A manipulação informativa/deformativa

 

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Num mundo marcado pela avalanche diária de informações, onde a complexidade dos factos, dados e eventos é evidente, o processo de distorção informativa provocado pela manipulação de contextos por alguma comunicação social permite perceber como é importante identificar o ADN de uma notícia.
Vem esta nota introdutória a propósito de alguma comunicação social mais apressada ou manipuladora ter, nas últimas semanas, espalhado aos quatro ventos notícias claramente feridas de exatidão, isenção e rigor.
Primeiro, para não destoar da chamada Silly Season, tivemos a falsa notícia de que o atual Executivo decidira acabar com a isenção do imposto de circulação automóvel (IUC) a pessoas com deficiência, esquecendo-se os manipuladores (!!!) de informar que a medida se aplicava quando o imposto a pagar excede os 200 euros, e apenas na parte que ultrapassa os 200 euros. Ou seja, o proprietário de um carro que tenha de pagar um IUC de 250 euros, por exemplo, acaba por pagar apenas 50 euros na altura em que tiver de o fazer. Seriam pormenores? Informações de somenos importância? Ou o segredo do negócio está em ser, conveniente e subrepticiamente, seletivo?
Registe-se que a este propósito, o Ministério das Finanças veio esclarecer que, do universo total de veículos, cerca de 90% estão em condições de obter uma isenção total, ou seja, pagam menos de 200 euros de IUC, e 8% dos veículos terão valores de IUC a pagar inferiores a 50,61 euros. Resumindo, nas contas do fisco, apenas 2% dos veículos terão valores de IUC a pagar superiores a €50,61, havendo, afinal, limites mínimos. Mais uma vez, pormenores, mas o que vale é que a mentira tem perna curta.
Como não há uma sem duas, os habituais intoxicadores da opinião pública voltaramà carga com a notícia habilidosamente manipulada de que a Autoridade Tributária passaria a ter acesso a todas as contas dos residentes em Portugal, mesmo que sem suspeitas ou acusação de delito fiscal.
Não obstante, depois da manipulação, desconhecimento ou incompetência na divulgação da notícia, e depois de os do costume procurarem insidiosamente “envenenar” a opinião pública, abrir telejornais, suscitar correntes de especulação, censura e ataques virais nas redes sociais, a verdade acabou por ser reposta quando se soube por alguns órgãos de comunicação social (apenas alguns mais sérios) que a medida só se aplica a saldos acima dos 50 mil euros. Abaixo desse valor, ficarão fora do radar de controlo.
Acresce que o Ministério das Finanças adiantou que os bancos só serão obrigados a fornecer essas informações quando os saldos das aplicações financeiras dos clientes que residem em Portugal ultrapassarem o limiar dos 50 mil euros. No caso de um não residente com contas bancárias em Portugal, o Fisco português irá fornecer à entidade homóloga do país onde essa pessoa vive os saldos e juros de todas as aplicações financeiras. Já quanto aos cidadãos que vivem em Portugal e têm dinheiro lá fora, as autoridades fiscais estrangeiras vão obter informação junto das instituições e enviar esses dados para Portugal.
Em todo o caso, se bem que a manipulação não tenha surtido os efeitos desejados, acabou (como em muitos outros casos paralelos) por revelar-se produtiva para os seus promotores. Assim se venderam mais jornais, e assim se pôs fermento de padeiro em audiências televisivas acerca da (in)constitucionalidade do diploma, procurando alimentar a ideia (perversamente cozinhada pelas vozes do dono) de que o Governo teria poderes para passar a pente fino todas as contas, de todos os clientes dos bancos, mesmo sobre quem nunca recaiu qualquer suspeita de delito fiscal.
Em suma, se é certo que a cultura tradicional do jornalismo enfatiza a veracidade e exatidão de factos e dados, não é menos verdade (perante os gritantes exemplos em apreço) que ainda não desenvolveu o mesmo grau de especificidade e detalhe em relação aos procedimentos editoriais, contextualizando correta, profissional e honestamente uma notícia. A quem poderão aproveitar estes entorses éticos e deontológicos? Suspeito que há muito Observador a apanhar Sol a mais na moleirinha.