, Ronald e Nancy Reagan, os Kennedy e outros. E o modo inflexível como condenava veementemente o controle da natalidade, mesmo em países superpovoados como a Índia. Quanto ao aborto, chegou mesmo a considerá-lo “a maior ameaça à paz mundial”. Madre Teresa passa a ser santa, mas não se livrará facilmente da discussão e da polémica em torno da sua vida e obra.