O seminário “Desgaste Profissional Docente: Causas, Consequências, Medidas a Tomar”, no auditório do Sindicato dos Professores da Madeira, arrancou ontem com o enquadramento do tema feito por um professor, Nélio Sousa, sobre a realidade vivida pelos professores.
Seguiram-se os preletores Marcelino Mota, psicólogo clínico, especializado em terapia comportamental e cognitiva, Saul Neves de Jesus, professor catedrático de psicologia da Universidade do Algarve, e a psicóloga Diva Fernandes, formadora na área da Psicologia da Educação, que abordaram os fenómenos do stress e burnout.
Antes disso, na sessão de abertura, Francisco Oliveira, coordenador do SPM, sublinhou a importância de prevenir e procurar soluções para os fatores que stressam os docentes e aquilo que o sindicato e a Fenprof têm feito, nomeadamente na defesa da aposentação aos 36 anos de serviço.
Alertou ainda para os problemas que se agravam para a docência com a nova legislação na Região, no setor da educação.
Por seu turno, docente Nélio Sousa deu conta dos principais fatores de stress vivido pela classe. Começou pelos aspetos mais gerais como a erosão identitária e material dos professores, ao longo dos anos, e diversas tensões, incoerências e contradições na profissão, como por exemplo a desvalorização social dos docentes mas, simultaneamente, a exigência, pela mesma sociedade, de um professor faz-tudo, consegue-tudo e cura-tudo.
Foram depois abordados os fatores de stress mais específicos: a dispersão funcional (o professor canivete suíço); a precariedade (instabilidade, desemprego, baixa de salários); o agravamento das condições de trabalho; o ambiente de conflitualidade e pouca ética nalguns casos; a proliferação de reuniões (pouco produtivas); a proliferação de atividades extracurriculares; o cargo de diretor de turma e contacto com os encarregados de educação; o ruído dentro e fora da sala de aula; o número de níveis, turmas, alunos e extensão dos programas; pressão para apresentar resultados escolares positivos; substituição de colegas de baixa ou licença em cima do seu horário; a avaliação constante da ação do professor; a burocracia e, no topo, a indisciplina.
Por seu turno, Marcelino Mota abordou o stress como mecanismo de sobrevivência e como transtorno de vida. Após explicar a fisiologia e as consequências do stress, referiu que a situação de stress intensificada, prolongada e que não se resolve conduz à exaustão e ao burnout.
A profissão docente é das mais afetadas pela exposição continuada a fatores de stress, que estão para além das aptidões pedagógicas em que receberam treino os professores.
Integrada no grupo das profissões de stresse, a profissão de professor, particularmente a associada ao ensino básico, em todos os ciclos, e ao ensino secundário, é penalizada por: 1. Sofrer de elevada intensidade e frequência de estímulos stressores; 2. Enfrentar difíceis condições laborais, sentir falta de reconhecimento ou até desvalorização do seu trabalho e ter excesso de carga horária; 3. Viver uma elevada responsabilidade para com terceiros; 4. Obter poucas consequências positivas na atividade, que façam reverter os efeitos dos agentes fisiológicos do stresse (quando existem são em diferido).
Esta ausência de retorno não ajuda a compensar o stress. E concluiu que os professores só não fazem o pleno dos fatores que provocam stresse porque, por enquanto, não parecem correr riscos de morte.
No que toca a soluções, no caso da indisciplina a punição tem de ser imediata, para não haver o seu reforço, e defendeu a refundação da escola como uma família, com solidariedade, ambiente de interajuda e capaz de compensar aquilo que as famílias não desempenham nos dias de hoje devido a fatores sociais.
Alertou para a necessidade da responsabilização dos pais, revalorização dos professores, estabilização dos programas pedagógicos e renovação dos quadros por via da antecipação da aposentação dos professores.
Na sua intervenção Saul Neves de Jesus deu conta dos efeitos negativos permanentes nos professores, em resultado das condições psicológicas e sociais em que exerce a profissão. Isto numa sociedade em que há um excessivo pessimismo, com os objetivos e resultados a depender cada vez menos da ação e esforço da própria pessoa, e um nível de stress cada vez mais elevado.
Lembrou que, em 1996, um estudo demonstrou que 51% dos professores queriam deixar de exercer a profissão, o que deixa adivinhar o aumento que existirá, vinte anos depois, decorrente da forte erosão social, identitária, material e das condições de trabalho da classe docente.
A dificuldade da gestão dos comportamentos na sala de aula é um dos fatores de mal-estar que afetam diretamente o trabalho do professor.
A encerrar o primeiro dia do seminário, a psicóloga Diva Fernandes abordou “O Burnout na prática docente – prevenção, avaliação e intervenção”.
O excesso e sobrecarga de trabalho e os conflitos interpessoais são as principais causas de burnout, mas também a falta de apoio dos colegas e supervisores, entre outras.
O burnout caracteriza-se pela exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal.
Deu ainda conta de estudos em Portugal sobre o problema em diferentes profissões, em que se prova que 30% dos professores apresentam elevados níveis de burnout.
O seminário “Desgaste Profissional Docente: Causas, Consequências, Medidas a Tomar”, continua hoje, sábado, dia 16, às 09h00 com a preleção de Sofia Henriques, educóloga, coach e formadora na área do desenvolvimento pessoal na RAM (“EUSTRESS: Eu Quero, Eu Posso, Eu Consigo!”), e fecha com Carlos Alberto Gomes, professor de sociologia da Educação da Universidade do Minho (“Guerra e Paz na Sala de Aula”).
Haverá depois um período de debate e de construção de propostas de ação, isto é, medidas concretas a tomar de combate ao stress na profissão docente e melhoria das condições de trabalho na escola e sala de aula.
O encerramento do seminário/formação será feito por Micaela Santos, diretora do Centro de Formação do SPM. A conclusão dos trabalhos acontece hoje às 13h30.
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