Cerca de uma vintena de casas afectadas na Pena e na zona próxima da Ribeira de João Gomes

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Fotos: Rui Marote

É uma autêntica dor de alma. A equipa do Funchal Notícias percorreu hoje a Rua Silvestre Quintino de Freitas e várias das suas transversais, becos, veredas e impasses, e deparou com um cenário de destruição bem acima das nossas expectativas.

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Já ontem havíamos presenciado casas a arder, pessoas desesperadas para salvar os seus bens e valores. Mas hoje a verdadeira dimensão da impotência destes proprietários para protegerem as suas habitações ficou bem clara.

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Segundo nos contaram vários moradores, as faúlhas findas do fogo que grassava mais a norte pegaram fogo a terrenos sobranceiros à encosta da Ribeira de João Gomes e a casas que se encontravam debaixo da mesma, nas imediações do antigo Matadouro. A partir daí, as chamas galgaram a encosta e espalharam-se a terrenos de bananeiras e a residências, e foram, por sua vez, pegando fogo a casas próximas. Também as faúlhas espalhadas pelo vento impiedoso que se fazia sentir incendiaram, por seu turno, outras residências. E foi assim, num efeito de dominó, que foram soçobrando as propriedades e os sonhos de muita gente.

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Há histórias duras e comoventes. O FN esteve na área onde, segundo nos contaram vizinhos, morreram três pessoas, D. Zeza (59 anos), D. Umbelina (cerca de 80 anos) e D. Ângela (cerca de 60 anos).

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A D. Zeza era nora da D. Umbelina. Aparentemente terá tentado retirá-la do local, dado que a D. Umbelina se encontrava acamada, ou, pelo menos, impossibilitada de se mover facilmente, contaram-nos vizinhos. Terão, supostamente, morrido as duas nessa tentativa de fuga.

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As casas ficaram completamente calcinadas. Apenas as paredes estão de pé. O tecto colapsou. O entulho mistura no chão das diferentes residências, nas quais ainda por cima fomos encontrar caras conhecidas, desde restos de livros a antigas bonecas e toda a espécie de outros bibelots e recordações.

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“Era aqui que fazíamos os nossos jantares de família”…, lamentam dois jovens que visitavam a casa destruída de um progenitor. Nada se aproveita. E quantas destas pessoas eventualmente nem teriam seguro? Só Deus sabe. Outras pessoas visitam a casa de familiares ou pais que, apesar das tentivas de combate ao fogo, tiveram de abandonar tudo e fugir pois “não havia mais nada a fazer”, como reconhecem. Alguns ainda têm coragem para sorrir e dizer chistes. É o estoicismo face à tragédia. Tentaram, inclusive, ajudar vizinhos, substituíram-se aos bombeiros enquanto estes não chegavam. A alguns locais, aparentemente, o socorro nem chegou a tempo: as casas arderam num ápice. Bilhas de gás calcinadas, algumas que não chegaram a explodir, outras que o fizeram com aparato e foram projectadas contra portões de ferro, no qual ficaram enfiadas e retorcidas, estão um pouco por todo o lado. Outras estão intactas. Os habitantes trouxeram-nas todas para a frente do bar conhecido como ‘Redondo’, mas intitulado ‘Alto da Pena’. E ali algumas ainda permanecem, no relvado.

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Muitas pessoas afadigavam-se a limpar as suas casas das muitas cinzas que as invadiram. Ainda se viam pessoas com máscaras protectoras na face. As cinzas que esvoaçam ainda são muitas. O cheiro a fumo é opressivo e está bem presente.

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Trabalhadores da empresa de electricidade montavam já cabos eléctricos em substituição de outros que caíram ou foram destruídos, subindo a escadas e restabelecendo as ligações.

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Entretanto, das zonas de algumas das casas destruídas ou afectadas pelas chamas, era visível a encosta do outro lado da Ribeira de João Gomes e a enorme extensão de terreno, em socalcos, que também ali ardeu. Uma casa que se encontrava ali para venda também foi completamente destruída.

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Acabámos por perder a conta ao número de habitações consumidas pelas chamas. Penso que nos perdemos para aí à volta das quinze casas destruídas… O panorama era verdadeiramente desolador. No total e só nesta zona da Pena e das proximidades da Ribeira de João Gomes, umas vinte casas devem ter sido gravemente afectadas.

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Alerta-se também para a necessidade de consolidação da encosta calcinada, do lado Oeste da Ribeira. Há pedras e muros em risco de cair a qualquer momento.

Os habitantes da zona deram-nos conta de momentos de grande aflição passados ontem à noite, os quais, aliás, pudemos testemunhar, enquanto as chamas se espalhavam e as botijas de gás explodiam. “Tivemos medo. Felizmente a nossa residência não foi afectada, mas as chamas estiveram muito perto”, disse-nos uma senhora.

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Não nos consta que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vá passar por aquela área, nesta visita à Madeira. Mas arriscamo-nos a dizer que, para além do terrível impacto ambiental que tiveram os fogos nas serras, é numa área urbana como esta que poderia verdadeiramente aferir do impacto humano que têm estas catástrofes, na vida das pessoas de classe média, que não têm posses para simplesmente começar de novo no mesmo ponto em que estavam antes da tragédia as ter afectado. Para muitos, é uma perda irreparável. O FN encontrou até um cidadão que tinha feito a escritura de uma casa que ali comprou, precisamente no dia anterior. Firmara a aquisição do imóvel. Ao lado, as casas onde morreram três pessoas. E a sua residência ainda chegou a ser afectada. Não há palavras para descrever a tristeza do que vimos.

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