Ricardo Vieira opina: Combater a tendência de Nero

icon-ricardo-vieira-opiniaoDesafiado, ainda duvido: da oportunidade, das erradas interpretações, dos julgamentos injustos deste propósito. A 40 milhas de distância, mas com a proximidade do zapping e do telemóvel, também alimentada por esta enorme vontade de estar no meio, no fumo e na lágrima, no abraço e no grito de revolta, atrevo-me. Quem ama a Madeira e o seu povo nunca está longe, e por isso não perde a legitimidade de se indignar e de esperar melhor.

O fogo atacou-nos pelas costas e provou a nossa solidão. Como os corsários de outros tempos, ele levou-nos ao reconhecimento das nossas debilidades, da incapacidade de sozinhos atiramos para além das desertas, esse assaltante às nossas coisas, à nossa riqueza. Mas também pôs a nu a fragilidade das lideranças, a impreparação de quem recebeu o munus de nos liderar.
Lembrei-me de Nero, imperador romano que no meio do incêndio buscou a sua lira com que cansava os ouvidos da corte. O lirismo de hoje não é musical é muito mais que audível. O lirismo de hoje é sistémico, é vício desta contemporaneidade que vive do fascínio, da sensação, da imagem mas não consegue ter a aturada reflexão, a ponderada decisão, a necessidade de sair das teorias e baixar à realidade, senti-la e dar-lhe futuro diferente, porque mais seguro.
Em Nero, estão os milhões derramados em marinas da nossa vergonha, quando a segurança das pessoas exigia prevenção à fragilidade que este leste demonstrou. Oiço os teóricos das florestas que teimam em excluir a actividade humana necessária à sua rentabilização/preservação, e vejo Nero dedilhando nas cordas dessa lira. Leio repetidos apoios e promessas e confundo com os acordes desse alucinado da época romana.
Este fogo que arde a nossa vontade não se pode demitir no fumo que impede a visão. Não estamos destinados à desgraça das intempéries que por se repetirem pedem necessariamente responsabilidade. Não temos o direito de orgulhosamente nos alicerçarmos em tranquilidades que não são credíveis ou em displicências que nos ofendem.
Há que ter a coragem de pôr o dedo na ferida:
– temos de ter uma política florestal que faça do utilizador do terreno o seu principal defensor. Não acreditamos, como se prova, que o sector público seja capaz de gerir bem as nossas serras, embora a ele caiba a sua regulação e fiscalização. Ordenamento florestal com a coragem de devolver a superfície florestal a quem mais a ama: o povo da Madeira. Ele saberá desmatá-la e arrancar as infestantes inflamáveis, se lhe derem a oportunidade de dar rendimento a essas propriedades.
– temos que pensar na prevenção a sério que assinala prematura e atempadamente focos de combustão, através dos sistemas telemáticos de visualização do território;
– temos de ter outros meios, mais modernos e eficazes de combate aos incêndios. Apostemos nos meios aéreos e nos equipamentos adequados à nossa orografia e à nossa dimensão. A Madeira não é diferente de La Palma que combate o fogo com aviões e helicópteros.
– temos que dar melhor formação aos nossos bombeiros, renovados na idade e nas técnicas, onde à sua louvável bravia se associe a melhor preparação. Reconhecer que apenas se contou com 100 efectivos, num dia de potencial risco, previsto há mais de uma semana, é de uma incompetência assustadora!
– temos que punir o crime e tratar dessas patalogias que nas imagens aguçam o gosto pela destruição. É inadmissivel que a lei permita que um juiz aplique ao pirómano um estatuto de liberdade interrompida por uma visita quinzenal à esquadra da sua residência.
Ao fatalismo que tantas vezes se refugia numa alucinada melodia de poder instalado, qual Nero ressuscitado, há que contrapor uma nova política, menos convencida mas mais eficaz, mais próxima da realidade possível e palpável. O desafio é envolver todos na defesa do que é nosso, não só para mostrar ou exibir aos outros, mas fundamentalmente porque é património que recebemos para usufruir e legar.